sexta-feira, 12 de abril de 2013

João Ferreira de Amaral: "O casamento português com a moeda única deve acabar"

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Nunca defendeu o euro. Foi contra a adesão de Portugal à moeda única e, durante algum tempo, uma das raras vozes, senão a única, que "falava contra". Apoiou, no entanto, a adesão à então Comunidade Económica Europeia (em 1986). Mas, se a União fosse então a mesma que é hoje, a minha posição teria sido diferente". Depois de o País ter entrado na zona euro - e durante algum tempo - calou-se. Não falou contra. Esteve em silêncio durante cerca de três anos. Porém, a actual situação político-económica leva-o a escrever " Porque devemos sair do Euro - O divórcio necessário para tirar Portugal da crise", livro que será lançado no próximo dia 9.
No programa 'Ideias em Estante', em entrevista que poderá ser vista no Etv e no blogue Livros&Ecolemomanias, Ferreira do Amaral - que vê com enorme tristeza o país "reduzido à sua pior situação desde há muitas décadas" - afirma que o país está bloqueado, não tem futuro, as gerações mais novas não têm emprego. E, ou têm que sair do país, ou ficam desempregadas."Há também a sensação de que o país deixou de ter capacidade de crescimento económico" e tudo isso ao mesmo tempo que as dívidas pública e externa se acumulam e atingem níveis muito elevados. "E, sem crescimento económico e com dívidas grandes e sem emprego, é evidente que toda a gente está inquieta quanto ao futuro".
O que fazer? "Sair do euro", mas de forma organizada, defende o autor. No livro, o economista e professor recorre a uma analogia para descrever a realidade: "O nosso casamento com a moeda única, como todos os casamentos falhados, deve acabar". Defende ainda que "a ideia de sair do euro impõe-se para que seja possível incentivar a produção de bens transaccionáveis. Ou seja, de bens que são susceptíveis de exportação ou de substituição de importações". Como explica, quando se desvaloriza uma moeda, existe uma espécie de subsídio à produção da agricultura, indústria, turismo estrangeiro, outros serviços. E o inverso sucede quando temos uma moeda muito forte, esclarece Ferreira do Amaral, afirmando que, nesses casos, as actividades são penalizadas e a tendência será a da produção se virar para o mercado interno em sectores protegidos da concorrência externa. E foi isso que aconteceu. O resultado? O país não aguentou uma moeda forte. Sempre frontal, Ferreira do Amaral apresenta mais um factor de perigo: caso continuemos com a moeda única,"temos um enorme risco do euro se valorizar face ao dólar. E isso já aconteceu em 2008".
Para quem argumenta que a eventual saída do euro seria um desastre via "aumento do peso da dívida", o autor afirma que "esse é um grande erro de análise." A dívida será a mesma depois de sairmos do euro, diz, acrescentando que o instrumento normal para problemas de endividamento externo é a desvalorização cambial. Sobre o risco-país, garante que esse "não aumenta, porque se for credor fico mais descansado por saber que o país passa a ter uma moeda compatível com a sua estrutura produtiva". Alerta, no entanto, para outro problema: a dívida em moeda nacional. Mas aí "o Estado pode substituir os devedores junto da banca no montante de aumento da dívida, que resulte da desvalorização cambial", conclui.
"Sair do Euro não é só uma questão de desvalorização cambial é também uma questão de emissão monetária".
Diário Económico
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Portugal vestiu um fato demasiado grande para o seu corpo. Anda a fazer a figura daquela criança que veste o casaco do pai.
Ao nível económico, a grande contradição que está a ocorrer em Portugal é que a sua economia está a desvalorizar-se, enquanto a sua moeda mantém o mesmo valor, não podendo o governo português desvalorizá-la, já que, com a adesão à moeda única, cada país aderente cedeu ao BCE o poder monetário e o poder cambial, ficando apenas a deter o poder orçamental, que agora os países intervencionados também estão a perder para a troika. Por isso, é urgente que a moeda se desvalorize na mesma proporção, para que a economia ganhe competitividade externa, a fim de aumentar as exportações, e, a nível interno, aumentar a produção nacional, procurando-se assim substituir os produtos importados, que ficarão mais caros.
Esta é a única terapêutica segura, que livrará o país do atoleiro onde o meteram. Mas antes, é necessário Portugal sair do euro e recuperar a total soberania sobre a sua moeda. Apenas os ignorantes, os néscios e os ingénuos não percebem isto. No entanto, existem outros que entendem, mas não o afirmam: são os mal intencionados, que beneficiam com a crise e com o sistema actual.