terça-feira, 19 de abril de 2011

Notas do meu rodapé: É à Geração à Rasca que compete agir


A resignação é uma característica do povo português, que foi moldada por trezentos anos de Inquisição e quarenta de salazarismo. A História da Europa sempre lhe passou ao lado. Nos tempos modernos, nunca fez uma revolução. Limitou-se a apoiá-las. E, mesmo assim, deixou-as sempre a meio do caminho, sem as completar. Em Portugal, as elites são medíocres. Não têm capacidade de iniciativa, nem visão estratégica, e limitam-se a seguir figurinos importados, que, quando chegam, já se encontram ultrapassados.
A minha esperança volta-se para a actual geração, à qual etariamente eu não pertenço, e que adoptou a designação de “Geração à Rasca”. Só ela pode desinfestar o país da clique política dominante, que transformou o Estado numa coutada dos grandes interesses privados, se, entretanto, ela souber tirar partido da sua potencial força, que o actual poder político, displicentemente, procurou desvalorizar, embora intimamente lhe reconhecesse o perigo, já que nenhum regime poderá sobreviver se a juventude desertar. Imagine-se o grande rombo no prestígio do regime e o grande susto por essa Europa fora, se os 300 mil manifestantes de 12 de Março votassem em branco. Seria um escândalo monumental, que nenhuma demagogia poderia iludir.
Mas, se não for encontrado, até às eleições, um consensual objectivo político comum, alicerçado numa motivação forte, abrangente e aglutinadora, destinada a esvaziar o actual regime, que já não tem nada a ver com a generosa revolução de Abril, esbate-se e afunda-se o genuíno movimento, que se exprimiu vigorosamente em 12 de Março. Esse objectivo poderia muito bem ser o do boicote claro aos partidos do arco governamental, o PSD e, principalmente o PS, os únicos responsáveis por esta profunda crise económica, política e social. Uma campanha a apelar ao voto em branco, dirigida aos aderentes do movimento Geração à Rasca, que anteriormente neles votaram, iria provocar alterações profundas no espectro partidário e obrigaria à escolha de novas políticas, que defendessem os interesses dos portugueses e restaurassem a dignidade do país.
Ao castigar, desta for original, o PS e o PSD – por terem aceitado, sem pestanejar, as absurdas exigências de Bruxelas, e de se sujeitarem a colocar-se de joelhos aos pés da troika UE-FMI-BCE, que vem governar ditatorialmente o país – as próximas eleições iriam perder toda a legitimidade política.
Atraiçoando a Pátria, as direcções políticas desses dois partidos fizeram escandalosas vénias e humilhantes genuflexões aos peões de brega do capitalismo financeiro internacional. A entrada do FMI em Portugal constitui uma descarada e inaceitável ingerência, que ofende a independência nacional. Os portugueses não podem ser as vítimas das profundas contradições do capitalismo selvagem e especulativo. Os banqueiros e os grandes accionistas dos fundos de investimentos e das multinacionais já arrecadaram os lucros, querendo agora endossar os prejuízos da sua agiotagem predadora para terceiros.
Eu também vou lutar contra esta prepotência, pois não quero que o meu filho e os filhos dos portugueses da minha geração continuem a ser uma geração à rasca.