sábado, 31 de janeiro de 2015

Notas do meu rodapé: Bilderberg - O Clube Secreto dos Poderosos

Amabilidade do Diamantino Silva, que enviou este vídeo.

O governo mundial, há muito ambicionado pelos agentes principais do capitalismo financeiro internacional e pela sua expressão política, plasmada na estrutura do imperialismo judaico-anglo-americano, será necessariamente uma ditadura de verniz democrático, sustentada por políticos locais, previamente convertidos à causa. A igreja de Roma, a igreja anglicana e o sionismo são importantes sustentáculos deste ambicioso plano unificador, até porque as suas estruturas cimeiras também fazem parte, ocultamente, do sórdido mundo da alta finança. Nesta promiscuidade entre o poder político, financeiro e religioso, o islão está do outro lado da equação, com a Irmandade Muçulmana, alimentada pelo dinheiro do petróleo, a promover a filosofia e a estratégia global do espírito radical da jihade islâmica, sendo a inspiradora de todos os grupos terroristas, que fazem guerra aos países ocidentais.
Os oficiais do culto do cristianismo e do judaísmo irão estrategicamente atuar nos subterrâneos das consciências dos seus respetivos fiéis, moldando-lhes habilmente o pensamento e manipulando-lhes a alma.
Será um mundo nivelado pelo rolo compressor da ideologia ultra-liberal do Império, que prescinde da ocupação territorial, por desnecessária, já que contará com a obediência cega de lacaios governantes locais, organizados em rede, à escala mundial.
É certo que, neste novo mundo, as liberdades individuais e a liberdade de imprensa serão asseguradas, a fim de mascarar o totalitarismo ideológico. Mas esta tolerância terminará perante o exercício daquelas liberdades que ponham o sistema em perigo. A repressão será sempre silenciosa e subtil. E não será necessário prender ou matar os revolucionários. Bastará condená-los ao desemprego permanente.
A exploração do trabalho continuará, até, talvez, com maior intensidade. Perante a falta de competitividade revelada pelas economias do ocidente, a desvalorização salarial será sempre o modelo privilegiado para aumentar os lucros das empresas.
Haverá democracia, como já se disse. Uma democracia condicionada a dois partidos, aparentemente diferentes, mas com uma base comum, a defesa dos interesses do capital e com os seus dirigentes a serem caucionados pelo Clube  Bilderberg. Um democracia com substância, mas sem essência.
AC

Milhares na praça de Madrid para a marcha do Podemos

Quando é que as bolas tombam para o lado de Portugal?

A menos de uma hora do início da "Marcha da Mudança", organizada pelo partido Podemos, em Madrid, são muitos os milhares de pessoas que se concentram na Praça Cibeles, com frases como "Rajoy escuta, Espanha está em luta".

***«»***
Amanhã já poderá ser tarde!...
A Grécia e a Espanha já conseguiram unificar e federar o descontentamento popular contra as políticas de austeridade, ditadas pelos donos da Europa. Falta a adesão, a este movimento avassalador, de Portugal e Itália, onde as esquerdas não se entendem. Não é a hora de atirarmos pedras uns aos outros, porque todos nós somos culpados. Talvez tenhamos de recordar o ano de 1958, em que um só homem, ultrapassando as quezílias das incipientes estruturas partidárias da altura, mobilizou um povo inteiro com uma simples frase: "obviamente, demito-o". Esse homem foi o General Humberto Delgado. Foi o primeiro golpe de morte contra o regime fascista de Salazar, que ainda resistiu durante mais dezasseis anos. Atualmente, não podemos esperar tanto tempo. Amanhã já poderá ser tarde!...
AC 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Testamento Político de D. Luía da Cunha [antecedido por um comentário]

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)

O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, de futebolistas e fadistas analfabetos e de antigos governantes bolorentos, de má memória, e ignorando-se muitas personalidades ilustres que, no passado, dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007

Agradecimento


Agradeço ao Evaristo Silva a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

UE decide por "unanimidade" alargar por seis meses sanções à Rússia

O novo ministro dos Negócios Estrangeiros grego, Nikos Kotzias (à direita)

Apesar de declarações que davam conta de alguma discrepância entre Bruxelas e o novo Governo grego quanto ao alargamento do prazo e eventual aplicação de novas sanções à Rússia, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União acordaram, "por unanimidade", estender até Setembro medidas como o congelamento de bens e a revogação de vistos de circulação a cidadãos russos.
Afinal o novo ministro dos Negócios Estrangeiros grego, Nikos Kotzias (na foto à direita), não colocou em causa uma posição conjunta da União Europeia (UE) face à Rússia. Bruxelas acabou mesmo por decidir, "por unanimidade" o prolongamento até Setembro das sanções aplicadas à Rússia e ainda acrescentar um conjunto de nomes de indivíduos e entidades à lista de alvos sobre quem já pendem as referidas penalizações económicas.

***«»***
Se Alexis Tsipras começa a habituar-nos a desmentir-se no dia seguinte, a sua credibilidade também começa a ficar em causa. A sua determinação em opor-se, ontem, ao teor de um comunicado da comissão europeia, em que se condenava a Rússia, em relação ao conflito no leste da Ucrânia, contrasta flagrantemente com a aprovação, hoje, do prolongamento e do alargamento das sanções à Rússia, por parte dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE. 
A metáfora da ferradura, da pata do animal e do ferrador esteve perto de se soltar neste texto. Por outro lado, começo a perceber que é mais fácil e mais rápido aprender os vícios (do sistema) do que as suas virtudes, que são poucas.

