segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Poema declamado: Ode ao filho da puta - João Negreiros

***
Amabilidade da Maria José Meireles, que enviou o
vídeo e, posteriormente, o texto, a propósito do poema
de Alberto Pimenta, publicado, há dias, neste espaço.
***
ode ao filho da puta
e querem estes filhos da puta que a gente lhes dê ouvidos quando nem temos o que comer
porque os filhos da puta se alambazaram antes de nós e deixaram-nos na toalha uma côdea
porque disseram que não era bom que tivéssemos miolos
e querem estes filhos da puta que confiemos neles e na merda dos fatinhos de pronto a vestir que lhes escolheu a amante ou a mulher enquanto ele a encornava
e querem estes filhos da puta que a gente goste deles quando eles não gostam de nós
os cabrões dizem bem de tudo e mal de todos e vão aos urinóis olhar para a cobra cega uns dos outros
só para ver qual é o que tem mais peçonha
o senhor ministro leva aí um belo instrumento
ó Sousa isto não é nada mas já agora sacuda-ma para não me pingar para o fato
e depois fazem um número nas entrevistas do canal cultural em que mostram as fotografias que tiraram na praia numa ilha qualquer miserável do Pacífico
e querem que a gente acredite que eles são humanos só porque andam de fato de banho
grandes filhos da puta
eu queria era que um ciclone desse lá um saltinho e os levasse a todos para o inferno
se bem que o diabo não tem culpa nenhuma porque só está a fazer o trabalho dele e não merece ter que levar com os vossos discursos
ai os discursos
os filhos da puta dos discursos
os discursos dos filhos da puta a dizer que é importante que os grunhos que não sabem ler venham da terrinha para a guerrinha combater lá uns gajos que nem falam português
que um gajo para os matar tem que aprender a ler
e depois ainda tem que aprender a falar estrangeiro
e não é que os filhos da puta mandam a malta para lá sem sequer um curso de línguas
e depois ainda vão ao enterro abraçar os orfãozinhos e comer-lhes os croquetes
e quando a viúva chega a casa e liga a televisão é só paz por uns tempos mas depois
quando o coveiro começa a ganhar o fôlego
trata de comprar mais uma carrada de F17 que se vendem à grosa
mas para os países de terceiro mundo até pode ser avulso
e lá vão mais uns provincianos da terra p’rá guerra
e morrem sem saber ler nem escrever
e matam sem saber ler nem escrever
e depois quem fica por cá sente aquilo tudo pelos noticiários como se fosse connosco
e quem não tem TV sente pelos GNR com metralhadora à porta das embaixadas
que para nós é um brasileiro a dar toques
mas para os outros é um consolo ou um consulado
e os filhos da puta nem sequer apanham trânsito
nem cheiram o sovaco do autocarro porque têm batedores que lhes fazem as claras em castelo p’ra que cheguem depressa ao palácio e se alambazem com as natas
e depois são os nossos representantes
esses filhos da puta
que falam como quem se peida
que gritam como quem caga mandam nesta merda toda
e a liberdade e o genocídio são irmãos gémeos que vestem de igual e que lambem o mesmo chupa-chupa que é uma terra miserável a nadar em ouro negro
e a gente olha para eles e diz
aquele animal não pode ser o nosso presidente mas é o filho da puta é
aquele animal não pode ser o nosso ministro mas é o filho da puta é
e é vê-los todos a rir que quase lhes saem os dentes fora quando o espectáculo acaba
a gozar com o povinho que anda com eles às costas
e cada vez nos dói mais mas às vezes parece que não
que quando dizemos que nos dói muito os que ainda carregam mais que nós dizem que nem é tanto assim que
agora andamos menos corcundas mas só me sinto sempre de gatas
e os meus irmãos dizem ser psicológico que antigamente é que era
que isto agora não é nada
dantes é que eles eram mesmo filhos da puta
agora disfarçam bem
e é tudo tão claro
estamos todos tão bem informados que já não há lugar para um bufo como eu
um bufo que denuncia os amigos que não prestam
um bufo que aponta o dedo a quem se deixa matar
um bufo que puxa a língua a quem acha que é melhor estar calado
e eu quero sê-lo para que esses filhos da puta não levem sempre a melhor
assim vão levar quase sempre a melhor
e vão beijar menos órfãos e violar menos viúvas
e na tristeza deles encontro a minha razão de viver
é no espaço que vai da relativa felicidade até à felicidade absoluta de um filho da puta que eu me encontro
e vou ficar lá para sempre a fazer barulho como o sino que lembra ao operário que a hora de almoço chegou
e que ele pode comer
mesmo que não tenha fome
mesmo que não saiba mastigar
mesmo que a marmita que trouxe de casa há séculos atrás lhe pareça uma miragem
mesmo que já não se recorde de quem é
de onde vem
e quanto sofreram seus pais na tortura
na prisão
na pobreza
mesmo que já não tenha ideia dos tempos que já passaram
das pessoas que já não estão
e das almas sem corpo que nos pedem todos os dias baixinho para resistir
resistir mesmo sem forças
sem futuro
e sem lembrar o passado.
.
João Negreiros
in "luto lento"
***
João Negreiros é o a autor deste poema por si declamado. Tive a oportunidade de ouvir (ler) um outro, a que o leitor pode ter acesso, através da hiperligação, indicada em baixo, onde o autor pronuncia uma frase, que me deixou pensativo. Diz João Negreiros, com algum crueza e realismo:
Quero gastar as únicas energias a fazer a manutenção às memórias.
Mortífera, esta frase, a provocar um esgar de pânico e um surdo alarme, perante inevitabilidade de um dia nem sequer poder reconhecer-me, naquilo que fui, do que sou ainda e do que ainda posso vir a ser. Perder a memória é perder a seiva mais fecunda da árvore que há em cada um de nós. É como se, na escada que já se desce, um dos degraus falhasse e nos precipitássemos em queda livre num sótão, onde reina uma escuridão medonha.
O grande escritor José Cardoso Pires dizia que, para a escrita, a memória é mais importante do que a inteligência.

1 comentário:

Sun Iou Miou disse...

O João Negreiros tem um blogue onde vai deixando as palavras falarem alto.

http://joaonegreiros.blogspot.com/