domingo, 22 de fevereiro de 2015

Medeiros Ferreira: O “profeta desarmado” no país da “disciplina partidária”


Constelação de estrelas mediáticas e políticas compareceu na Gulbenkian para “celebrar” a vida do ex-ministro que ajudou Portugal a entrar na CEE.
Por mais de uma vez, ao longo do último dia do colóquio que, na Fundação Gulbenkian, homenageou o desaparecido político e historiador próximo do PS, José Medeiros Ferreira, os intervenientes citaram a expressão com que o próprio político se caracterizava. Via-se como um “profeta desarmado”, recuperado da pena de Maquiavel, expressão que, mais tarde, viria a ser utilizada para catalogar Leon Trotsky. No entanto, ao longo das horas de palestras sobre as mais variadas “facetas” da vida do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros que ajudou Portugal a entrar na CEE, o retrato que pairou no auditório foi de um profeta maldito.
PÚBLICO

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Conheci Medeiros Ferreira no Regimento de Infantaria Nº 1, na Amadora. Eu estava a cumprir o meu primeiro serviço militar obrigatório e ele apareceu para se enquadrar numa companhia, que partiria para África. À noite, no salão da Messe de Oficiais, juntamente com mais dois ou três alferes, discutíamos a política nacional, as greves académicas, das quais ele foi um dos líderes, e a Guerra Colonial. Medeiros Ferreira destacava-se do grupo, quer pela solidez do seu discurso, quer pela muita informação que recebia clandestinamente de vários grupos de exilados políticos, em França, na Suíça e na Argélia, Chegou a emprestar-me dois livros, em edição francesa, sobre a Guiné e sobre Amílcar Cabral.
Num certo dia e a uma certa hora, chegou a notícia ao Quartel: Medeiros Ferreira tinha desertado. 
É ele o autor daquela célebre sigla dos três "D": Democratizar, Descolonizar e Desenvolver, que titulou a sua tese, que ele, da Suíça, fez chegar ao III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, através da sua mulher, e que, posteriormente, foi recuperada pela revolução de Abril.

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