PS: Costa 'enfrenta' socialistas que anseiam por respostas


A Comissão Política do PS reúne-se na noite desta quinta-feira e, segundo a Rádio Renascença, deverá servir para o secretário-geral do partido, António Costa, revelar aos socialistas qual é afinal a sua estratégia para o país.
Há dirigentes do PS que, segundo a Rádio Renascença, começam a questionar qual é afinal o plano que António Costa tem delineado para o futuro do país e de que forma o líder 'rosa' pretende subir nas sondagens, isto porque, por esta altura, esperava-se que a diferença entre PS e PSD nas intenções de voto fosse maior.

***«»***
Até ao momento, António Costa ainda não disse nada que o demarque de A.J. Seguro. A mesma vassalagem e a mesma fidelidade, em relação às instituições europeias. Proclama aos quatro ventos que é contra a austeridade, mas não diz como nem quando. Limita-se a remeter para a Europa essa responsabilidade, quando já todos sabemos, através das posições agressivas e chantagistas, assumidas em relação ao novo poder político da Grécia, que a Europa não quer ceder um milímetro que seja nas draconianas condições impostas aos países devedores. Até o seu camarada social democrata, que é vice-primeiro ministro da "Hitler de saias", veio a terreiro afirmar que a Grécia tem de cumprir os compromissos assumidos (leia-se, continuar, e aumentar, se preciso for, a austeridade). 
O socialismo de Costa continua na gaveta, onde Mário Soares o guardou. Presumo que para sempre...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A propósito do Testamento Político de D. Luís da Cunha

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)
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O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, futebolistas e fadistas analfabetos e antigos governantes bolorentos e de má memória e ignorar muitas personalidades ilustres que dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007
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Nos próximos dias, serão publicadas, em separado. as três partes que compõem o "Testamento Político de D. Luís da Cunha".

Graffiti dans Paris! - por Nick Walker

Clicar para ampliar a imagem

Amabilidade da "poeta" Maria Gomes.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Alexis Tsipras: o revolucionário sexy vai mudar alguma coisa na Europa?


Quem sonha com uma revolução na Europa depois da eleição de Tsipras na Grécia pode começar a desiludir-se. Alexis escreveu esta semana no Financial Times que vai cumprir todos os compromissos europeus da Grécia e manter o orçamento equilibrado. Tsipras é um prodígio de “sex power” mas não chega para enfrentar Merkel

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Os voluntarismos pagam-se caro. Em política, a primeira medida, adotada por um líder vencedor, transmite logo o sinal da orientação do vento da sua posterior governação. No caso da Grécia, ainda não sei se poderemos já falar de um cadáver adiado ou se de um alçapão traiçoeiro escondido. É que a aliança de um partido da esquerda radical (!) com um partido da extrema-direita, nacionalista e xenófobo, não cabe nos carris do meu pensamento. Talvez me engane, e oxalá que sim…

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Grécia/Eleições: PSD felicita gregos e espera que continuem no «caminho comum»


O PSD felicitou o povo grego pela forma como decorreram as eleições de hoje [ontem] e fez votos para que o "caminho comum" na União Europeia continue a ser "um projeto partilhado" e com futuro.
O PSD, ... nunca refere o nome do partido …  o Syriza, 

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Falta dizer que o comunicado de felicitações foi assinado pelo porteiro da sede do partido.

Federação Nacional dos Médicos (FNAM) - COMUNICADO


Federação Nacional dos Médicos

O decreto-lei de transferência de competências para os Municípios a nível da educação, saúde, segurança social e cultura: um novo instrumento governamental para a destruição do SNS.

O governo aprovou no passado dia 15 um decreto-lei visando a transferência de competências para os municípios e “entidades intermunicipais” a nível de quatro sectores, nomeadamente a Saúde. Nesse sentido, e face às delicadas implicações que a implementação de um processo deste tipo teria para o SNS e para a salvaguarda do direito constitucional à saúde, a FNAM considera indispensável transmitir as seguintes questões:

1. A abordagem efectuada, desde logo, no preâmbulo do citado decreto-lei constitui um amontoado de referências à legislação que menciona aspectos relativos à descentralização, deixando bem explícito que todas as transferências têm de se processar “sem aumento da despesa pública”.
É curioso verificar que a apologia da descentralização administrativa e da proximidade dos recursos disponíveis contida no preâmbulo é da autoria do mesmo governo que tem vindo a adoptar medidas sistemáticas de encerramento de unidades de saúde e alargamentos de horários nas USF, de criação de mega agrupamentos de centros de saúde (ACES) cada vez mais distantes das populações e de encerramento de múltiplos serviços hospitalares de proximidade a pretexto de fusões e de concentrações em centros hospitalares. O atendimento da doença aguda, exceptuando nas USF que este governo insiste em limitar novas aberturas e prejudicar as existentes, é uma área cada vez mais reveladora da negligência, incompetência e insensibilidade deste governo.

