sábado, 3 de julho de 2010

Uma Guerra Civil quase anunciada - por Alexandre de Castro





Uma Guerra Civil quase anunciada


Primeiro dia do ano. Ruas desertas. Um ou outro passante, descontraído na preguiça de mais um feriado. Ia olhando para os cafés que me são habituais, de tanto os frequentar. Tudo fechado, que o negócio já acabara no dia anterior. Refugiei-me na Mexicana, que pouco frequento. Entrei, distraído, e logo ali senti sobre mim o peso de mil olhos, fixados num cachimbo que, apagado, levava pendurado na boca.

Ao fundo, havia uma mesa vaga e, enquanto me dirigia para a ocupar, verifiquei que ninguém estava a fumar, o que, para mim, já não constituía novidade, já que, ainda em casa, vira numa reportagem televisiva o respectivo gerente deste já histórico café de Lisboa a vangloriar-se com militante entusiasmo que ali estava a cumprir-se a nova lei antitabagista, embora se tivesse engasgado, perante a jornalista que o entrevistava, ao debitar a escusa à realização de quaisquer obras, a fim de reservar um espaço apropriado, para os clientes fumadores, refugiando-se no argumento dos elevados custos, argumento este de muito peso e que possivelmente não escapou à matreirice do zeloso legislador, que assim adivinhou, divertido, o efeito paralisante das respectivas exigências técnicas para essas obras.

Mal me sentei numa cadeira, confrontei-me com os olhares agrestes e suspensos de três velhas, que pararam a sua viva palração, quando repararam no meu cachimbo, pendurado nos dentes. Agitaram-se, e todas, ao mesmo tempo, como se fossem autómatos, impulsionados por uma mola, inclinaram-se para a frente, muito hirtas e concentradas. Nem pestanejavam, tal era a sua ânsia em descortinar uma onda de fumo a sair do fornilho do cachimbo. Pareciam sanguessugas, pensei.

Comecei a ler o jornal, fingindo não ter reparado na animosidade da recepção, enquanto lhes espiolhava os gestos pelo canto do olho. Reclinaram-se nos espaldares das cadeiras e começaram a cochichar umas com as outras, fazendo esgares alarmantes. Voltaram a olhar-me, e eu resolvi sacar da bolsa do tabaco, que pousei no tampo da mesa. A excitação reacendeu-se nos olhos das três velhas, que voltaram a inclinar-se para a frente, agora com um ar mais determinado. Deixei que se cansassem naquela incómoda posição - até resolverem, todas ao mesmo tempo, encostarem-se novamente ao espaldar das suas cadeiras - para eu iniciar com gestos vagarosos o enchimento do fornilho do cachimbo, enquanto aparentava mostrar muita atenção ao que simuladamente estava a ler no jornal. Um ritual mil vezes ensaiado, mas que ali eu sopesava com extrema paciência e rigor. Os dedos e o calcador iam, vagarosamente, apertando o tabaco no fornilho, e as velhas seguiam, como se de um maléfico efeito hipnótico se tivesse apossado delas, todos os meus movimentos, os quais as exasperavam, como se podia deduzir através da evidência dos irreprimíveis sinais de impaciência, que manifestavam.

E foi quando abandonei o cachimbo no tampo da mesa, para poder segurar o jornal com ambas as mãos - último gesto, este, assim exigido ao leitor que tropeça, sem disso estar à espera, numa inusitada notícia que lhe desperta subitamente o interesse - que voltaram a recostar-se, soltando uma exclamação que, ainda hoje, não sei se foi de alívio ou de desilusão.

Assim as deixei, entregues às tagarelices, que rapidamente retomaram, ao mesmo tempo que passaram a ignorar-me, enquanto eu, segurando o jornal com as duas mãos, continuei a ler a tal notícia, e que me obrigou, com estudada simulação, a uma maior fingida concentração.

Não lhes dei tréguas por muito tempo. Num gesto rápido e decidido, largo o jornal, coloco o cachimbo na boca e começo a apalpar todos os bolsos à procura do isqueiro, que eu sabia já estar em cima da mesa, por aí o ter colocado, mal me sentei. As três velhas deram um estremeção nas cadeiras e, novamente, voltaram-se para mim. Uma delas já olhava para trás, para o balcão, julgo que para descobrir o gerente, que já estava, a resguardada distância, e numa presença vigilante, a observar-me atentamente. A velha esboçou um sorriso de satisfação, depois de certificar-se de que se poderia contar com a inestimável ajuda daquele importante aliado, nesta sua primeira investida da sagrada cruzada antitabagista.

Peguei finalmente no isqueiro. Agarrei-o e coloquei-o em posição para o accionar, mas reincidi na descoberta de uma outra notícia do jornal a despertar-me a atenção, e ali fiquei a lê-la com afincada concentração, enquanto o antebraço, com o cotovelo assente no tampo da mesa, ficara em suspensão, por um tempo indeterminado, que, para as três velhas, nunca mais acabava.

