terça-feira, 30 de novembro de 2010

Miguel Torga: O Homem, o Escritor, o Tempo e a Democracia (3)...



























Continua

Petição da DECO PROTESTE contra os custos extra do aumento da electricidade - uma questão de cidadania



Em 2011, a factura da electricidade irá pesar mais no orçamento dos consumidores. Face ao clima de crise e às fortes medidas de austeridade do Governo, qualquer acréscimo num serviço público essencial é difícil de suportar pelas famílias.
Em Outubro, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos propôs um aumento, em média, de 3,8 por cento. Na factura de electricidade, a parcela dos “Custos de Interesse Geral” resulta de opções políticas e medidas legislativas. O seu crescimento tem sido constante e exponencial. Prevê-se, em 2011, algo como 2,5 mil milhões de euros, um aumento de mais de 30% face a 2010. Trata-se de custos acrescidos, alguns sem relação directa com a produção e distribuição de energia eléctrica.
É indispensável e urgente repensar a política de taxas e sobrecustos que recai nas nossas facturas. A DECO alerta há muito para a situação e exige medidas para uma adequada sustentabilidade do sector eléctrico e protecção dos interesses dos consumidores.
Na factura dos consumidores, em 2010, 31% traduzem os custos de produção de energia e 27% o uso das redes que conduzem a electricidade até nossas casas. A componente mais pesada, os “Custos de Interesse Geral” (42%), inclui verbas, entre outras, como o fomento às renováveis, rendas aos municípios e a amortização do défice tarifário. Há ainda a acrescentar os Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual e os Contratos de Aquisição de Energia.
Segundo a DECO, o Governo deveria aplicar medidas para restabelecer um equilíbrio mais justo na formação do preço a pagar por 6 milhões de consumidores. É possível, de forma progressiva, reduzir em várias áreas: energias renováveis, custos para a manutenção do equilíbrio contratual, renda dos municípios, contratos de aquisição de energia eléctrica, renda dos terrenos e garantia de potência, entre outros.
A DECO simulou o impacto de uma diminuição de 10% nas rubricas dos custos de interesse geral e concluiu que, em vez de depararmos com a proposta de aumento para 2011, tal levaria a uma redução nos preços próxima de 5 por cento. Se nada for feito, as más perspectivas serão agravadas, em 2012, com aumentos insuportáveis do ponto de vista social, muito provavelmente superiores a 10 por cento.
Contra extras na electricidade, junte-se à nossa causa e subscreva a petição.

25.11.2010, Deco Proteste

Junte-se ao nosso protesto.

Assine a petição para dar força à nossa intervenção junto do Governo e da Assembleia da República, em:

http://www.deco.proteste.pt/servicos-basicos/contra-extras-na-electricidade-junte-se-a-nos-s626501.htm

Anotação do Tempo: Dissertação sobre o entardecer...

Donzelas à beira mar
.
Dissertação sobre o entardecer…

À Dacha*,
pelo seu amor à pintura

Todas as linhas
procuram o ponto de fuga
ou será que o horizonte
se diluiu no pôr-do-sol
quando pintavas o mar?
Não sei se as tuas mãos tremeram
e o teu corpo estremeceu de prazer
quando a luz
varreu a tela
e afogou o meu olhar.
E é naquele rio de águas brandas
e naquele mar de prata e de absinto
que eu gostava de me banhar
e responder ao apelo daqueles caminhos
que as tintas avermelharam
ao entardecer…

Alexandre de Castro

* A Dacha (Dália Faceira) é uma notável pintora, com uma obra assinalável no seu vasto currículo, e que eu já tive a oportunidade de abordar criticamente no Jornal do Douro, quando de uma exposição dos Antigos Alunos do Liceu de Lamego. Pediu-me para escrever um poema para o incluir no livro com as suas pinturas, a publicar brevemente. É uma honra poder dedicar-lho.
http://ponteeuropa.blogspot.com/2010/05/momento-de-poesia.html

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: A armadilha da dívida...