2. O artigo 2º, no seu ponto nº 2, estabelece que “a contratualização da delegação de competências pode ser implementada de forma gradual e faseada, através de projectos-piloto, iniciando-se com um número limitado de municípios ou entidades intermunicipais…”. 
No entanto, este decreto-lei estabelece a aplicação geral da referida delegação de
competências e nem sequer prevê qualquer projecto-piloto ou um faseamento da sua implementação.

3. O artigo 4º, no seu ponto nº 1, estabelece que o exercício das competências transferidas não pode aumentar a despesa pública do Estado.
O artigo 5º, que refere a possibilidade da transferência da titularidade e da gestão do património e dos equipamentos poderá constituir a única medida com interesse para uma discussão construtiva a desenvolver entre os múltiplos parceiros Por outro lado o artigo 10º, que define um conjunto de vastas competências delegáveis na Saúde, mostra algumas das actividades que este Governo não tem assegurado e quer agora impô-las aos municípios.
E se o chamado “envelope financeiro” não pode representar qualquer aumento da despesa pública do Estado é inevitável concluir que o financiamento de todas essas actividades sairá dos já debilitados orçamentos municipais.

4. Outro aspecto que importa abordar é que esse artigo 10º determina o recrutamento, alocação, gestão, formação e avaliação do desempenho do conjunto dos profissionais que exercem funções nos serviços de saúde, embora não refira expressamente os médicos e enfermeiros mas genericamente “técnicos superiores de saúde”.
Posteriormente, surgiram referências na imprensa que afirmaram não estarem estes dois grupos de profissionais de saúde abrangidos pelos contratos de delegação de competências.
Ora, como é possível acreditar que estes dois grupos profissionais não estão abrangidos quando algumas das competências a transferir incluem “ definição dos períodos de funcionamento e cobertura assistencial, incluindo alargamento dos horários de funcionamento,” e “ iniciativas de prevenção da doença e promoção da saúde”?
Então, nos centros de saúde, por exemplo, a definição dos períodos de funcionamento e cobertura assistencial , bem como as iniciativas de prevenção da doença e de promoção da saúde servem que objectivos se estes grupos profissionais não estiverem a trabalhar?
É urgente denunciar estes aspectos “escuros” que só revelam propósitos políticos pouco sérios e sem quaisquer preocupações em resolver algum dos problemas existentes.

5. É verdadeiramente chocante a forma como este governo decide sobre matérias sensíveis como esta. Sem qualquer sustentação em estudos técnicos credíveis e sem, muito menos, ter operacionalizado o cumprimento de importantes medidas inseridas na legislação em vigor. Este governo até agora sempre ignorou a participação dos municípios nos Conselhos Executivos dos ACeS , o funcionamento efectivo da maioria dos seus conselhos consultivos e nunca se preocupou com a ausência de articulação entre a maioria dos planos municipais dedicados ao bem estar dos cidadãos com os planos locais de saúde.

6. É forçoso concluir que este decreto-lei tem como objectivos fundamentais, numa clara perspectiva político-ideológica, mistificar conceitos de descentralização da Administração Pública com reais objectivos de desmembramento e pulverização o SNS, desenvolver lógicas meramente locais desinseridas de uma política de saúde nacional, de proceder a uma enorme sobrecarga logística e financeira dos municípios com os serviços de saúde que os negócios privados não consideram apetecíveis, e ainda criar um novo expediente para mascarar a despesa pública perante as entidades europeias, à semelhança de outros esquemas conhecidos com os hospitais SA, EPE e PPP, transferindo para os municípios importante “fatia” das despesas em Saúde.
A FNAM considera imperioso denunciar mais este projecto governamental de ataque violento aos pilares essenciais do Estado Social e desenvolverá todos os esforços para contrariar esta política insaciável na sua obsessão de desagregação do SNS.

Coimbra, 23 de Janeiro de 2015

A Comissão Executiva da FNAM

domingo, 25 de janeiro de 2015

Syriza ganhou as eleições e pode chegar à maioria absoluta. Neonazis prestes a assumir-se como 3.ª força


A coligação da Esquerda Radical (Syriza), que esteve sempre à frente das sondagens, é a vencedora das eleições de hoje. O Aurora Dourada (extrema-direita) está em terceiro lugar quando estão 52,59% dos votos apurados.

***«»***
A agressiva política de austeridade, concebida pela Alemanha e servilmente executada pela UE, sofreu uma clamorosa derrota. E logo, pela via eleitoral, o que não deixa margem de manobra aos austeritários do costume, que já não podem diabolizar quem não se perfila, em rigoroso respeitinho, perante o seu totalitário pensamento único. É certo que nós ainda não sabemos se Alexis Tsipras será capaz de manter a firmeza necessária para, sem tibiezas e manobrismos, dar a cara pelos desafios que as suas promessas eleitorais exigem, e que são difíceis. O povo grego vai querer resultados palpáveis, ao nível das questões centrais, a renegociação da dívida e o fim da penosa austeridade, uma austeridade selvagem e humilhante, que levou ao enriquecimento dos mais ricos e ao empobrecimento dos segmentos populacionais mais vulneráveis, incluindo as classes médias, que já vivem no limiar da pobreza. A fome, na Grécia, não é uma metáfora. É uma realidade brutal, em expansão. Os jornais já noticiaram os casos de mulheres grávidas sub-alimentadas e crianças que vão em jejum para a escola.
O fracasso ou o êxito de Alexis Tsipiras será também o fracasso ou o êxito daquela parte da Europa que está a lutar contra as políticas da austeridade, o que quer dizer que o futuro primeiro-ministro grego tem uma dupla responsabilidade. Perante o povo grego, que o elegeu, e perante os europeus da verdadeira esquerda (sem rebuços, excluo da definição de esquerda o PS e todos os partidos filiados na Internacional Socialista, pela simples razão de que fazem parte do problema e não da sua solução), que nele depositaram muitas expectativas.

