quinta-feira, 9 de maio de 2013

Poema: Ó minha irmã Violência! Ó minha irmã Guernica! - por maria azenha

Pablo Picasso - Guernica

Ó minha irmã Violência! Ó minha irmã Guernica!

Oh o amor é uma flor exótica
como uma granada carnívora.
o amor é um chiclete.
e somos as tuas crianças pobres
degoladas do medo sem tripas
somos as tuas crianças negras
nas ogivas nos mísseis
a revolução se analisa
como um míssil rentável
os nossos rios correm pela estética das armas
o nosso sangue corre pelas estrelas de guernica
são corrosivas!

e as crianças morrem pelo sangue dos cadáveres
as crianças morrem aos irmãos do medo
às granadas plásticas.

onde estão os humanistas?
para onde foram as toilettes barbitúricas das armas?

e trazemos astronautas
a solidão negra dos pássaros,
os robes pretos nas goelas politécnicas das armas
trazemos os cadáveres.

são os novos códigos das morgues de Santiago.
são os novos códigos do Iraque.
são as novas naves guatemaltecas
programáveis de ítems!

artigo I. Tenho medo!
artigo 2. Tenho medo!
Artigo 3. “Où est ma valise?”

oh a pele habita o medo
e o medo habita as margens,
a pele habita o medo
o medo habita as margens.

são os rios negros do terrorismo!

e somos os traficantes das drogas
nas ogivas nas armas
somos os traficantes dos dólares
nos cachets dos chiles,
no nosso sangue correm as estrelas de granada
no nosso sangue correm as estrelas terroristas

onde estão os humanistas?
onde estão os meus irmãos artistas?

e marchamos tristes
sobre a ditadura dos átomos
trazemos as cicatrizes
como uma ogiva inteligível.
são os bordéis dos Chades! são as páginas das Líbias!

para onde foram as paralelas brancas do “penso, logo existo”?
para onde foram as estrelas infinitas?

Ah, e no bairro do terror somos os assassinos!
fazemos o amor
como caves terroristas,
são as flores que crescem
nos bairros ensanguentados,
sinistras,
nos jardins políticos!

é o pavimento lustrado.
é terrorismo.

Ó minha irmã Violência! Ó minha irmã Guernica!
a solidão
mudou de cave
como uma nave terrorista!…

maria azenha
in " P.I.M.",pág. 36 a 38

Nota: O bombardeamento de Guernica, uma obscura vila do País basco, perpetrado pela esquadrilha alemã Condor, ao serviço de Franco, deu pretexto e inspiração a muitos poetas e escritores, para descreverem a barbárie do fascismo que nascia em Espanha. Mas o bombardeamento de Guernica não teria marcado a nossa memória coletiva se Pablo Picasso não o tivesse imortalizado numa notável obra pictórica, que nunca se esgotou no tempo, podendo ser considerada a obra-prima do autor e a mais emblemática do século XX.
Os poetas não perderam a oportunidade de escrever sobre Guernica. Oportunidade que também não escapou à inspiração de Maria Azenha. Dos poemas que conheço sobre este tema, e são alguns, em português e em castelhano, o de Maria Azenha é dos mais marcantes em termos literários e iguala em talento e em grandeza poética o  poema sobre o mesmo tema, de CarlosOliveira, um poeta e um notável romancista do movimento neo-realista português do pós-guerra e que escreveu o conhecido romance Uma Abelha na Chuva.
Percorreram caminhos diferentes, mas ambos exaltantes. Carlos Oliveira deteve-se no pormenor descritivo da tela de Picasso, interpretando poeticamente cada figura pictórica. Maria Azenha preferiu ignorar a tela do pintor e partiu em desfilada pelo mundo a perseguir as guerras, os fantasmas dos nossos medos coletivos, os fascismos e a barbárie, cruzando metaforicamente “a solidão negra dos pássaros” com as “goelas politécnicas das armas”, ao mesmo tempo que nos fala do “medo”, aquele “medo que habita as margens”. E não deixa de denunciar os silêncios cúmplices, quando, perante os dramas humanos do nosso tempo, o tempo da minha geração e o da “poeta”, se interroga desesperadamente, “onde estão os humanistas?/onde estão os meus irmãos artistas?”, para, uma vez desiludida, concluir “Ah e no bairro do terror somos os assassinos”, uma acusação ao correr do fio de uma navalha, perante o conformismo e acomodação, que pesam na nossa consciência coletiva.
Este poema de Maria Azenha engrandece-se pela profusão metafórica, mas, acima de tudo, pela brutal denúncia a que procede. Raramente  a Poesia e a Política (no sentido mais nobre do termo) se cruzaram com tanta violência.
Alexandre de Castro

A “poeta” Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às quintas-feiras.

1 comentário:

Anónimo disse...

Excelente poema, como só Maria Azenha o pode dizer...
Partilhei por lá.


Abraço,
Citoyen Du Monde