terça-feira, 18 de novembro de 2014

Poema sem título - por Maria Gomes

 

Poema sem título

Conservo ainda a palavra que fende o Outono,
a que lava a margem,
e  regressa a este difícil tempo de amar.

Habitando o destino do teu círculo insurrecto,
velo incessantemente a noite.
Quando o sol nascer,
levarei o amor ao sepulcro inviolado
das aves;
ao eco, o fogo pátrio,
o silêncio arauto da matriz das tempestades.

Nada nos foi prometido, nem o olvido!
A palavra é o fragor de um dia sem porto
Nem por do sol.

Dá-me o estro
uma branca toalha
derramando o esplendor, o sal, a âncora…

Deve haver um caminho para o mar.

mariagomes

***«»***
Nota: Maria Gomes já nos impressionou com os dois poemas seus, aqui publicados, onde fazia sobressair uma melódica carga intimista, que parece ser uma marca sua, em toda a sua obra. Neste poema, surpreende-nos pelo hábil encadeamento do jogo metafórico, incisivo e bem temperado pelo eco das palavras escolhidas, cuja sonoridade empresta ao poema toda a beleza.
“levarei o amor ao sepulcro inviolado / das aves / ao eco, o fogo pátrio, / o silêncio arauto da matriz das tempestades, são excelentes metáforas que sustentam todo o significado amoroso do poema.   

1 comentário:

maria azenha disse...

A Poesia de Maria Gomes sempre com uma sonoridade notável. E com uma carga emocional fulgurante.

Obrigada , Maria.

saudades e um abraço,

maria azenha