Selecção de rugby de montalegre



Lembram-se? Pois foi, a partir desta rábula, que inundou com sucesso as redes sociais, que Montalegre ficou no mapa da nossa memória coletiva. E hoje já se encontra na rota turística do FUMEIRO, uma riqueza gastronómica ancestral, que se revigora, combinando habilmente a tradição com a modernidade.
Ver aqui

Freira vai a hospital com dores e descobre que está grávida [em Itália]


O jornal italiano Il Messagero revelou que uma freira do convento de San Severino Marche, em Itália, foi ao hospital com dores de barriga, mas acabou por descobrir que estava grávida de um menino.

***«»***
O Papa, num daqueles gestos imprevisíveis, a alardear modernidade, com que gosta de surpreender o mundo, já ordenou a distribuição da pílula do dia seguinte, em todos os conventos de freiras, para evitar que as religiosas reproduzam como coelhas.

sábado, 24 de janeiro de 2015

"Comendo" - Ti Henrique Capelas com gente da Terra | XXIV Feira do Fumei em Montalegre...



Está a decorrer, neste fim de semana, a XXIV edição da Feira do Fumeiro, em Montalegre, em que se recria a arte milenar de trabalhar e conservar a carne de porco, uma forma criativa, desenvolvida pelas populações rurais, ao longo dos séculos, a fim de assegurar a subsistência durante um ano inteiro. Não é por acaso que a matança do porco obedecia também ao ritual da festa profana. 

NOTÍCIAS OBSCENAS (1)


Estudo: Colégios dão 'ajuda' na hora de ingressar na faculdade
Há colégios que, por ‘regra’, inflacionam sistematicamente as notas dos alunos, para facilitar o acesso aos cursos superiores. E é precisamente nos cursos com médias de entrada mais altas que tal se nota. Segundo um estudo de investigadores da Universidade do Porto, o fenómeno pode permitir um salto de até 90% nas listas de ingresso em cursos particularmente exigentes, como Medicina.

***«»***
Caso BES/GES: CMVM negou documentos à Comissão de Inquérito
Escreve este sábado o Expresso que a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários recusou entregar à Comissão Parlamentar de Inquérito documentos sobre a transação de ações do BES na última semana antes da resolução do banco.
Segundo o ofício a que o Expresso teve acesso, o regulador português invocou, neste sentido, todos os segredos (profissional, bancário e de justiça) para fazer valer a sua posição perante os deputados que investigam o caso BES/GES.

***«»***
ISS: Mulher de deputado 'escapa' a lista de requalificação
Elza Andrade, mulher de um deputado da Assembleia da República, constava da lista de requalificação do Instituto da Segurança Social. Em Bragança serão 151 pessoas a mudar de regime. Mas, pelo menos por enquanto, esta funcionária evita a requalificação.
O nome de Elza Andrade fazia parte da lista de funcionários do Instituto da Segurança Social (ISS) cujo posto de trabalho, em Bragança, ia ser extinto. Mas na lista final o seu nome deixou de constar. A mulher do deputado socialista Mota Andrade foi entretanto escolhida para um cargo de chefia, revela o Jornal de Notícias.

***«***
Por cinco cêntimos, este salário foi penhorado
Um empresário de Paços de Ferreira dirigiu-se às Finanças para pagar o seu imposto de selo do carro, mas quando lá chegou descobriu que o salário da sua mulher tinha sido penhorado por uma dívida de cinco cêntimos, em virtude dos juros por atraso no pagamento do selo de um outro carro.
“Por cinco cêntimos penhoraram o salário da minha mulher! Ainda estive para perguntar se poderia pagar os cinco cêntimos em prestações”, diz Augusto Gonçalves, de 46 anos, num tom de ironia ao Jornal de Notícias.
“Disseram-me que o sistema eletrónico é cego e que, por haver juros, foi emitida uma penhora imediata sobre o salário da minha mulher”, conta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

FMI: Excessiva desigualdade de rendimentos trava crescimento


A excessiva desigualdade de rendimentos, refletida num dado recente de que 80 pessoas mais ricas do mundo controlam metade da riqueza global, é um obstáculo para o crescimento sustentável, afirmaram hoje economistas e ativistas de prestígio internacional em Davos.
"A excessiva desigualdade não propicia crescimento sustentável", declarou hoje a diretora gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, num debate sobre a concentração da riqueza no Fórum Mundial de Davos (WEF), que decorre em Davos na Suíça.

