terça-feira, 22 de novembro de 2011

Um olhar dorido sobre o tempo presente - por Gertrudes da Silva*

Carta a um amigo
Penso que esta é, sem dúvida, a mais completa e exaustiva das relações que, versando o mesmo assunto, há muito tempo andam a circular por aí, na Net, a qual, além de outras coisas, nos trouxe a globalização, esse misterioso monstro que alguns acham muito mau e outros muito bom, não faltando aqueles que, eivados de um velho ecletismo, ainda procuram descobrir neste pandemónio uma globalização má e uma globalização boa.
Da globalização eu só sei que era inevitável e irrecusável dentro da natural evolução do sistema que acabou por transformar a sociedade naquilo que um dos apóstolos da famigerada 3ª Via, concretamente, Lionel Jospin, dizia de modo algum desejar, numa “sociedade de mercado”, dominada e manipulada pelos ditos “mercados”, essas criaturas sem rosto nem fala, bichos papões em qualquer das acepções da palavra.
Tudo isto é muito complicado. Não a nossa indignação, que é legítima, e necessária, até, como uma chama que devemos manter permanentemente acesa; mas a forma e a configuração que por vezes lhe estamos a dar.
Não acho é nada bem que nos arvoremos em arautos do discurso contra os políticos, todos os políticos, quando, ainda por cima, alguns de nós embarcámos em duas máximas – fraco paradigma – que se fizeram lugares comuns e pouco mais: que «a democracia ainda é, de todos, o menos mau dos sistemas políticos» e que «não há democracia sem partidos políticos» (no plural, claro). Felizmente que haverá outros conceitos e outros conteúdos deste conceito que não excluem, necessariamente, os partidos políticos.
Nós, os que nos reclamamos do 25 de Abril, por via da nossa Associação apresentámo-nos como “Referencial”, e não como guardiães do templo (da democracia).
A corrupção, já temos obrigação de saber, faz parte integrante do sistema a que nos confiámos e alguns de nós agarrámos com as duas mãos no momento decisivo em que a encruzilhada apontava para o “sistema democrático” ou para a continuação do caminho da revolução, que nos conduziria – tempos lindos – a uma sociedade socialista.
E veja-se o que aconteceu com o sonho do socialismo, primeiro para a gaveta e depois para o cesto dos papéis, até virmos por aí abaixo (ou acima, dirão alguns) desembocar neste neoliberalismo puro e duro, que aí está para durar – e é nele que parece que nos queremos salvar –, agora servido pelas mais avançadas tecnologias e por um bando de medíocres dirigentes políticos.
Sim – e aí todos estaremos de acordo –, porque a Revolução dos Cravos, mesmo revolução, tão prenhe que ela vinha de esperanças, sonhos e utopias, terminou na Alameda quando alguém, sufragado pelo voto popular de 25 de Abril de 1975 subiu ao palco e disse, alto e bom som, perante o delírio do “povo” ali reunido: «Alto e pára o baile! A Revolução acabou!». E, desgraçadamente, ou não, aquele povo era o mesmo que saiu para as ruas no 25 de Abril; o mesmo que vindo de todo o país, foi arrebanhado – como é que eu me lembro tão bem – no Terreiro do Paço para aclamar e aplaudir a nossa política e guerra coloniais na pessoa do Prof. Oliveira Salazar, quem no cá dera, já se vai ouvindo por aí…
A corrupção faz parte integrante do sistema em que vivemos e, a tal ponto que os seus mais fieis acólitos avisam que no dia em que a corrupção acabasse (estou a lembrar-me das palavras que aqui já há uns bons pares de anos o deputado Durão Barroso proferia na AR a propósito de uma proposta do PS para mexer no sigilo bancário), o sistema ruía como um baralho de cartas. E os sistemas, mais resistentes que as conjunturas e as estruturas – aprendi isto em qualquer lado – são muito difíceis de alterar e ainda mais de derrubar. Veja-se no nosso caso: passou pelo “25 de Abril” e aí vai ele.
Podemos e devemos indignar-nos e estrebuchar, até. Mas, paulatina e subliminarmente, lá vamos comendo a comidinha que nos vão dando a comer à mão, como é o caso daquela conversinha manhosa de o “velho e ultrapassado” Marx ter elevado os operários à categoria de proletariado e que estes senhores de agora foram progressivamente transformando em simples trabalhadores, depois em empregados, funcionários e, finalmente, em “colaboradores”, pensando assim atingir o último patamar da extinção da luta de classes, que raio de coisa o Velho foi inventar. E se fôssemos todos empresários e patrões?... Se calhar, a tendência é para voltar aos senhores e escravos.
De propósito, tudo começa a ficar baralhado. É como aquela coisa de, a torto e a direito, chamar militares aos elementos da GNR, de enviar os soldados da paz para o teatro de operações e de mandar os militares em missões de paz e humanitárias. Ou, como diz o filósofo, esta coisa de andarmos a comer morangos em Janeiro.
Podemos (e devemos) indignar-nos. Mas não esperemos para tão breve um outro 25 de Abril. Isso está fora de questão. Nós já não temos as armas na mão; a geração de militares que veio atrás de nós já não é motivada, salvo muito raras excepções, por valores tão simples e ao mesmo tempo tão grandiosos como o apego ao conceito de Pátria e de Missão. Nem agora temos, apesar de tudo, aí à mão um regime fascista para derrubar nem uma penosa Guerra Colonial para lhe pormos fim.
Isto não é simples, não. É mesmo muito difícil formular um juízo que mereça o título de opinião. E nós, enquanto Instituição, também temos os nossos telhados de vidro, razão pela qual devemos evitar todos os discursos que se apresentem como paradigmas de moralização. Não é por aí.
Gertrudes da Silva
Escritor, coronel reformado e capitão de Abril
07Nov2011
* Título da responsabilidade do editor do Alpendre da Lua