quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CARTAS DA REVOLUÇÃO: Um sonho não concretizado…


Um sonho não concretizado…

Querida amiga:
Acordei estremunhado, ao acabar de sair de um sonho (ou de um pesadelo, não sei bem). Um sonho de que me lembrei de partilhar contigo, que a esta hora já estás acordada. E foi um sonho que me deixou uma sensação amarga, muito estranha e difusa. Não foi de alegria nem de tristeza. Apenas sei que sinto algum desconforto, agora que estou a pensar nele, no meio do silêncio aterrador da noite. Também não sei se tive medo. Desassossego, sim. Fiquei, pelo menos, inquieto.
A voz off, que me sopra todos os sonhos, adquire sempre a identidade de alguém que me narra o próprio sonho. Aqui, seria possivelmente um jornalista televisivo a debitar uma notícia, dando-lhe algum dramatismo. E o caso não era para menos! A notícia referia que o país estava a começar a entrar num turbilhão político pré-revolucionário e anárquico. O Tribunal Constitucional tinha acabado de anunciar a inconstitucionalidade do Orçamento de Estado de 2013. Foi como se uma bomba tivesse caído em S. Bento. O ministro das Finanças demite-se e foge do país. Segue-se a demissão do ministro da Economia e dos Negócios Estrangeiros. Cavaco Silva chama Passos Coelho ao Palácio de Belém e, numa nota emanada da Presidência da República, apela à calma dos portugueses. Começam a chegar informações de que, no interior do país, as populações começaram a sair à rua, em protesto e a exigir eleições legislativas. Cavaco Silva pede ao Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas que ponha as tropas de prevenção. Este recusa cumprir a ordem, respondendo que a Segurança Pública não compete às Forças Armadas, mas sim às forças policiais. Cavaco Silva pensa demiti-lo, mas começam a chegar vozes dos quartéis a avisar que as Forças Armadas nunca irão atacar o povo. Passos Coelho também está a pensar em demitir-se.
E a voz off comenta: Cavaco Silva começa a sentir o peso da responsabilidade desta crise, por não ter atuado atempadamente, pedindo a fiscalização preventiva do Orçamento de Estado. Foi apanhado pela armadilha que ele próprio armou. Abstendo-se em tomar uma decisão frontal e clara, em relação à conformidade do Orçamento de Estado com a Constituição da República, julgou que iria passar incólume por esta crise, quando, na realidade, ele deverá vir a ser a sua principal vítima, entre os políticos. Talvez escolha a demissão, já que perdeu a legitimidade moral para desempenhar o cargo. Ele próprio, possivelmente, também já terá concluído não ter capacidade para controlar uma situação, a ameaçar entrar em roda livre a qualquer momento.
E acordei, levantando-me da cama de rompante, como se estivesse a fugir de alguma coisa.
E, agora, estou aqui a pensar seriamente neste sonho, a partilhá-lo contigo, e não sei se deva acreditar nele.
Uma coisa, no entanto, me chamou a atenção. No sonho, não aparece ninguém a querer liderar seja o que for, nem o descontentamento e a revolta, nem a reação contrária, a da repressão. Parece-me que o país se demitiu. E isto é preocupante! Resta a revolta popular, cuja dimensão o sonho não conseguiu avaliar.
Só me falta saber se este sonho foi sonhado por outros portugueses.
E vou regressar à cama, que estou com sono. Não sei, no entanto, se conseguirei adormecer. Ou sonhar novamente! Talvez contigo…
***«»***
RESPOSTA:

Querido amigo:
Não sei se o teu sonho/pesadelo foi sonho ou se foi antes uma premonição...
Acho que eu, com um sonho desses, ficaria assustada uma data de noites sem dormir, só para não voltar a sonhar.