segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: A armadilha da dívida...

Jornal republicano A Vanguarda de 23 de Agosto de 1895
Amabilidade de M. Jorge Neves, que enviou esta imagem
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A dívida pública sempre foi uma constante da política dos governos, desde a instauração do liberalismo, momento a partir do qual Portugal deixou de poder contar com o ouro do Brasil. Como os capitais próprios, quer os do Estado, quer os dos particulares (Portugal era um país essencialmente agrário), eram insuficientes, iniciou-se o ciclo infernal do endividamento ao estrangeiro (a praça de Londres dominava o mercado). Mas, se parte dessa dívida era necessária para o desenvolvimento do país e para a sua modernização, não acontecia o mesmo com a parte restante, que era destinada para a ociosidade da decadente nobreza e para a Casa Real. Os braganças, principalmente o rei D. Carlos, que até tinha um iate para a investigação oceonográfica, foram uns esbanjadores. O célebre caso dos adiantamentos à Casa Real ditou praticamente o fim da monarquia, tal foi a impopularidade da iniciativa.
Nos tempos mais recentess, depois da fase da acumulação de capitais dos EUA, em consequência da II Guerra Mundial, que proporcionou a esta país transformar-se na primeira potência industrial, perante a derrocada dos países beligerantes, organizou-se o mercado de capitais, na base da cartilha neoliberal, cuja principal característica é a sua estruturação em rede hierarquizada (ou em círculos concêntricos), cuja cabeça (ou centro) está sediada em Nova Iorque e Londres. Amarrados à forte corrente da dívida, dela dependentes obrigatoriamente para poderem funcionar, os países, principalmente os mais frágeis economicamente, dificilmente poderão libertar-se para, no exercício da sua independência e da sua soberania, promover políticas sérias de desenvolvimento, que favoreçam os seus respectvos povos.
Nesta lógica perversa, os ricos (países ou indivíduos) ficarão cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. É o que vai acontecer em Portugal.