quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Poema: há fotografias como punhais - por Maria Azenha

Voz da autora

há fotografias como punhais

há fotografias como punhais. e poemas também.

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila

neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto

e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá para o ver

mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exatamente por esta razão que os meus poemas

já foram todos escritos.

são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo

estando entre a terra e as estrelas.

sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel

Maria Azenha

Nota: A amável e honrosa colaboração no Alpendre da Lua, da "poeta" Maria Azenha, ocorrerá, periodicamente, às quintas-feiras.
http://alpendredalua.blogspot.pt/2013/01/citacao-de-um-poema-de-maria-azenha-e-o.html