sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Notas do meu rodapé: Portugal aposta nas receitas do capitalismo primitivo


Bruxelas explica por que razão Portugal ainda cresce: empregados estão a trabalhar mais para compensar subida do desemprego.
A crise foi mais branda em Portugal comparativamente
a muitos outros países europeus porque o esforço dos
trabalhadores foi maior, permitindo às empresas
aumentar a facturação e, assim, contribuir mais para
o crescimento da economia, conclui um estudo da
Comissão Europeia. Nos próximos anos, este
fenómeno de aumento da produtividade sem criação
de emprego deverá intensificar-se.
Diário de Notícias
***
Existem duas maneiras de aumentar a competitividade das empresas, através do factor trabalho: ou dimimuindo os salários reais, objectivo que este governo persegue em termos de médio e longo prazo, e/ou aumentando o ritmo de trabalho da população empregada, depois de eliminar postos de trabalho, para se obterem efeitos a curto prazo.
Como não podia deixar de ser, o governo socialista de José Sócrates está a aplicar os dois mecanismos.
A perversidade não podia ser maior. Criando um exército de desempregados, cria-se automaticamente no mercado de trabalho uma pressão negativa sobre os salários. Aumentando a precariedade, favorece-se o prolongamento da carga horária do trabalho, sem qualquer remuneração extraordinária.
O recente estudo da União Europeia, embora de uma forma benevolamente rebuscada, para ocultar a monstruosidade, vem revlar que as empresas portuguesas são aquelas que melhor estão a resistir à crise, porque se socorrem do instrumento do aumento da carga horária dos seus trabalhadores, sem contrapartidasao nível do pagamento de horas extraordinárias, violando-se assim descaradamente as leis laborais vigentes.
É evidente que não será com esta política que o país irá inverter o seu empobrecimento progrssivo. Pontualmente, poderá apresentar alguns resultados, como tem acontecido recentemente com o comportamento positivo das exportações, mas isso deve-se a causas meramente conjunturais, que o futuro encarregar-se-á de comprovar, e não, como ouvi hoje a afirmar, ao ministro das Finanças, no seu discurso no parlamento, a propósito da aprovação do Orçamento de Estado de 2011, à modernização e à capacidade de inovação das empresas. O que aconteceu é que as empresas já estão a aplicar a velha receita, que remonta aos primórdios da época da primeira industrialização (sec. XVIII), promovendo o aumento do ritmo de trabalho e da carga horária. Tenho notícias de que, por exemplo, no sector da restauração, alguns empregados chegam a trabalhar doze horas por dia. E é isso que a Comissão Europeia elogiou no seu relatório.

2 comentários:

Maria José Meireles disse...

Já Pitágoras escondeu o Dodecaedro!...
"Antes me chamem "Padeira de Aljubarrota"..."

Anónimo disse...

Portugueses trabalham mais horas pelo mesmo dinheiro.
E, por este andar, ainda havemos de pagar antes de começarmos a trabalhar.
O que não é inédito! eu passeia por uma situação análoga.
Na semana passada, a OCDE projectou um prolongamento deste modelo de compressão sobre os trabalhadores por mais cinco anos, pelo menos. Segundo a instituição, o emprego tenderá a diminuir, mas quem se mantiver empregado deverá produzir sempre mais, ano após ano.