Jornal republicano A Vanguarda de 23 de Agosto de 1895
Amabilidade de M. Jorge Neves, que enviou esta imagem
***
A dívida pública sempre foi uma constante da política dos governos, desde a instauração do liberalismo, momento a partir do qual Portugal deixou de poder contar com o ouro do Brasil. Como os capitais próprios, quer os do Estado, quer os dos particulares (Portugal era um país essencialmente agrário), eram insuficientes, iniciou-se o ciclo infernal do endividamento ao estrangeiro (a praça de Londres dominava o mercado). Mas, se parte dessa dívida era necessária para o desenvolvimento do país e para a sua modernização, não acontecia o mesmo com a parte restante, que era destinada para a ociosidade da decadente nobreza e para a Casa Real. Os braganças, principalmente o rei D. Carlos, que até tinha um iate para a investigação oceonográfica, foram uns esbanjadores. O célebre caso dos adiantamentos à Casa Real ditou praticamente o fim da monarquia, tal foi a impopularidade da iniciativa.
Nos tempos mais recentess, depois da fase da acumulação de capitais dos EUA, em consequência da II Guerra Mundial, que proporcionou a esta país transformar-se na primeira potência industrial, perante a derrocada dos países beligerantes, organizou-se o mercado de capitais, na base da cartilha neoliberal, cuja principal característica é a sua estruturação em rede hierarquizada (ou em círculos concêntricos), cuja cabeça (ou centro) está sediada em Nova Iorque e Londres. Amarrados à forte corrente da dívida, dela dependentes obrigatoriamente para poderem funcionar, os países, principalmente os mais frágeis economicamente, dificilmente poderão libertar-se para, no exercício da sua independência e da sua soberania, promover políticas sérias de desenvolvimento, que favoreçam os seus respectvos povos.
Nesta lógica perversa, os ricos (países ou indivíduos) ficarão cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. É o que vai acontecer em Portugal.

Um Poema ao Acaso: recurso - Miguel Pires Cabral

recurso

Venho por este meio recorrer
ao âmbito natural das coisas.
Ao sentimento frio que nos recomeça
nocturno, desde o vazio da noite – nas ruas.
Um ou outro sorriso que gastamos
junto ao balcão de um bar
ou outro cenário qualquer.

E nunca é tarde demais para distrair o medo
uma mesma direcção, uma mesma partilha,
ao que chamamos de ânsia ou modo vida.

É urgente ditarmos as regras ao desalinho
é urgente cobrar às palavras uma ordem natural
das coisas, aceita-las como se fossem só nossas.
Como uma mancha escrita que deixamos presa
no papel, um recurso cravado pela nossa passagem.

Venho pois, por este meio recorrer,
– em folha azul de 25 linhas –
a uma jurisprudência que em boa verdade
não existe. A um reconhecimento
que em boa fé não procuro, diria em suma que:
procuro o consentimento que existe
entre o lume cruzado dos teus olhos.

Venho recorrer de um mesmo limite
que nos (de)fere a cada momento.
Ao esquecimento que se apaga junto
ao vazio de um copo, ao abandono
lento que nos sobra – neste recurso
perpetrado – junto ao balcão.

Miguel Pires Cabral
http://barbituricodaalma.blogspot.com/2010/11/recurso.html

Coisas que eu escrevi: O fanatismo fundamentalista do islão...

A célebre caricatura de Lars Vilks

abnoxio
.
Um comentário que subscrevo inteiramente...

