terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Crónica: Provocação a um benfiquista e o exótico discurso sexual dos patos bravos


Caro Bruno:
Agora não vou falar-lhe do Benfica, para não o atormentar mais. Já basta o que basta.
Hoje, quero felicitá-lo por ter escolhido, para um dos momentos do seu lazer, o maravilhoso parque da Quinta das Conchas e da Quinta dos Lilases, ao Lumiar. É um local paradisíaco. Ali, na parte mais elevada, revestida por uma abundante vegetação selvagem, ainda se podem ver algumas pequenas aves que escolheram aquele espaço para nidificação, o que é um autêntico milagre numa cidade, onde impera a ditadura do cimento e do automóvel. Lembro-me de ter feito algumas reportagens para o nosso saudoso jornal, na altura em que aquele espaço verde esteve ameaçado pela gula dos patos bravos, que andaram a construir, a norte, a urbanização da Alta de Lisboa. Ainda conseguiram destruir o muro da cerca original, para derrubar algumas árvores centenárias e proceder ao esbulho de uma franja de terreno, pertencente ao parque, um crime que ficou impune.
Esses patos bravos e esses promotores imobiliários também tentaram abrir uma rua, para fazer a ligação directa da urbanização à avenida das Linhas de Torres, intento que foi travado, devido à corajosa luta da comissão de  moradores do Lumiar. Evitou-se assim o esquartejamento das duas quintas e, consequentemente, a destruição daquele espaço verde, pois, a partir dali, ficaria aberto o caminho para as árvores serem substituídas pelo tijolo e pelo cimento.
Estes patos bravos são assim. Não podem ver na cidade uma nesga de terreno, que não pensem logo em construir condomínios. Há quem diga até que os patos bravos têm potentes orgasmos quando olham para um arranha-céus, coisa que não lhes acontece quando fodem com as suas mulheres, o que os leva, em desespero de causa, a procurarem as putas nos bares de alterne da Duque de Loulé e da Luciano Cordeiro, o único sítio onde podem fazer crer que a sua potência sexual é equivalente à da potência dos motores dos seus automóveis topo de gama, invariavelmente da marca Mercedes e Audi, e que ficam caoticamente estacionados nos passeios daquelas artérias, numa manifestação pirosa de ostentação.
Só naqueles espaços obscuros da noite de Lisboa é que conseguem satisfazer as suas bizarras fantasias, e não só as de âmbito sexual, constando até, por aí, que, a mais bizarra, é aquela em que um famoso empreiteiro exige das meninas, a troco de uma nota de cem euros por cabeça, que o considerem presidente do glorioso, encenação esta que apenas ocorre, já perto da madrugada, quando ele já está encharcado em whisky.
Um abraço

Alexandre de Castro

Lisboa, Setembro de 2011

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