sexta-feira, 12 de abril de 2013

Soares avisa que "quer atirar abaixo o Governo"


O ex-chefe do Estado fez duras críticas à actuação do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, nomeadamente às "pressões terríveis" e ao "atrevimento" de discutir a decisão do Tribunal Constitucional: "Isto tem algum sentido democrático? Onde é que está a democracia para esses senhores?"
O fundador do PS vincou que Portugal não tem condições para pagar a dívida e que "o Estado, por mais que roube o dinheiro às pessoas, não é capaz de pagar aquilo que deve", tendo defendido que "quando não se pode pagar, a única solução é não pagar".
Soares considerou ainda que é necessário "falar grosso à troika" e, de forma muito clara, dizer que não é possível continuar com esta política.
Para o ex-Presidente da República, num momento em que "mais de dois terços do país" estão contra o executivo de Passos Coelho, torna-se indispensável "acabar com a austeridade e com a ânsia de ser úteis à senhora Merkel", tendo considerado que o caminho passa por mudar de Governo.
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Até que enfim vejo alguém do PS em tendencial sintonia com aquilo que eu penso! E esse alguém não é uma pessoa qualquer. Trata-se de um ex-Presidente da República, de um ex-primeiro-ministro, que exerceu dois mandatos sucessivos em cada uma daquelas altas funções, de um ex-deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, e, acima de tudo, do fundador do Partido Socialista, do qual foi o secretário-geral mais carismático.  Desassombradamente, Mário Soares disse aquilo que o governo e a direita não gostam de ouvir e que muitos socialistas pensam, mas que não têm tido coragem de o afirmar. Já dissemos aqui que a condição de devedor não obriga à submissão à vontade discricionária do credor. À chantagem dos dirigentes da UE, Portugal, fazendo das fraquezas forças, só tem que responder com a firme ameaça de não pagar a dívida e de sair do euro. É o suficiente para provocar um terramoto financeiro e político na Europa, e que aqueles dirigentes, a todo o custo, querem evitar. A arrogante Alemanha viu várias vezes, durante o século passado, parte as suas dívidas a serem generosamente perdoadas, inclusivamente as dívidas das indemnizações de guerra à Grécia. Porque negar, agora, a Portugal e à Grécia o mesmo tratamento?
Portugal já não poderá pagar a totalidade da sua dívida pública, tal é o seu montante. E as dificuldades de cumprir aquele compromisso aumentarão na proporção direta do aumento da austeridade, que venha a ser aplicada ao país, tal como está a ser planeado na reunião do eurogrupo, em Dublin.  Já está provado que, com a austeridade, não há crescimento. Há recessão económica, que irá provocar um desastre de proporções gigantescas e dramáticas.