sábado, 3 de maio de 2014

Notas do meu rodapé: A mentira sobre os juros da dívida soberana...



Os membros do governo e os deputados da maioria, assim como os comentadores alinhados, têm-se esforçado para apresentar como mérito da ação governativa a grande descida das taxas de juro da dívida pública portuguesa, no mercado secundário. A generalidade da comunicação social, ao anunciar acriticamente essas entusiásticas declarações vitoriosas, ajuda a consolidar na opinião pública a falsa ideia de que esta súbita recuperação da confiança dos credores privados (bancos comerciais e fundos de investimento) da dívida portuguesa se deve às acertadas políticas do atual governo.
Quem olha para o gráfico de um telejornal da RTP, aqui exibido, poderá ficar convencido de que a inversão ocorrida nos valores das taxas de juro, a partir do início de 2012, contrariando um ciclo anterior de uma subida em flecha, reflete os primeiros resultados positivos da política de austeridade tutelada pela troika, e que começou a ser aplicada a Portugal, naquele ano. Subliminarmente, também passa a ideia de que esse efeito foi único no panorama europeu.
Basta olhar para o segundo gráfico, para verificar a simultaneidade e o paralelismo da evolução das taxas de juro das dívidas soberanas nos países europeus com um maior endividamento público (Grécia, Itália, Espanha e Irlanda, além de Portugal), o que me levaria a afirmar, se este meu comentário fosse também acrítico, que as medidas corretivas e restritivas do governo português (cortes nas pensões, desvalorização salarial e aumento de impostos) até conseguiram o glorioso feito de influenciar a concomitante descida das taxas de juro das dívidas dos outros países, aqui considerados. Escapou a Passos Coelho e a Paulo Portas este bombástico e arrasador argumento.
Tudo isto não passa de mais uma grande mentira, usada na prossecução de uma lógica perversa de querer demonstrar que as políticas de austeridade estão a dar frutos e a rasgar para o futuro um horizonte de esperança. A verdade é outra. O facto determinante, que provocou o percurso descendente das taxas de juro das dívidas soberanas dos países europeus mais endividados, deve encontrar-se nas declarações de Mario Draghi, presidente do Banco Centra Europeu (BCE), nos finais de 2011, quando disse que “faria tudo para salvar o euro”. E, na realidade, fez tudo, e só é de lamentar que não o tivesse feito antes, logo que se declarou a crise das dívidas soberanas, evitando-se assim a onda especulativa que atirou três países para as garras da troika.
O presidente do BCE, ao intervir no mercado secundário da dívida - a contragosto dos interesses da Alemanha e ultrapassando as suas próprias competências - iniciando a compra de títulos de dívida pública dos países europeus que estavam sob a mira dos especuladores, o efeito resultante só poderia ser um: a baixa acentuada das taxas de juro. A partir daí, os especuladores ficaram sem meios para provocar artificialmente a subida das taxas de juro, subida essa que iria aumentar-lhes os ganhos em mais-valias.
Como é que se pode acreditar na demoníaca parelha, Passos Coelho e Paulo Portas, que, mentindo descaradamente aos portugueses, até já reivindica, sem qualquer espécie de escrúpulos, “méritos ” alheios?!