quinta-feira, 11 de abril de 2013

Poema: ERGO UM PEIXE TRISTE E UMA CASA - por maria azenha

As Banhistas (1918)
Pablo Picasso (1881-1973)

ERGO UM PEIXE TRISTE E UMA CASA

ergo um peixe triste e uma casa para os amigos
que ardem na melancolia da minha infância e
falamos de espelhos e fogo tantas vezes
trazendo o mar para dentro das nossas bocas
os amigos procuram o calor azul num vidro quente
encerrados em seu próprio corpo de luar e ouro
mergulham durante a noite demoradamente
sob o olhar atento dos espelhos de guelras lilases

são da cor do mar os lábios e as suas vozes de vento
que deus quebrou há muito tempo para criar deuses

trazemos então para cima do mundo o luar
e a cinza
gritando
lou
ca
men
te
o lume dos nomes

dizemos
búzios algas sal
casas
ou outros sons de violinos aquáticos
incandescentes pérolas de aves azuis
peixes de neve
nas
frias águas

guardam-nos
os espelhos verdes

maria azenha 
2005,fev,lx


Nota: É de espelhos e fogo que este poema fala. Espelhos verdes e outros de guelras lilases. As aves são azuis (incandescentes pérolas), assim como é azul o calor do vidro quente. E a cor do mar há-de também ser azul, nesta policromia poética, engalanada de metáforas em cada verso, e que, de tão expressivas, permitem descontinuar o texto, no seu sentido literal. A ação resume-se a uma casa junto à praia, onde se reúnem amigos de infância. O resto é o fogo-de-artifício das palavras, com a sua sonoridade própria, a esgotar o encantamento.

Maria Azenha colabora neste blogue, com um poema seu, todas as quintas feiras.