Quem não suporta a ironia, mesmo que mordaz, de uma caricatura, e logo invoca o argumento defensivo do insulto proferido, para depois passar à ameaça física de retaliação, que pode comportar pura e simplesmente o assassinato, está obviamente a explorar o sentimento do medo. Os radicais islamistas, ligados ou não à rede desconcentrada de Bin Laden, sabem que esta estratégia de intimidação acaba por surtir efeito. Foi o que aconteceu na Dinamarca, a propósito das caricaturas sobre Profeta "intocável". Muitos cartoonistas iniciaram um processo lento de auto-censura, não se atrevendo a ficar ma mira desses fanáticos do islão.
Por outro lado, os superiores interesses de Estado levaram alguns políticos ocidentais a condescender com o barulho infernal da rua muçulmana, onde a multidão histérica, açulada pelos imãs, bradava desalmadamente, exigindo a morte para os prevaricadores.
Não podemos ceder a essa chantagem, e cada um de nós deve afirmar com determinação que não abdica da liberdade de pensamento e de expressão conquistada pela civilização ocidental, por mais defeitos que possua, mas que são muito menos lesivos para a dignidade humana do que as infames e absurdas sentenças de morte proferidas pelos dementes clérigos islamistas.
Alexandre de Castro
.
Posted by Ademar Santos on setembro 17, 2007 11:51 AM
http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2007/09/um_comentario_que_subscrevo

***
Trata-se de um texto de 2007, na altura em que os muçulmanos, obedecendo acefalamente à demência dos seis imãs, exigiam que a liberdade de expressão fosse abolida dos países ocidentais, apenas porque um caricaturista se lembrou de fazer uns rabiscos irónicos sobre o Profeta.
E se recupero este texto, que enviei como comentário para o abnoxio, e que Ademar Santos, o poeta recentemente falecido, colocou, no dia seguinte, no frontispício do seu blogue, o que muito me honrou, é porque constato, com tristeza, que a ditadura dos imãs está a produzir os seus efeitos. Os caricaturistas ocidentais, que não se cansam de caricaturar o papa, ao ponto de lhe colocarem na cabeça um preservativo, em vez da mitra, esqueceram-se definitivamente de caricaturar os recentes julgamentos e as brutais sentenças, de ressaibos medievais, contra mulheres muçulmanas, cujo único crime foi o de se limitaram a exercer o direito à liberdade dos afectos.
Todas as religiões devem ser respeitadas, mas nenhuma delas pode reivindicar sobrepor a sua doutrina aos avanços civilizacionais das sociedades. O humor, a sátira e a caricatura são manifestações inteligentes da liberdade de pensamento e do direito inalienável à livre crítica, valores que as sociedades ocidentais conquistaram, e dos quais não devem abdicar, considerando-se ao mesmo tempo que o exercício da utilização daqueles instrumentos da liberdade de pensamento não pode ser considerado ofensivo ou calunioso. Retirar o objecto da caricatura é matar a própria caricatura e o humor crítico que lhe está associado. E isso é inadmissível numa sociedade livre.
http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2007/09/se_quereis_viver_em_paz_acorba

domingo, 28 de novembro de 2010

Coisas que eu escrevi. Portugal ainda é uma mercearia...



Encontrei este texto, que já andava perdido e esquecido, e nem sequer me lembro a que propósito o escrevi. Talvez tivesse sido um comentário para um blogue. Mas, ao relê-lo, achei-lhe piada. A metáfora continua a ter actualidade. E agora mais do que nunca!...
*
Portugal é uma mercearia. Ou melhor, um país com a mentalidade de merceeiro. Foi assim com a mercearia do cravo e da pimenta da Índia. Foi assim com a mercearia do ouro do Brasil, até que falimos desastradamente com a mercearia da África.
Com a adesão à Europa fomos, sem mérito, promovidos a gerente de supermercado. Com a globalização, entrámos num hiper, sem saber ler nem escrever e, sobretudo, sem saber contar. Não percebemos que apenas tínhamos aprendido a contar pelos dedos, a somar e a subtrair, o que era considerado suficiente para gerir a mercearia. No entanto, não conseguimos aprender as contas de multiplicar e de dividir e, muito menos, as de potenciar. Tirar a raíz quadrada, fazer uma regra de três simples ou resolver uma equação, nem pensar! O resultado entra pelos olhos dentro.

