terça-feira, 31 de agosto de 2010

Só na boca o sal - Poema de Sun Iou Miou

Urbano Lugrís.
Mar dos argazos (1946)

Só na boca o sal

Nesta prisão de ar contido, de mágoas,
âncoras e mastros sem vela, argaços
fossem os meus cabelos, nácar as unhas
de conchas e os desejos meus,
dos ossos de náufragos mortos no sul
os meus ossos, de escamas e espinhas
vivas também os meus dentes vivos.

Olha a tela que me prende à proa,
mansa mortalha nas cores da sereia...!
Não quero ser carranca, nem grades!
Quero é nadar embalada entre anêmonas,
navegar os ventos ao longe dos litorais
(jamais armas ao peito, nem aos olhos vazados),
uma ilha às vezes e sempre horizontes.

Quero é tempestades, o pano preto fendido
no lampejar silente na nudez do oceano,
e contento e azul ou verde, até cinéreo.
Não o cabeço de sombras que me amarra,
nunca este corpo de pau a abafar-me as ânsias!
Só nos lábios um búzio, nem leme nem sextante;

só na boca o sal
                                  e no sal todos os mares.
Sun Iou Miou

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