***«»***
Esta mulher está sempre a dar uma no cravo, outra na ferradura. Desta vez, acertou. Deu no cravo. E bem. Na realidade, e ao contrário do que pensam as nossas luminárias indígenas e os mais empedernidos economistas neoliberais, as políticas redistributivas induzem o crescimento económico. E é fácil perceber porquê. Estimulam o consumo, o que se reflete positivamente no aumento do investimento e do emprego, que por sua vez também vão puxar pelo consumo, constituindo-se assim uma triangulação de fatores favoráveis, que, conjugados, vão aumentar a riqueza (PIB).
É evidente que esta equação não tem uma progressão infinita. Tem um limite, o limite imposto pela equidade e pela razoabilidade dos objetivos das políticas económicas, uma coisa a que, em Portugal, já não estamos habituados.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Os campos nazis: nunca vimos nada assim - ANTÓNIO ARAÚJO - PÚBLICO

O cameraman sargento Mike Lewis, da Unidade de Cinema
e Fotografia do Exército Britânico, filmando em Bergen-
BelsenIMPERIAL WAR MUSEUM (IWM FLM 1232)

Os campos nazis: nunca vimos nada assim

German Concentrations Camps Factual Survey é um documentário feito a partir do material filmado pelos Aliados quando libertavam os campos de extermínio. Com supervisão de Hitchcock, pretendia ser "uma lição para a Humanidade". Durante anos, o filme esteve esquecido, tendo agora sido recuperado na sua versão integral.

Nunca os meus olhos viram nada assim. E já estive em muitos campos de concentração pela Europa fora; vi demasiados filmes sobre as atrocidades nazis, tantos milhares de fotografias. Nada se compara a este filme.
German Concentrations Camps Factual Survey - que passa quarta-feira, às 22h, na Culturgest e quinta-feira, às 19h45, no Cinema Ideal, em Lisboa, no âmbito do festival DocLisboa - é um documentário feito a partir do material filmado pelos exércitos britânicos, americanos e soviéticos quando libertavam os campos de extermínio. Resultando de uma encomenda feita em Abril de 1945 pelo Comando Supremo das Forças Aliadas, foi concebido primordialmente como uma vindicta pedagógica.
No âmbito de um vasto programa de desnazificação da Alemanha, este seria o "filme oficial" que os vencedores iriam mostrar aos que haviam apoiado Hitler. Os seus primeiros minutos, aliás, assemelham-se a uma obra de propaganda feita por Leni Riefenstahl, exibindo a águia esmagadora e multidões na aclamação do seu Führer. German Concentrations Camps é um exercício de represália ou castigo e, sobretudo, um libelo acusatório – não por acaso, as imagens que contém seriam usadas como meio de prova em alguns julgamentos do pós-guerra. A acusação, no entanto, dirige-se não apenas à elite do III Reich mas a um povo inteiro e até, num certo sentido, à Weltanschauung (visão do mundo) germânica. É sintomático que, antes de se revelar o horror dos campos de extermínio, se mostrem paisagens idílicas dos lugares situados nas suas imediações.

Sidney Bernstein (à esquerda), o produtor do filme, no
Norte de África em 1943. À direita, major Hugh Stewart,
 comandante das Unidades de Cinema e Fotografia do Exército
Britânico, que ordenou a cobertura completa da libertação
de Bergen-Belsen IMPERIAL WAR MUSEUM (HU 38069)

Montanhas, castelos e lagos, trajes campestres tradicionais. Depois, surge o cheiro. Era impossível, diz-se, que aquelas raparigas louras, que em Bergen-Belsen brincavam em prados verdejantes, ou que aqueles casais que namoriscavam nas margens de Ebensee não sentissem o odor que vinha das chaminés dos fornos crematórios. Não se pode abdicar do olfacto. Mesmo os que não quisessem ou não pudessem ver o sofrimento próximo seriam incapazes de evitar a presença do cheiro emanado a poucos quilómetros dali.
No filme, procura-se ajustar contas com uma nação derrotada e o seu povo, opção compreensível atendendo ao contexto em que a obra foi realizada. Em poucos meses, porém, o cenário mudaria, entendendo-se agora que a culpabilização de todos os alemães não seria a forma mais adequada de reconstruir o país num quadro geopolítico que entretanto também se alterara, com a Guerra Fria no horizonte e a Realpolitik a impor a reabilitação silenciosa de altos funcionários do regime nazi. A par disso, e como sublinha Night Will Fall, um documentário de André Singer que acompanha de perto a feitura deste filme (passou no Doc a 17 de Outubro), o facto de milhares de refugiados não quererem sair dos campos de morte para a Alemanha, preferindo o êxodo para a Palestina, colocava sérias dificuldades às autoridades britânicas, que deixaram de ter interesse em exibir uma obra que retrava, com inultrapassável dramatismo, os tormentos por que passaram os sobreviventes.
Impacientes com os atrasos dos ingleses, os americanos decidiram produzir em 1945 o seu próprio documentário com base em parte do material filmado:Death Mills, de Billy Wilder. Ao mesmo tempo, uma nota do Foreign Office informaria o produtor, Sidney Bernstein, que nos altos círculos militares não se via com bons olhos o aparecimento de um atrocity film. O projecto não foi concluído. As bobinas acabariam por ser arquivadas em 1952 nas prateleiras do Imperial War Museum, em Londres, onde estiveram esquecidas durante longos anos. 