Assim se comenta uma fotografia... (2)

Amabilidade de Pilar Vicente, que enviou esta imagem.
.
O cão é o único a manifestar uma profunda indiferença pela magna reunião, como se pode ver pelo prolongado bocejo.
O chefe, o mais velho, é o único que pode mexer na máquina, pois só ele é que sabe. Ali, naquela tribo, não há chicos espertos como em Portugal, onde todos sabem tudo de tudo.
O homem que está de cócaras, atrás do cão, tem o falo todo erecto, não se sabendo, se é por causa de algum filme pornográfico, que esteja a ser passado no ecrã, ou se são as mamas descaídas e flácidas da mulher, que está de joelhos, no primeiro plano, que o excitam.
O homem, que está de pé, encostado à árvore, deve estar a interrogar-se:
- Como é que eu vou caçar um búfalo* com aquela merda?!
.
* Julgo que não há búfalos na Amazónia, onde, provavelmente, vive aquela tribo de índios, mas deu jeito para entrar na história. O búfalo é um animaal da pradaria.

Assim se comenta uma fotografia... (1)

O fotógrafo, que se vê de joelhos, trabalha para uma marca de sapatos.
Os sapatos não são uniformes. Uns de são de salto fino, outros de salto grosso. Uns têm tira, outros não, o que vai contra as regras regimentais.
Todas as mulheres polícias apresentam o cabelo apanhado (vulgo, rabo de cavalo, embora não se vejam os cavalos).
Ah! As pernas! Já me esquecia. Mas disso não é necessário falar! Basta ver!

sábado, 27 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: A montanha pariu um rato...

Aprovação do OE não chegou para acalmar os mercados, mas já mudou o discurso do Governo

