segunda-feira, 1 de abril de 2013

Notas do meu rodapé: A cartelização da economia portuguesa

Amabilidade de Campos de Sousa
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Este problema, o do inflacionamento dos preços ao consumidor, por parte dos bancos e das grandes empresas de bens e serviços, que cartelizaram a economia portuguesa, não é de agora. É uma história já antiga e que é sucedânea à do protecionismo dos tempos de Salazar. Lembro-me de uma crónica de António Barreto, no PÚBLICO, há uns quinze ou vinte anos, em que ele se insurgia contra a diferença significativa de preços, praticados pela Telecom, em relação aos preços praticados na Grã-Bretanha. Dizia ele que as chamadas telefónicas de Londres para Lisboa ficavam mais baratas do que as efetuadas em sentido contrário, de Lisboa para Londres. O mesmo se passava com as tarifas das transportadoras aéreas, ficando mais barato comprar em Londres, através de um telefonema, uma viagem aérea de Lisboa para aquela cidade.
Na altura, e prolongando a análise para outros setores da economia, procedi à seguinte conclusão: Por falta de escala do mercado português, quer em número de consumidores, quer pelo seu inferior poder de compra, estas grandes empresas, que não perderam os hábitos da sua característica monopolista, procuram, através de um injusto aumento de preços, igualar o nível de lucros (em valores absolutos) das suas congéneres dos países mais ricos, elevando assim a respetiva taxa daqueles lucros, para valores acima da média obtida pelo conjunto das empresas estrangeiras do respetivo setor, o que é um autêntico escândalo. Para acelerar o retorno dos capitais investidos, em tempo curto, para que, depois, a margem de lucro constitua valor acrescentado a esses mesmos investimentos, a coorte de capitalistas portugueses (milhares de grandes acionistas de bancos e de grandes empresas, privatizadas em tempos pelo PSD e pelo PS) decide, através dos seus gestores, praticar preços desproporcionais e desproporcionados para os seus bens e serviços. Trata-se de um roubo à carteira dos portugueses e de um prejuízo para a economia portuguesa, pois o dinheiro cobrado a mais pelos bancos e por estas grandes empresas vai faltar, através do fator consumo, para outros setores e para outras atividades (está por estudar com precisão este efeito nefasto e a sua verdadeira ação predadora). Acresce ainda que a maior parte dos lucros dos acionistas dos bancos e das grandes empresas, escoa-se, por vias complexas, para os paraísos fiscais, à procura de maiores rendibilidades.
A falta de competitividade da economia portuguesa também passa por este estrangulamento estrutural.