Mulher assiste a enterro em Belsen, catalogada nas
filmagens como "reacção de rapariga"
IMPERIAL WAR MUSEUM (IWM FLM 1002)

Supervisão de Hitchcock 
Na preparação do filme German Concentrations Camps, a pedido de Sidney Bernstein, que produzia o filme para o Ministério da Informação britânico, Alfred Hitchcock tinha-se deslocado da América para supervisionar a montagem ou, nas palavras de Bernstein, ditas anos depois, para "juntar todas as peças". Os militares que filmaram a libertação de Bergen-Belsen diziam que Hitchcock ficara tão impressionado com as primeiras imagens que lhe mostraram que esteve uma semana sem aparecer nos estúdios de Pinewood. Sendo ou não verdadeira esta história, o papel de Hitchcock situa-se a meio caminho entre o de um realizador clássico (na verdade, não dirigiu a tomada das imagens nem sequer esteve nos campos) e o de responsável pela montagem. Terá sido, como refere a ficha técnica do filme, um "treatment adviser". Em todo o caso, há o inegável risco de, a partir de agora, esta obra passar a ser conhecida como "o documentário de Hitchcock sobre o Holocausto" e, pior ainda, em pretender ver na sua filmografia subsequente vestígios desta experiência, que decerto terá sido marcante, talvez traumática, mas ainda assim episódica e efémera. Num depoimento de 1962, Hitchcock qualificou o papel que teve como o seu "esforço de guerra", dado que a sua idade e o seu peso jamais lhe permitiriam entrar em combate.
Sendo impossível determinar a dimensão do contributo de Hitchcock – em comparação, por exemplo, com o do editor Stewart McAllister ou de Richard Crossman, o autor do script –, reconhece-se que a ele se devem muitos dos elementos que conferem a esta obra uma subtileza e uma densidade que o filme de Billy Wilder não possui. A ele pertence uma das ideias centrais deste filme, segundo a qual a generalidade dos alemães sabia o que se passava nos campos. Daí a apresentação, numa linguagem visual extremamente simples, de mapas que assinalavam a localização geográfica dos campos, na vizinhança de cidades como Munique ou Weimar.   
Se todo o filme está construído de uma forma "manipulatória", algumas passagens evidenciam mais flagrantemente os traços de uma intervenção que visava obter o máximo efeito junto do auditório. Por exemplo, quando o folhear de um álbum de fotografias familiares é entrecortado por grandes planos de cadáveres horrivelmente esfacelados; ou quando à apresentação de corpos subnutridos se sucedem imagens de mulheres nuas que tomavam o seu primeiro duche quente em muitos meses ou anos. Uma "orgia de limpeza" diz-nos o narrador. Neste passo, há alguma voluptuosidade na exposição demorada dos corpos femininos inteiramente despidos, o que para os padrões morais da época seria impensável noutros contextos ou lugares. Os campos eram, até no registo da sua memória, um território de excepção, ponto salientado por um dos operadores de câmara: "jamais poderíamos associar aquilo que víamos às nossas próprias vidas (…). Era outro mundo. Se nos envolvêssemos naquilo, teríamos enlouquecido".

Todas as oportunidades são aproveitadas
para menosprezar o inimigo derrotado,
geralmente com uma ironia onde é impossível
não adivinhar a influência de Hitchcock.

