quinta-feira, 14 de abril de 2011

Um Poema ao Acaso: inércia - Miguel Pires Cabral


inércia

Avanço pela noite
contra o desbotar branco das fotografias.
Conheço «de cor» este lugar, este país,
esta espécie de inércia histórica
que nos abraça familiar
desde a mais longínqua infância.

Por vezes penso que não te pertenço
que não te desejo
que não deveria ter nascido aqui.
Por isso avanço contra inércia,
contra a cidade, contra o reino da apatia.
E as palavras a arder – contra os limites do futuro.

Miguel Pires Cabral
***
Nota do editor: A propósito deste poema, deixei escrito no blogue do autor o seguinte comentário:
Caro Miguel:
Este belo poema traduz bem o sentimento da descença e do esfumar da esperança da nossa identidade colectiva.Todos nós estamos a perceber que alguma coisa está a morrer e não sabemos ainda se vai voltar a nascer. E é por isso que todas as palavras ardem "contra os limites do futuro".E é também por isso que todos começamos a pensar que não pertencemos a este país, que nos aparece em fotografias desfocadas e desbotadas.
Que eu saiba, o Miguel é o primeiro poeta a abordar esta lancinante angústia do momento presente, recolocando-a no patamar da atávica inércia de todos os tempos da nossa História.
Vou publicar este seu poema no meu blogue, o Alpendre da Lua.

1 comentário:

mariagomes disse...

Outro belo, grande poema!