domingo, 7 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: A crise tem rosto... A crise tem culpados...



A classe média está a chegar à sopa dos pobres
.
Ficaram sem ter como pôr comida na mesa e começam
agora a engrossar as filas nas instituições que prestam
ajuda assistencial. Muitos dos 280 mil portugueses que
dependem dos cabazes do Banco Alimentar contra a Fome
são da classe média. Tinham emprego, férias, acesso à net
e tv por cabo, cartão de crédito. Ficaram com uma casa
para pagar ao banco, um subsídio de desemprego que tarda
a chegar - quando chega - ou que já acabou. Um carro que já
não sai da garagem.
Na maioria das vezes, os pedidos chegam por email. "Desde o
ano passado que nos chegam pedidos de professores, advogados,
engenheiros: profissões que nada fazia prever que precisariam
de ajuda institucional", diz Daniela Guimarães, educadora social
na Cáritas do Porto.
PÚBLICO
***
Para quem acreditava que a crise era conjuntural e passageira, para quem julgava que a crise só batia à porta dos outros, para aqueles que, neste país pacificado por trezentos anos de Inquisição e quarenta de salazarismo, pensavam que Portugal era um quintal à beira mal plantado, ao abrigo das tempestades que assolam o mundo, para aqueles que acusavam de pessimistas e de anti-patriotas todos aqueles que prognosticaram um cenário catastrófico para o futuro do país, para todos aqueles que ainda não perceberam o que está a acontecer nem o que irá acontecer, a reportagem do PÚBLICO, aqui referida, talvez possa ser aquele clarão de luz que ilumine a verdade, que todas as mentiras propaladas têm escondido.
E o problema não reside no que de trágico já está a acontecer. O problema reside no futuro, que se apresenta cada vez mais incerto e inseguro. Neste mundo globalizado, onde os países funcionam em rede, sob o totalitário controlo do grande capital financeiro internacional (não devemos ter medo dos chavões), que já não permite a cada um deles a assumpção por inteiro da sua autonomia e da sua independência, ao nível das decisões políticas e económicas fundamentais, salvam-se aqueles que souberam a tempo tirar partido da globalização, impulsionada pelo neo-capitalismo, posicionando-se estrategicamente nos mercados internacionais e apetrechando-se com as ferramentas necessárias.
Ora, Portugal, ao longo dos últimos quarenta anos, não soube fazer o trabalho de casa. Perdeu a oportunidade da integração europeia (o que se ganhou, vai perder-se agora) e está a perder a batalha da globalização. E isto não aconteceu por acaso, nem por vontade divina. A crise não é uma entidade abstracta e difusa, de uma natureza idêntica a um qualquer cataclismo. A crise tem rostos. A crise tem culpados.

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