Chegou ontem ao fim o processo de aprovação
de um dos orçamentos mais duros das últimas
décadas. Nos mercados, as taxas de juro não
baixaram.
... No fim de um processo que durou quase dois
meses e que se dizia decisivo para recuperar
a credibilidade do país junto dos investidores
internacionais, os indicadores dos mercados
mostram que Portugal está agora numa
posição de maior fragilidade do que quando tudo
começou e a ameaça de um chumbo orçamental
era ainda muito forte.
... Há dois meses, quando a pressão dos
mercados sobre Portugal forçava o Governo a
apresentar o seu plano de austeridade mais
ousado, as taxas estavam em 6,637 por cento.
Agora, estão nos 7,168 por cento.
... A pressão que (os mercados) continuam a
fazer sobre Portugal tem muito mais a ver
com a perspectiva que actualmente existe de
uma zona euro em que os países periféricos
- Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha -
revelam problemas estruturais graves nas
suas economias e finanças públicas e os países
do centro - principalmente a Alemanha e a
França - dão sinais de hesitação na concessão
de ajuda. E nada, nem mesmo um OE que
inclui medidas como o corte dos salários dos
funcionários públicos, o congelamento das
pensões ou a subida da carga fiscal, parece servir
para melhorar as expectativas.
PÚBLICO
***
Esta descrença dos mercados financeiros não me surpreendeu mesmo nada, pois desde sempre tenho afirmado que o problema de Portugal não é apenas o descalabro das suas finanças públicas, mas, principalmente, o da sua economia, que não dá (nem poderá dar nos próximos tempos) sinais de recuperação sustentada, pois a eficácia da iniciativa privada, entre nós, é uma pura ficção. O salazarismo criou uma classe empresarial ociosa, encheu-a de vícios com as leis proteccionistas, que não permitiram a sua evolução em mercado aberto e internacionalizado. As privatizações, iniciadas pelo socialista Mário Soares e prosseguidas por Cavaco Silva, criaram o parasitismo, já que as maiores empresas (EDP, Portugal Telecom e outras), ficaram a funcionar em regime de quase monopólio. Não é necessário inovar muito para engrossar os lucros das grandes empresas e os dividendos dos seus accionistas , pois basta copiar os modelos de outros países e importar a tecnologia, como se a modernização se resumisse a isto.
As pequenas e as médias empresas, que têm um peso enorme no tecido empresarial do país, debatem-se com um crónico défice de cultura empresarial e de massa crítica, ao qual se junta a falta de formação profissional dos trabalhadores, e não conseguem resolver, através de parcerias estratégicas com outras empresas colaterais e com as empresas a montante e a jusante, o problema da ausência do efeito de escala, para serem competitivas no mercado internacional. E isto prende-se também com a cultura individualista que foi inculcada nos cidadãos, nas famílias, nas escolas e nas empresas. Cada um quer plantar couves no seu pequeno quintal. E os nossos governantes, os do PS e do PSD, nos seus planos, nunca cuidaram de enfrentar estas distorções, implementando e favorecendo políticas sérias e bem estruturadas, que promovessem o associativismo empresarial e, por outro lado, criassem uma rede de escolas profissionais, de rigor pedagógico assegurado, com capacidade de flexibilizarem os seus currículos, de acordo com a evolução tecnológica, e sem a preocupação de fomentarem-se falsos elitismos, com a adopção de equivalências curriculares absurdas, nas quais ninguém acredita. Em resumo: os mercados financeiros não acreditam no país ignorante, que não sabe organizar-se.
O próprio Orçamento de Estado de 2011 acentuou essa dúvida nos mercados. É um orçamento que só olha para o défice e não olha para a economia. E, perdida a encenação e a miragem do orçamento, não vai ser a dança folclórica de Sócrates, nas próximas reuniões com os empresários das empresas exportadoras, que vai fazer crescer a competitividade. Eu até me atrevo a dizer que, para os mercados financeiros, Sócrates é parte do problema e não a sua solução. Tal como eu já aqui afirmei, os agentes dos mercados financeiros internacionais também devem estar a pensar como é que um país pode inverter a sua situação económica com um primeiro-ministro que passou metade do seu anterior mandato a defender-se das suspeitas de corrupção, da suspeita sobre a validade da sua licenciatura, dos ataques de uma insignificante jornalista, a propósito do processo Face Oculta, e a outra metade em declarada campanha eleitoral, chegando até ao ponto, por motivos eleitoralistas, de ocultar os valores negativos do terceiro trimestre do ano de 2009, que já anunciavam a crise actual.
O foguetório do orçamento chegou ao fim, com a montanha a parir um rato. Outro festival vai começar para enganar o Zé povinho.
http://economia.publico.pt/Noticia/aprovacao-do-oe-nao-chegou-para-acalmar-os-mercados-mas-ja-mudou-o-discurso-do-governo_1468369

Sarah Palin: A campeã do disparate



A ex-candidata a vice-presidente dos Estados Unidos,
afirmou durante uma entrevista que o seu país devia
apoiar a Coreia do Norte. Mais um sinal da sua
impreparação para voos mais altos na política americana.
Ou talvez não.
Sarah Palin volta a protagonizar uma nova polémica.
Numa entrevista a um programa de rádio na passada
quarta-feira, a ex-candidata a vice-presidente dos
Estados Unidos afirmou que a América devia manter-
se do lado dos "seus aliados da Coreia do Norte".
... Veja os "melhores" momentos de Sarah Palin,
nomeadamente quando deu a perceber que não sabia
que África era um continente.
EXPRESSO
***
A política sempre precisou de alguns palhaços para poder ser levada a sério. E em Portugal há muitos!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Um Poema ao Acaso: Fome de traça - Luís Graça