Quando se mostra detidamente o banho das mulheres, diz-se que aqueles eram os seres humanos que, segundo os nazis, tinham poucos ou nenhuns hábitos de higiene. Ao apresentar-se os guardas das SS a proceder à tarefa horrível de inumar os corpos, afirma-se que, se aquele era o escol de uma "raça superior", se tinham sido treinados para matar a sangue-frio, certamente não lhes seria difícil realizar o trabalho de enterrar os mortos. Esse sarcasmo, porventura fruto de uma incontida raiva mais do que do propósito de fazer humor, leva o narrador a dizer, perante as imagens de dezenas de idosas acamadas, que aquelas senhoras "eram consideradas uma ameaça para o Estado". Mostram-se ossadas humanas, dizendo-se que eram usadas como fertilizantes; logo de seguida, o plano de um campo de couves, acrescentando-se que provavelmente muitos alemães se alimentavam com legumes que cresciam graças aos restos mortais das suas vítimas. Não há qualquer momento de complacência nem espaço para tolerâncias.  
Todas as oportunidades são aproveitadas para menosprezar o inimigo derrotado, geralmente com uma ironia onde é impossível não adivinhar a influência de Hitchcock
Dentro da mesma lógica que os levara a produzir este filme, os Aliados traziam aos campos as autoridades locais mas também os cidadãos vulgares, que contemplam o cenário macabro com os olhos postos no chão; diz-se a dada altura que, numa medida ou noutra, todos eles eram culpados pela tragédia. A caminho de Buchenwald, muitos habitantes de Weimar iam felizes, sorrindo para a câmara. Até ao momento em que lhes é mostrada uma mesa onde se apresentavam pedaços de pele tatuada que os nazis retiravam às vítimas e as cabeças reduzidas de dois polacos capturados quando tentavam fugir.   
O filme percorre diversos campos, obedecendo a uma estrutura narrativa que, também do ponto de vista da impressão causada no espectador, se afigura extremamente eficaz e dilacerante. A sequência é dada pela sucessão dos vários campos de morte, cada qual funcionando como capítulo ou separador do relato. Após a indicação do nome do campo, assinala-se num mapa o local. As primeiras imagens mostram os mais saudáveis, que acorriam em festa à chegada das tropas. Em Dachau, a câmara acompanha o avanço dos jipes entre os sobreviventes que se afastam para abrir caminho aos seus salvadores. Só depois aparecem os corpos. Espalhados pelo chão ao acaso, tantos e tão desfigurados que a sua presença já nem impressiona os que ali se encontravam. Ou empilhados ao acaso, num aglomerado disforme. Surpreendem pela sua extrema alvura, que contrasta com as tonalidades escuras do meio envolvente, dos uniformes dos soldados e, sobretudo, dos sobreviventes. Nas valas, de uma extensão imensa, os corpos tombam sobre terra deslizante, enquanto no fundo alguém os vai arrumando, para facilitar a chegada de mais e mais cadáveres. Aos milhares.
Noutro campo, corpos carbonizados, deitados no chão. Alguns têm as cabeças levantadas, como se aguardassem algo enquanto rastejavam queimados, nos derradeiros instantes. No filme, o sangue esvaiu-se, não se vê. O narrador fala de mulheres que parecem "estátuas de mármore". Em alguns locais, os corpos empilhados encontram-se hirtos, denotando uma total rigidez, como se fossem manequins; noutras paragens, são transportados e atirados às valas como bonecos desarticulados.  
Não há uma exploração do horrível pela simples razão de que seria desnecessária. Mas existe um propósito claro de evitar eufemismos ou elipses e, pelo contrário, de expor o mal na sua radical crueza. Nenhum detalhe é poupado. Vezes sem conta, a câmara perscruta o interior dos fornos crematórios, buscando restos mortais, ossos fumegantes que as chamas não devoraram. O objectivo, insiste-se, não é voyeurista ou sequer propagandístico; tratava-se, acima de tudo, de recolher provas – e essa demanda exigia um levantamento completo, mas especialmente focado naquilo que mais se prestava a ser posto em dúvida: sacos com cabelos, ossadas em crematórios, experiências com gémeos.
Na montagem do filme, Hitchcock aconselhou a equipa a escolher planos-sequência, sem cortes, para que dessa forma a apresentação das cenas ganhasse mais credibilidade. Com efeito, a alternância rápida de vários planos induziria a desconfiança do auditório e levá-lo-ia a pensar que tudo o que via não passava de um artifício encenado: fragmentos de pele humana, cabeças trepanadas de olhar vazio, seres que vagueavam amparados pelos seus semelhantes.

Exercícios de autodefesa
À distância de tantas décadas, o filme é ainda tão impressionante que nos impede de sobre ele formularmos qualquer juízo. Dificilmente alguém ousará dizer se é "bom" ou "mau". Temos também consciência de que German Concentrations Camps procurava algo mais do que servir a culpabilização colectiva dos alemães, objectivo demasiado patente no filme de Billy Wilder. Além do projecto de tradução em várias línguas e de exibição em diversos pontos do mundo, é a esta luz que se compreende que, a dado passo, a voz do narrador enumere sincopadamente todos os povos vitimados pelo nazismo.

Mulher assiste a enterro em Belsen, catalogada
nas filmagens como "reacção de rapariga
"IMPERIAL WAR MUSEUM (IWM FLM 1002)

Num depoimento de 1984, Bernstein afirmou que, entre o mais, o filme visava ser "uma lição para a Humanidade". De facto, por muito perturbadoras que sejam as imagens dos cadáveres, o filme é também um testemunho da reconstrução e, sobretudo, da recuperação dos sobreviventes, com as mulheres a tomarem banho e a escolherem vestidos, os doentes de tifo a serem tratados, uma criança a ingerir a sopa de uma enorme tijela, serenamente e até à última gota, sem sofreguidão alguma.
Reagimos às imagens com dispositivos defensivos, procurando refúgio em explicações do conteúdo ou enquadramentos contextuais. Fixamo-nos no objecto fílmico, contamos a história da sua redescoberta e outros pormenores acessórios para evitarmos o confronto com o objecto filmado, com a realidade que nos é trazida pela visão de um crânio aberto, de onde escorre uma massa encefálica que outrora alojou pensamentos e emoções.    
Apercebemo-nos de que o filme não atribui lugar central aos judeus. Estes são tratados como vítimas, a par de católicos e protestantes, num registo "ecuménico" que por certo desagradará aos que, nos meios judaicos, defendem a absoluta singularidade do Holocausto. Esta omissão de uma referência mais explícita aos judeus poderá dever-se, novamente, ao contexto em que o filme foi produzido.
Todas as análises deste género, porém, recuam perante as imagens dos cadáveres e dos sobreviventes. Procurar analisar o filme e discorrer sobre o seu "contexto" são exercícios de autodefesa, formas elusivas de lidar com uma realidade que é insusceptível de ser representada. Ou, talvez, que se afigura como absolutamente representativa, no sentido em que convoca e torna presente o ausente, aquele que se ausentou por ter sido morto numa acção de assassínio em massa.   
Se os que presenciaram e registaram os acontecimentos ficcionavam que estavam num universo paralelo e num mundo-outro, nos nossos dias somos obrigados a ver este filme remetendo os seus protagonistas para esse lugar de ausência, onde nos surgem não já como pessoas mas como imagens, fantasmagorias. Terríveis imagens, sem dúvida, mas, parafraseando o ensaísta Didi-Hüberman, imagens apesar de tudo. Imagens apesar do tempo e do propósito com que foram feitas, imagens apesar de sermos incapazes de saber como olhar para elas hoje. Só dessa forma, como imagens apesar de tudo, seremos capazes de as encarar sem mergulharmos na vertigem da loucura.

