sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Anotação do Tempo: E se eu vos disser...





E se eu vos disser...

E se eu vos disser que me lembro
de todas as rugas daquele tempo
cavadas no granito e nos rostos...
E se eu vos disser que me lembro
da geografia da fome
e de todos aqueles para quem
a sua miserável pobreza
era a sua maior riqueza...
E se eu vos disser que ainda ouço
a voz das pedras dos caminhos e dos casebres
e o crepitar do lume das lareiras nos Invernos,
para aquecer o frio e fazer crescer os sonhos...
E se eu vos disser que aquele tempo 
era um tempo sem tempo,
apenas para esperar a morte...
E se eu vos disser que o mundo
nascia e morria ali,
porque não havia mais mundos
para além das serranias e dos baldios...
E se eu vos disser que tudo isto
é memória dorida, 
ferida a sangrar em carne viva
que o tempo não alivia...
Este era o meu povo,
o povo ignorado que não esqueço
e que ainda trago na lembrança…

Alexandre de Castro
Outubro/2014

______________________________________ Agradeço aos meus amigos Diamantino Silva e João Fráguas o envio do vídeo.

4 comentários:

maria disse...

Que força!
Como deste pão e bebo desta água...
Obrigada, Poeta !

Alexandre de Castro disse...

Obrigado, Maria.
Na dureza empolgante da paisagem do granito, confrontei-me muitas vezes com as bocas da fome. Eram os tempos em que eu ainda não podia saber por que razão. Hoje, já sei...

mariagomes disse...

...e se eu lhe disser que isto é poesia da linha da frente, tão necessária quanto é o pão para a boca... Obrigada!

Alexandre de Castro disse...

maria gomes: Os poetas neorealistas ensinaram-nos que há poesia no chão que pisamos.
Obriado.