quinta-feira, 2 de maio de 2013

Poema: A MAMÃ POR CIMA DOS TELHADOS E O MEU AMOR - por maria azenha

Picasso - Mulher chorando (1937)

A MAMÃ POR CIMA DOS TELHADOS E O MEU AMOR

não quero puxar da gaveta
das cartas de amor desta manhã.
morreu, está morto.
não se fala mais.

e já lá vai uma hora
que estou a morrer de chinelos.

é a minha boca diária com horas suscetíveis.
esqueci-me que a minha boca tinha molas
para a fechar às cinco.

e sinto-me como um violino doido
de uma estrela vermelha
em meu coração vagabundo,
por cima dos telhados a arder…

pronto,
pronto.

é o horror em dezembro
por uma centelha do dia
que foi agora criado para se escapar…

dos meus olhos explode o refúgio nocturno.

é o horror, minha mãe,
pela noite dos mendigos passantes
com os olhos inchados por milhares de gotas de estrelas
em volta de Osíris.

acorrem-me as lágrimas
em ferro abrasado,
a tua luva d’ incêndios,
nas rendas dos meus nervos de lábios caídos…

olha, os teus filhos vão ser assassinados!
a tua filha vai morrer
em fogo,
entre letras gigantes e frias
de ferro abrasivo…

lança as minhas chamas com as chuvas primas,
para cima
das tuas
nádegas,
brancas e lindas!

e os músicos, lá fora, riem…
riem dos meus olhos de cinzas,
leves, como um violino…

olha o céu em fogo,
o fumo azul-escuro esguichado
por entre as notas deste violino
partido e doido
que agora se escapou
dos meus dedos.

que importa o teu semblante de frio?!

a tua filha está doente e doida,
as suas letras entraram nas buzinas dos carros
por todos os ouvidos de escárnio
nos bondes das ruas!

estou doente, mamã!
enlouqueci terna de chuvas cínzeas
e amante de um bocado de estuque.
tenho os olhos inchados para o lado das imagens,
a minha boca juntou-se ao bulício das ruas.

( nenhum violino
pode agora conter o choro das minhas lágrimas!...)

choro doidamente como uma noiva de chumbo
metida num vestido de rendas
e buzinas nos dentes!...

pronto,
pronto, mamã,
levarei para longe as tuas carícias
numa palavra meiga da chuva!...

olha, como todos os amantes
caíram em delírio nas avenidas,
cercados pelo peito de uma lágrima minha!

porque me querem todos roubar as letras do armário antigo,
se sou tão simples e nua!?!

Ah,
que venha uma estrela vermelha
com três nuvens abraçadas
e digam a todos que estou bem em casa,
não quero sair para as ruas!

Não vês ,
como não pude ir à escola,
não podia cercar o delírio em volta dos muros?!
só caí doente
neste jogo de música e rimas…

Mamã, vem depressa buscar os meus beijos incendiados
para levar o mundo a escrever mais livros,
e entrar pelos ouvidos dos transeuntes cansados,
e sonhar os rios agora todos cercados
com letras a arder no céu de chumbo!,
sou uma Vénus de  nihil
erguendo os braços em fogo ao Vesúvio!

Sou tão grande, mamã,
quando assim ardo a teu lado
e a tua pele me salta do crânio
cantando sonetos de delírio
em meu coração taciturno!

(ninguém imagina o que se escapou
por uma pequena faúlha
em volta deste martírio
de uma castidade espantosa !...)

estou com febre, mamã,
estou com febre dos meus erros humanos,
ardo nas palavras que não consigo escrever
para te levar num alfinete grego
a minha mão  d’água fria!...

Mas cuspirei a noite com quatro risadas
e dois gorgolejos de lágrimas!

pelas ruas vai uma dinastia
de pequenos amores que por ti passam
como transeuntes familiares…

Como posso ter medo
deste fogo suplicado de lágrimas
que arrasto comigo pela vida fora,
como podem saber deste amor sem nomes
por cima de guerras e escárnios?

Por cima de cada dedo crispado sobre a tua garganta
Corre agora um soldado mutilado!
Todos os sons das ruas caíram em Maio.
Tenho os olhos cercados pelos tristes juízes
Que lançam poemas às ruas,
Em grades.

Não gosto, mamã, deste tom destruído do mundo,
Quero fazer um poema sobre a tua fraqueza
de anjo bovino!

dorme,
dorme , mamã, em meus seios.
labuto com livros sobre as tuas veias
de martírio noturno,

e se morreres hoje sobre o meu nome esquecido
levantar-te-ei como um punho de rendas
de pestanas brancas,
mergulhadas no Reno,
até à morada de meu pai.
Ouves?
Lembras?

Não posso perder-me em tarefas inúteis!

Comigo transporto a música d’ enterro
sobre os meus rins vermelhos,
e direi então a todos para que não esqueçam:

Avançai agora em marcha fúnebre.
Chorai, amargamente,
sobre o luto de vossos cabelos!

maria azenha
2007, maio

Nota: Em mensagem enviada à “poeta”, escrevi a primeira e incisiva impressão, que me ficou da leitura deste poema:
“… poema, com metáforas surpreendentes, que me põem "doido". Só a Maria Azenha poderia fazer poesia com estes versos: choro doidamente como uma noiva de chumbo/
metida num vestido de rendas/e buzinas nos dentes!
Depois, são mais metáforas em catadupa, cada uma delas a engalanar o poema, para meu contentamento”.
Partindo de uma ideia inicial, linearmente expressa, a “poeta” parte para o labirinto doloroso da solidão, a que um amor destroçado a conduziu, caminhando no poema em círculos concêntricos à volta dessa mesma ideia, e aproveitando para se deter, recorrendo à sua empolgante linguagem metafórica, sempre desconcertante, nos instantes mais prementes da sua dor.  Repare-se na grande e original expressividade desta sua metáfora: “ estou doente, mamã!... e amante de um bocado de estuque”. Ou esta outra: e sinto-me como um violino doido/de uma estrela vermelha/em meu coração vagabundo/por cima dos telhados a arder”.
AC 

Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às quintas-feiras.