Fome de traça
.
Passeio-me nos livros como verme que sou
sei devorar os clássicos por ordem
Já comi Jane Austen, Agustina Bessa-Luís,
Anais Nim, Margarida Rebelo Pinto.
Até já comi as irmãs Brönte
no Alentejo, em cima de um monte
num dia de vendavais
bah! Bacanais...
Já comi a Bíblia, em papel “couché”
já comi o “Drácula” em papel bíblia
já comi os volumes todos do “Tempo perdido”
já comi “O homem sem qualidades”.
Tenho boa boca. Como de tudo.
Já comi os sonetos de Shakespeare
a lírica camoniana
e até duas camónes
que eram de Louisiana
Como de tudo.
“Gargântua e Pantagruel”. Já comi.
Alfredo Saramago. Já provei.
José Saramago: comi e vomitei.
Caiu-me na fraqueza.
Não se deve comer Saramago em jejum.
Já comi “Os miseráveis” com pasta de atum.
Passeio-me nos livros como verme que sou.
Sei devorar os clássicos por ordem.
Como de tudo. Tenho boa boca.
Já comi o “Tubarão” sem ver o filme.
Comi o “Ben-Hur”, o “Quo Vadis” e “A Túnica”.
Comi os 12 Césares duma vez
e pus Suetónio a suar na sauna do Holmes Place.
Tenho apetite pela Literatura.
Um dia destes vou comer as gajas todas à traição
quando estiverem a dormir no “Kamasutra”.
.
Luís Graça

Notas do meu rodapé: Portugal aposta nas receitas do capitalismo primitivo


Bruxelas explica por que razão Portugal ainda cresce: empregados estão a trabalhar mais para compensar subida do desemprego.
A crise foi mais branda em Portugal comparativamente
a muitos outros países europeus porque o esforço dos
trabalhadores foi maior, permitindo às empresas
aumentar a facturação e, assim, contribuir mais para
o crescimento da economia, conclui um estudo da
Comissão Europeia. Nos próximos anos, este
fenómeno de aumento da produtividade sem criação
de emprego deverá intensificar-se.
Diário de Notícias
***
Existem duas maneiras de aumentar a competitividade das empresas, através do factor trabalho: ou dimimuindo os salários reais, objectivo que este governo persegue em termos de médio e longo prazo, e/ou aumentando o ritmo de trabalho da população empregada, depois de eliminar postos de trabalho, para se obterem efeitos a curto prazo.
Como não podia deixar de ser, o governo socialista de José Sócrates está a aplicar os dois mecanismos.
A perversidade não podia ser maior. Criando um exército de desempregados, cria-se automaticamente no mercado de trabalho uma pressão negativa sobre os salários. Aumentando a precariedade, favorece-se o prolongamento da carga horária do trabalho, sem qualquer remuneração extraordinária.
O recente estudo da União Europeia, embora de uma forma benevolamente rebuscada, para ocultar a monstruosidade, vem revlar que as empresas portuguesas são aquelas que melhor estão a resistir à crise, porque se socorrem do instrumento do aumento da carga horária dos seus trabalhadores, sem contrapartidasao nível do pagamento de horas extraordinárias, violando-se assim descaradamente as leis laborais vigentes.
É evidente que não será com esta política que o país irá inverter o seu empobrecimento progrssivo. Pontualmente, poderá apresentar alguns resultados, como tem acontecido recentemente com o comportamento positivo das exportações, mas isso deve-se a causas meramente conjunturais, que o futuro encarregar-se-á de comprovar, e não, como ouvi hoje a afirmar, ao ministro das Finanças, no seu discurso no parlamento, a propósito da aprovação do Orçamento de Estado de 2011, à modernização e à capacidade de inovação das empresas. O que aconteceu é que as empresas já estão a aplicar a velha receita, que remonta aos primórdios da época da primeira industrialização (sec. XVIII), promovendo o aumento do ritmo de trabalho e da carga horária. Tenho notícias de que, por exemplo, no sector da restauração, alguns empregados chegam a trabalhar doze horas por dia. E é isso que a Comissão Europeia elogiou no seu relatório.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: Sindicatos- A luta de David contra Golias...

