quinta-feira, 30 de maio de 2013

Poema: para voltar ao princípio do mundo - por maria azenha

óleo-Wladyslan Slewinski (Woman Brushing her Hair, 1897)
Imagem selecionada pela autora

para voltar ao princípio do mundo 

sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola
para voltar ao princípio do mundo

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

e disse: tece-me

e o mar inclinou-se para dentro
para tecer
o poema

maria azenha (2009)
(contagiada por Daniel Faria )
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O cabelo e o mar: um poema de Maria Azenha

"Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema-vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si mesmos não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz, do que uma vida se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola; para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
...
Libertando-se do cabelo é que o feminino encontra a fertilidade do que pode gerar o poema: o mar. Entregar ao mar esses fios é deixar o poema tecer, dizendo ao oceano: “tece-me”. Confiar no mar a atitude de ser com ele o poema revela a mulher que se liberta dos fios que a prendiam para doar ao mundo os fios que se juntam ao mar. União que a tecerá como verdadeira mulher, porque essa é a ação mais simples “para voltar ao princípio do mundo”. 
Jefferson Bessa

A "poeta" Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às quintas-feiras.

1 comentário:

Mar Arável disse...

Num fio de música
a entrega
ao ciclo das marés