quinta-feira, 23 de maio de 2013

Poema: "o amor não é de modo nenhum uma receita veloz" - por maria azenha

Fotografia © maria azenha, Abril,16, 2013

"o amor não é de modo nenhum uma receita veloz"

o amor não é de modo nenhum uma receita veloz.
com um pouco de água
cenouras
batatas e cebolas
não se fazem manjares.
também não é uma sopa instantânea
nem tão pouco caseira,
exige traje a rigor
bordado a pontos de travesseiro.
é absolutamente indispensável
ter uma cozinha no universo.
olhar de vez em quando, com ternura, a terra.
deve-se estar elegantemente preparado 
para chorar quando se descascam as cebolas,
observar com rigor cada lágrima
vertê-la para dentro de uma caixinha
e colocá-la de novo no mar,
chuva entre os intervalos da cozedura.
é indispensável 
para lavar a amargura, algum sol.
para que a receita se possa tornar um manjar
um pouco de mel
e o produto final
possa ser assinado 
não por um homem e uma mulher
mas por duas abelhas. 

não esquecer
uma sinfonia durante o tempo de permeio
fogo
muito fogo
primeiro forte
depois suave
cultivando sempre e com rigor a devoção alheia.
de um ingrediente a outro
devem observar-se as nuvens
a temperatura ambiente
fazer pousio,
só depois recomeçar o movimento
à semelhança da nostalgia das dunas
reparar ainda se há depósito de lodo.
deve haver.
para que mais tarde possa nascer
da invisibilidade da água
a maravilhosa flor

maria azenha

Nota: Maria Azenha é já uma "poeta" consagrada, premiada e reconhecida, com mais de uma dezena de títulos publicados. O que se verifica em toda a sua obra, além da elevada qualidade dos seus poemas, é a sua enorme capacidade em diversificar os seus "estilos poéticos". Este poema, que hoje se publica, é um exemplo típico dessa diversidade de processos literários. Convido o leitor a dar uma espreitadela (etiqueta Poesia de Maria Azenha) aos vinte poemas da autora, publicados neste blogue, onde poderá constatar esta asserção. Cada poema busca o seu próprio estilo.
Assim acontece com esta "receita" de amor. Trata-se de um exercício poético em que Maria Azenha mostra como um texto de prosa pode transformar-se num texto poético. Começa-se a ler, e o discurso não é seguramente poesia, mas sim prosa, a falar-nos de cenouras, batatas e cebolas, como se tratasse de uma vulgar receita culinária. Mas, no final do décimo primeiro verso, aparece a frase metafórica "ter uma cozinha no universo", a remeter imediatamente o leitor para o universo poético. O mesmo acontece ao longo do poema, com as frases metafóricas "e colocá-la de novo no mar"(a lágrima), "mas por duas abelhas", "nostalgia das dunas"e "maravilhosa flor". Só com este processo criativo, a linguagem de uma vulgar receita se transforma num poema, que é também uma receita, mas uma receita de amor, bem elaborada literariamente.
Quero deixar aqui, por ser o espaço próprio para o efeito, o amável comentário que a "poeta" Maria Azenha deixou na minha página do Facebook, a propósito do quarto aniversário do Alpendre da Lua, e que não resisto em transcrever: 
"felicitações e agradecimento ao valioso Alexandre de Castro pelos contributos deste blog ...que ainda me faz crer que é possível pensar, refletir e caminhar pela Arte ..."
Obrigado, Maria Azenha.

A “poeta” Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às quintas-feiras.