domingo, 30 de maio de 2010

Notas do meu rodapé: Como se liquida uma candidatura...



A vingança serve-se fria
Aniquilar politicamente Manuel Alegre é um objectivo
comum de Sócrates e de Mário Soares, que não lhe
perdoam a rebeldia e o desalinhamento. Alegre é o
inimigo de estimação de ambos, e ambos já
demonstraram como são terrivelmente cruéis para
com aqueles que se atravessem no seu caminho. A
velha raposa prestou-se a libertar Sócrates do ónus
de rejeitar o candidato natural do PS à Presidência da
República. E foi esse tácito entendimento, que levou
Soares a defender Sócrates no caso das escutas.
Noutras circunstâncias, Soares tê-lo-ia retalhado.
E é nestas cumplicidades contra-natura, a alimentar
projectos pessoais, que se alicerça a política portuguesa,
com claros prejuízos para o interesse nacional.
Alpendre da Lua 19 de Fevereiro de 2010
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Manuel Alegre quer ser o Américo Tomaz de Sócrates
Depois de se afirmar nas últimas eleições presidenciais
como o candidato da rebeldia e do confronto, Manuel
Alegre, nesta sua segunda candidatura, e na humilhante
condição de mendigo, começa a suplicar insistentemente
pelo apoio de José Sócrates. Ao estilo da grandiloquência
dos discursos do passado e ao apelo constante dos valores
da República, sucede agora a colagem ao recurso das
cabalísticas teses conspirativas, na nova expressão de um
outro inimigo, desta vez externo - as agências de rating.
Sócrates vai esticar a corda até o ver de joelhos, submisso
e discreto, para que toda a gente perceba quem é que
realmente manda .
É penoso ver um grande poeta nesta posição inconfortável.
Alpendre da Lua 1 de Maio de 2010
***
Em 17 Fevereiro, o Diário Notícias anunciava a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Dois dias depois, o próprio Fernando Nobre anunciava-a ao país, em cerimónia pública. Nesse próprio dia, e sem possuir qualquer informação privilegiada, publiquei aqui a minha opinião sobre o significado desta candidatura, que apanhou de surpresa toda a gente. Sinalizei a oculta presença de Mário Soares, como principal inspirador da ideia, e que teria contado com o apoio tácito de Sócrates. Não me enganei no meu prognóstico. E não me enganei, porque sabia que, quer Mário Soares, quer José Sócrates, nunca perdoam aos seus inimigos. E Manuel Alegre é o inimigo de estimação de ambos.
Um verdadeiro trabalho de sapa, desenvolvido silenciosamente pela ala soarista, minou irreversivelmente a candidatura de Manuel Alegre, que não se apercebeu a tempo de que aqueles seus dois camaradas são homens de uma ambição desmedida e possuem um espírito terrivelmente vingativo.
José Sócrates, a quem convinha aquele acordo tácito, comprou acessoriamente o silêncio de Soares em relação à governação socialista, governação que, certamente, tal como já acontecera em contextos anteriores, de menor gravidade, lhe teria merecido severas e venenosas críticas, atiradas para o ar com aparente distanciamento, mas que revelam ser alavancas poderosas para os seus aliados no activo, dentro do partido. Soares nunca gostou de Sócrates, e só esta particular circunstância de querer liquidar politicamente Alegre lhe adoçou a postura.
E se Mário Soares armou o laço, foi José Sócrates que apertou o nó da forca. Quando abdicou do secretismo e da necessária confidencialidade, em que ele é mestre em cultivar, ao começar a auscultar as vozes do partido em relação à candidatura a apoiar, permitindo intencionalmente uma ampla cobertura mediática, Sócrates já estava a encaminhar Manuel Alegre para o patíbulo. Com este golpe, o poeta ficou com a sua posição mais fragilizada dentro do seu próprio partido. Uma fragilização a que se soma uma outra, mais silenciosa, e que radica na perda de apoios à esquerda, entre aquela numeroso grupo de cidadãos, que lhe deram os 19 por cento de votos nas anteriores eleições presidenciais, e qua agora se sentem desiludidos perante a subserviência manifestada por Alegre em relação a Sócrates . Mesmo que venha a obter, no conclave de hoje, um apoio mitigado do seu partido, Manuel Alegre já tem a sua eleição gravemente comprometida. A não ser que o seu adversário de direita, Cavaco Silva, venha a ter problemas de percurso, o que parece pouco provável, já que a recente erupção de descontentamento dos representantes dos católicos conservadores, a propósito da promulgação do casamento homossexual, não passou de um fait divers exploratório, sem consequências.