Tenho uma mosca na sopa

A dolorosa verdade é que o futuro de Portugal
está hoje, quase todo, em Bruxelas, Berlim e nos
animal spirits dos mercados. A greve foi grandiosa,
mas gigantesco é tudo aquilo que fica por fazer.
Viriato Soromenho Marques
Diário de Notícias
***
Os sindicatos, tal como se encontram organizados em cada um dos países, já não conseguem responder às solicitações dos trabalhadores que representam. E isto não deriva, naturalmente, da responsabilidade dos milhares de sindicalistas que, empenhadamente, e até com prejuízos ao nível das suas carreiras profissionais, principalmente os oriundos do sector privado, trabalham exaustivamente em prol dos seus colegas e camaradas. O problema situa-se a um outro nível, e que tem a ver com as grandes mudanças ocorridas a nível mundial, depois da queda dos regimes comunistas e da renovada ofensiva do capitalismo internacional que, através do consenso de Washington, adoptou a cartilha ideológica do neo-liberalismo, puro e duro. Afastada a ameaça do contágio do comunismo, o único e verdadeiro inimigo do sistema capitalista, os EUA e os seus aliados mais íntimos e poderosos, reorganizaram a economia mundial, criando, através da globalização, uma cadeia de dependências políticas, económicas, financeiras e culturais na maioria dos países do mundo, a tal ponto, que, cada um deles, já se encontra impossibilitado de exercer autonomamente a sua total independência e soberania. A actual crise internacional, que não beliscou minimamente o capital financeiro (os verdadeiros mandantes dos governos submetidos à sua alçada), mostra à evidência como funciona essa tenebrosa rede. Cada governo nacional não passa de uma agência intermediária das várias organizações que o capitalismo criou para melhor explorar o mundo do trabalho.
Enquanto os centros de decisão do grande capital financeiro funcionam numa estrutura globalizada e camufladamente hierarquizada, os sindicatos apenas podem actuar no seu respectivo âmbito nacional. É uma luta travada com armas desiguais. É a versão moderna da luta de David contra Golias, só que o David actual (os sindicatos) não conseguem imprimir ao movimento da funda a força suficiente para abater o monstro. Mesmo ao nível da União Europeia, verifica-se uma enorme inoperência das organizações que aglutinam as centrais sindicais dos países membros. Ainda está por ocorrer uma iniciativa de massas que mobilize e envolva simultâneamente os trabalhadores de toda a União Europeia. É certo que esta lacuna também se deve à grande (e para já insanável) divisão do movimento sindical internacional. Os partidos socialistas e os partidos socais-democratas, que no momento actual já não conseguem esconder a sua ligação ao capital financeiro, não se esqueceram de criar as suas próprias estruturas sindicais, com objectivos claramente divisionistas, e enquanto os seus trabalhadores não forçarem a reorientação política correcta será impossível criar um movimento sindical único e global, que possa fazer frente ao sistema capitalista global.
A actual crise, que é endémica e estrutural, pois deriva das disfuncionalidades introduzidas pelo neo-liberalismo, talvez venha a possibilitar tendencialmente uma maior e necessária internacionalização do movimento sindical. É urgente que se caminhe nesse sentido, mesmo que todos tenham que ceder naquilo que é acessório, para se garantir o que é fundamental.
Isto não obsta, antes reforça, que, a nível nacional, se aprofunde, através da luta, a influência dos sindicatos e das suas centrais perante os governos e perante o patronato.

Paulo de Carvalho -- Sábado à tarde

Um Poema ao Acaso: A evocação de um chimpazé - Alberto Pimenta





A evocação do chimpanzé

comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.

Alberto Pimenta

Miguel Torga: O Homem, o Escritor, o Tempo e a Democracia (2)...

Clicar na imagem para a ampliar



















Continua