quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poema: " O véu " - por maria azenha

" o Véu" 
óleo sobre tela |© maria azenha , 2013

" O véu "

Às vezes penso por intermédio de cores. as palavras são hieróglifos de um sonho que julga acordar-me. venho da escuridão de estrelas que oculta a minha existência. 
E entre o pousar da mão nas coisas e o meter a chave à porta , reina silêncio. e floras aquáticas com plantas azuis. e árvores ancestrais com estradas de angústia. 

Olho o topázio de Deus na pura física do mundo. e sou ao longo de uma nebulosa as pálpebras de alguém que atravesso, irreal, buscando os ecos nupciais da criação.
E vejo no seu reflexo mapas astrais, pássaros, conchas de água, esmeraldas ,
crianças que bebem sem lábios um tempo enigmático. 

O crepúsculo, translúcida parede de um cais, é a perfeição sem versos que dança através dos corpos.

Tudo reflui como coisas caindo em metáforas de música. e criando destinos dentro da sua própria queda. 
e dos poemas sepultados nas galáxias nasce o som verde das florestas.
Não quero outra coisa senão surpreender-me. fui eu que me inventei. 

E Deus, por amor, criou-me.
maria azenha

Nota: Em relação a este poema, enderecei à "poeta" a seguinte mensagem, que deixo aqui como nota crítica: "Exuberantemente belo e exaltante! Ficamos suspensos nesta cosmogonia metafórica que ressoa pelo Universo inteiro".
Além de "poeta", Maria Azenha também é uma excelente pintora, revelando uma grande sensibilidade no equilíbrio da distribuição das tonalidades das cores. Neste trabalho, a um primeiro olhar, recolhe-se apenas a perspetiva das duas dimensões do plano, o que é ilusório (não sei se intencionalmente), pois, olhando com mais atenção, começa a descobrir-se lentamente, como se estivéssemos  delicadamente a levantar o véu, a terceira dimensão, a da profundidade, que se assume com maior nitidez no vértice da confluência das várias linhas pictóricas. A ser assim, estamos perante um artifício engenhoso da autora, o que engrandece naturalmente a obra.

A "poeta" Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às quintas-feiras.