quinta-feira, 4 de abril de 2013

Poema: Mamã! Mamã Federal! - por maria azenha

Salvador Dali - Rosas de sangramento, 1930

Mamã! Mamã Federal!

mamã: 
o meu corpo caiu na pia baptismal. Foi um percalço.
recebi a tua bênção com os óleos santos 
em algodão de rama. 

Mas que faço agora eu neste bordel das lágrimas, 
com tantas orlas com tantos véus, 
a fabricar poemas nas morgues do Céu? 

Que faço agora eu artesã do sangue 
com a minha mão profana que ficou grávida? 
E a minha mão direita é ainda uma têmpora 
num país distante com lágrimas de sal 

mamã!: 
envia um telegrama a todos os jornais, anuncia 
com o meu coração em febre, 
com todos os meus punhos cerrados como que a rezar, 
que eu fumo cambodja, liamba, 
hiroxima, armas nucleares, 
que rendilho a ferros todos os meus cárceres 
com as palavras brancas do medo 
que saltam dos meus olhos. 

Eu roubei a todos os arcanjos as palavras do ódio! 
fumo cachimbos, goelas de bairros, narcóticos, drugstores democráticos;
mato vinte e sete pessoas por cada prato, 
faço massacres na américa central 
cravo balas nos vestidos amarelos das crianças 
estrangulo o tempo com o sexo dos eléctricos 
ilumino as fezes com feiuras sacro-santas 
faço ícones com toda esta tristeza humana. 

mamã, 
eu rasgo «cânceres» de papel, trabalho as sombras 
com as lágrimas de plástico, 
mexo na história com cadáveres brancos 
estendo os meus braços em tecnicolor 
como numa tela circular humana. 

mamã, 
eu encolho os ombros, espirro, 
bebo cafés evangélicos, grito com os filhos. 
mamã, vivemos juntos!, isto é o meu mau génio. 

ah, mas o Vaticano, 
esse grande gangster de robe, 
que anuncia 
a paz para os domingos, essa pia 
baptismal onde eu também caí com fome 
foi um percalço. 
e o pavimento lustral da carniçada humana 
pisando o sangue, os incensos 
da guerra, 
onde não cabe agora aí o trigo! 
mamã, 
e os uniformes azuis, a dizer 
tão bem com as velas, 
e os pássaros 
e as indochinas 
e os vitrais da esperança com tanta luz 
difundindo as trevas com vapores de chumbo... 
e os trigais maduros a vencer 
o chão, a curvar a terra 
aos anéis do mundo; e as lutas armadas 
e as recitações de tréguas 
e as missas solenes lidas à breviário, 
cantadas por gorilas 
com sapatos d'anjos. 

e a guarda civil e as patrulhas 
e os ofícios e as escolas 
e as embaixadas anfíbias nas tuas nádegas 
onde fica agora aí toda a tua força política. 
( e os tribunais de togas a julgar 
os crimes a barricar as fomes 
esquecendo as dívidas! ) 

mamã, 
onde fica o grande rio das palavras onde fica guatemala 
onde fica a noite dos tam- tans onde fica a esperança 
com os olhos de napalm?! 

onde fica a vida mamã-sacrária? 
mamã! mamã federal, 
esta manhã eu mijei todas as rimas 
todos os versos brancos, 

nessa pia baptismal!

 maria azenha
1987, FOLHA MÓVEL, - pág.76-77-78, 

Nota: Um poema duro, cáustico e corrosivo! Um poema de denúncia do iníquo sistema, que nos atira desapiedadamente para as bermas dos caminhos. Mas, acima de tudo, é o poema da transgressão. E transgredir é subverter e provocar.  E, aqui, Maria Azenha, subverte e provoca o próprio poema, para transmitir eficácia à sua mensagem.

2 comentários:

Maria disse...

Fantástico. Fiquei agarrada...desde a primeira à última letra! Uma bolha de oxigénio agarrada no ultimo suspiro deste afogamento colectivo. Bem haja Alexandre, fantástica partilha.

Beijos
Maria

Alexandre de Castro disse...

Maria: A autora vai gostar, certamente, da referência ao mundo das fortes emoções que este poema desencadeou em si. E uma das definições de Poesia pode ser muito bem esta: a de catalizadora das emoções.
Pela minha parte, agradeço-lhe esta sua visita e a sua presença ativa.
Beijos
Alexandre