sexta-feira, 19 de abril de 2013

Anotação do Tempo: Oh, minha Pátria tão bela e perdida!...


Oh, minha Pátria tão bela e perdida!...

Fiquei suspenso, agarrado ao poema
à espera que todos chegassem
para a reunião magna sobre a salvação dos ídolos.
No meio do vazio das ausências inexplicáveis
resolvi sair para a rua para agarrar o sol
mas a cidade tinha entrado em contraluz
e senti-me agarrado pelos braços de ferro
de sombras gigantescas de uma nebulosa negra…

a cidade estava deserta…

Foi o empregado do banco,
esbaforido e a explodir em esgares de pânico,
que me retirou do torpor da minha irrealidade,
quando eu estava a colar
a última convocatória numa parede suja de sangue
(nesse preciso momento eu cantava
o Nabuco de Verdi
Oh, minha Pátria tão bela e perdida!)
Disse-me que tinha estado à minha espera
até ao limite do tempo
para saldar a última conta do último cliente
antes de ter de abandonar  a cidade…

Alexandre de Castro

Lisboa, Abril de 2013
Publicado no Ponte Europa

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