A velha que se certificara da presença vigilante do gerente e que, das três, era a que revelava maior impaciência, levantou-se, ajeitou o casaco, que trazia pelos ombros, e, lesta, encaminhou-se para uma mesa próxima, onde um senhor anafado lia o jornal. A intimidade entre ambos era visível, pois a um cochicho da velha, aquele senhor, com um ar de funcionário público aposentado, levantou os olhos por cima dos óculos e olhou na minha direcção, para depois, perante as palavras da velha - que deveriam ser de indignação, tal como se podia observar pelos seus esgares que lhe arrepelavam as peles do rosto - ensaiar com a cabeça sucessivos gestos afirmativos de inteira e absoluta concordância.

Quando o gerente estava quase a desistir da sua apertada vigilância, por, possivelmente, outros afazeres lhe reclamarem a imprescindível presença, accionei a chama do isqueiro. As velhas, o gerente e o senhor anafado estancaram de repente e ali ficaram estáticos e com a respiração suspensa, a olhar, ansiosos, a chama bruxuleante do meu isqueiro, que eu mantinha aceso, com o braço apoiado e imóvel, enquanto voltei a uma nova e concentrada leitura.

As velhas pareciam hipnotizadas, o senhor anafado olhou em redor, com um sorriso imbecil, para se certificar se outros clientes também estavam a ver aquilo que ele via, e o gerente levou a mão ao bolso, dando-me tempo, no entanto, para observar o movimento discreto da sua mão a agarrar um pequeno objecto cinzento, ficando-me a dúvida, ainda hoje não esclarecida, se se tratava de um telemóvel ou de uma pistola.

Apaguei a chama do isqueiro, pois já estava a queimar-me, e coloquei-o novamente no tampo da mesa para dar toda a minha atenção à leitura concentrada do jornal. As velhas soltaram em simultâneo, e com uma estridente sonoridade, um suspiro de desânimo, o gerente retirou a mão do bolso e encostou-se a uma coluna, não renunciando à sua atitude vigilante, e o senhor anafado procurava o olhar da velha, que antes se lhe dirigira, mas que, agora, já lá vai, muito aflita, em passinhos miudinhos e rápidos, num trejeito cómico, a caminho dos lavabos, talvez movida pela urgência de uma provável incontinência urinária a manifestar-se, devido à excitação do momento.

Sem me dar conta, já os clientes de todas as mesas estavam a olhar-me com interessada curiosidade e uma pouca discreta animosidade, enquanto alguns, para demonstrar o lado da trincheira em que combatiam, teciam em voz mais alta, para eu ouvir, comentários laudatórios à nova lei, entrada naquele dia em vigor.

As velhas, agora com o trio recomposto, pois aquela, que tinha ido, aflita, aos lavabos, já regressara, aliviada, ao seu lugar, entraram em grande excitação, visível na forma como nervosamente agitavam as pernas, ao verificarem que toda a clientela da Mexicana, ali presente, estava alertada para se lançar sobre mim, se eu cometesse a ousadia de acender o cachimbo, infringindo a nova lei, que protege os não fumadores, mas estigmatiza os fumadores.

Correndo riscos, resolvi regressar à encenação do isqueiro. Ali ficou pendurada a chama a excitar toda a gente, com alguns clientes, onde não estavam incluídas as velhas, nem o senhor anafado, nem o gerente, já a suspeitarem das minhas verdadeiras intenções, e a adivinharem a pilhéria ou a provocação de mais um fumador ressabiado com a lei proibicionista.

Apaguei a chama, dobrei o jornal, a sinalizar o fim da leitura, e voltei a accionar o isqueiro, atrevendo-me a simular o gesto de acender o cachimbo. A tensão atingiu o rubro. O gerente desencostou-se da coluna e ensaiou com estudada energia uns passos na minha direcção, o senhor anafado tirou os óculos e debruçou-se para a frente com as mãos apoiadas no tampo da mesa, e as três velhas, excitadíssimas, saltaram das cadeiras, como se uma mola as impulsionasse, e já se preparavam para também saltar sobre mim, se eu, num gesto rápido, não tivesse apagado o isqueiro, e rapidamente o recolhesse no bolso, juntamente com a bolsa do tabaco. Levantei-me com um ar descontraído, como se desconhecesse toda aquela súbita agitação e, calmamente, saí do café, para grande desilusão das velhas, que ficaram ali de pé, especadas, e com um ar espantado, e também para grande alívio do gerente, que viu afastado do seu estabelecimento o perigo de um desagradável incidente.

Já cá fora, em plena Praça de Londres, pensei que, se, na realidade, tivesse acendido o cachimbo no interior do café, poderia ter desencadeado uma trágica guerra civil em Portugal.

Alexandre de Castro  


Janeiro de 2008
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Este texto foi escrito na sequência da entrada em vigor da lei antitabágica e foi publicado no abnoxio, um blogue de um grande rigor editorial, do prestigiado poeta Ademar Santos, entretanto falecido, prematuramente. Aproveito a oportunidade para lhe prestar a minha humilde homenagem.



Agradeço ao autor a partilha do texto.
Posted by Ademar Santos at 12:46 PM
abnoxio 29 JAN 08