À distância de tantas décadas, o filme é
ainda tão impressionante que nos impede
de sobre ele formularmos qualquer juízo.
Dificilmente alguém ousará dizer se
é "bom" ou "mau"

Uma versão parcial deste filme já era conhecida em 1984, numa montagem com o título Memory of the Camps. Mas só agora, com a descoberta da "sexta bobina" e o seu tratamento digital, German Concentrations Camps Factual Survey alcançará o estatuto que merece. Depois de ter sido apresentado em Fevereiro passado no Festival de Cinema de Berlim, irá fazer uma ampla digressão mundial, com escala no DocLisboa. Após várias décadas de penumbra e esquecimento, este périplo corresponde às intenções originais dos promotores do filme, cumprindo-se assim o desígnio de Sidney Bernstein e da sua equipa.   

Ex-prisioneira aplaude os Aliados a 16 de Abril de 1945
IMPERIAL WAR MUSEUM (IWM FLM 1001)

Poder-se-ia dizer que, volvidas tantas décadas, o filme acusa as marcas do tempo e a erosão dos excessos da "indústria do Holocausto". Puro engano. A força expressiva de German Concentration Camps Factual Surveypermanece intocada, mesmo que já tenhamos estado em campos de concentração ou visto milhares de imagens dos crimes do nazismo. Comparadas com estas imagens – imagens apesar de tudo – muitos dos filmes sobre a Solução Final tornam-se grotescos, quase caricatos. Nunca os nossos olhos viram nada assim.
ANTÓNIO ARAÚJO 
Historiador
PÚBLICO 22-10-2014 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Trabalha no privado? Perdeu 11%. Se for no Estado, perdeu o dobro

 

O aumento dos preços, os cortes nos salários e o aumento de impostos levaram a que o poder de compra tenha diminuído. No setor privado verifica-se que o poder de compra se fixou em menos 11,6% do que em 2011. No entanto, a Função Pública sentiu uma redução ainda maior, informa o Diário de Notícias.
Os trabalhadores do setor privado viram entre 2011 e 2014 o seu rendimento a diminuir 5,7%. Se for considerado ainda o efeito da inflação, o poder de compra baixou 11,6% quando 
á para os trabalhadores da Função Pública, a redução foi maior. “Entre 2010 e 2014, como consequência do efeito conjugado do corte das remunerações nominais, do aumento enorme de impostos e dos descontos para a ADSE, o poder de compra reduziu-se em 22,1%”, explica o estudo realizado pelo economista Eugénio Rosa, segundo o Diário de Notícias.

***«»***
E os rendimentos do capital? Aumentaram ou diminuíram? Parece-me que foi o universo do capital a pagar a crise, a ver pelo que aconteceu a Fernando Ulrich, do BPI, e a Ricardo Espírito Santo, do BES. Ulrich já é um sem-abrigo, a vaguear por Lisboa e a contar as notas de 100 euros, que ainda conseguiu trazer do banco, e Ricardo Salgado, por carência de meios, vai mudar-se para a Brandoa, onde alugou uma vivenda (dizem que, apesar da sua penúria, é luxuosa, porque tem varanda para a frente) num Bairro Social da câmara. Ambos já foram vistos na bicha da sopa dos pobres, nos Anjos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O NAZISMO VOLTOU: A Ucrânia que a imprensa não mostra


Trazem o ódio nas línguas de fogo, com que acendem as tochas, e masturbam-se com a visão do sangue das suas vítimas, enquanto entoam cânticos pornográficas, que glorificam a morte. As pegadas da Besta que ensanguentou a Europa, há setenta anos, não foram apagadas, e são agora pisadas pelas botas cardadas dos carregadores do medo e do pesadelo, que, em triunfo, transportam nos ombros de ferro as novas suásticas.

Agradecimento


Agradeço ao Carlos Manuel Nunes Garcia  a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua

sábado, 17 de janeiro de 2015

Anotação do Tempo: Dissertação sobre as vírgulas…


Dissertação sobre as vírgulas…

À minha amiga Maria João Correia, 
que se diverte imenso, quando eu
invento uma vírgula…

Não ligues
são apenas moscas
entre as palavras
como se fossem pestanas
a embelezar o olhar
de quem as lê.
São artifícios burlescos
para ilustrar os discursos dos políticos
às segundas feiras
quando inventam as mentiras
para entreter os jornais durante a semana
são as pausas do esquecimento
quando já não há mais nada para dizer
a não ser o que foi dito
ou, se quiseres, são os berros do Cristiano Ronaldo
quando os neurónios migram para os pés
e ele dá pontapés na gramática.
A vírgula é uma síntese do nada
e o limite do zero absoluto,
a bissetriz dos ângulos rugosos da memória,
o ponto morto do equador,
que o Gama levou para a Índia
e que por lá ficou a apodrecer
no túmulo de um jesuíta.
Mas a vírgula é muito mais do que isto.
A vírgula é, na sua profunda essência e potência,
a caganita da mosca, que aterrou no poema…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2015