sexta-feira, 24 de julho de 2009
Gigliola Cinquetti- "Non Ho L' età" (1964)
Cortesia do meu amigo e "irmão" Jorge Ribeiro
Se fosse hoje, Gigliola Cinquetti não poderia dizer "ainda não tenho idade"!...
A canção Non Ho L' età preencheu o imaginário de todos os jovens do meu tempo, por isso a reconheço agora, com a mesma emoção de quando a ouvi pela primeira vez.
Os tremores de terra começam assim...
As leis da Física cumprem-se sempre. O que é preciso é insistir.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
La Balanguera- Maria del Mar Bonet
Um Poema ao Acaso: Já as primeiras cousas são chegadas

Tanta foice isto é coice desconfio…
Tanto de Marx martelar já cansa.
Adrede é labirinto não me fio
no fio que o comício ao coro lança.
De tanto ruminar tanto Rossio
numa canga aguilhando tanta esperança.
Tanto poder ao povo com feitio
de espezinhá-lo depois da governança.
Tanta denúncia. É a pedagogia
da Revolução que o excremento avia
e não chegámos ao último terceto.
Recém-nascida apenas deste em cabra
Ó Liberdade! Não sei como isto acaba,
Não sei como acabar este soneto.
Natália Correia(1923-1993
Desemprego continua a aumentar!...

Kunstbar: uma forma simples de mostrar a pintura...
Relatório do Tribunal de Contas arrasa contrato do Terminal de Alcântara

Maria Folia: Dança transmontana com caretos...
Mikis Theodorakis - Strose to stroma sou & Zorba (live,2005)
***
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Maria del Mar Bonet - El meu poeta (1987)
Um novo hospital pediátrico, em Lisboa, é a melhor opção
Hospital Dona EstefâniaFotografias célebres do século XX
Tribunal de Contas chumba alargamento da concessão do Terminal de Alcântara

Imprensa escrita: a sua morte lenta...

Um Poema ao Acaso: Acusam-me de desalento - Carlos de Oliveira

Acusam-me de mágoa e desalento
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que não me cale:
Até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
Se quem confia a sua dor perscruta
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira
(1921-1981)
M. M. Bonet & Quilapayún - Què volen aquesta gent
terça-feira, 21 de julho de 2009
BE: Ignorância ou má-fé?

Pedro Frias, um leitor interessado e atento, enviou-me este texto, publicado no blogue Cravo de Abril, e assinado por Fernando Samuel, onde se admite que um dirigente do Bloco de Esquerda teria tido a intenção, através de um falso pressuposto, de atingir grosseiramente o Partido Comunista, num artigo publicado no JN.
Já aqui verberámos a nossa indignação sobre o recurso à mentira para obter dividendos político-partidários. Nesta caso, mantém-se a dúvida se se tratou de ignorância ou de má fé, tal como também subscreve Fernando Samuel. Se foi má-fé, a atitude é imperdoável, a todos os títulos. Se foi simples ignorância, qualquer sentimento de benevolência não pode ser manifestado, já que um destacado dirigente partidário tem o dever de se certificar da veracidade e da autenticidade de todas as informações que, através da comunicação social, faz chegar aos cidadãos.
"O Pormenor
Chama-se Pedro Soares, é membro da Comissão Política e Coordenador Nacional Autárquico do Bloco de Esquerda. Para além disso, «escreve no JN, semanalmente, à quinta-feira».Na última quinta-feira, ocupou o seu lugar cativo no JN com um texto intitulado «A Lei de Tróia», no qual a dada altura escreve:«O que se está a passar em Tróia, no Concelho de Grândola (CDU), é uma operação imobiliária de grande escala que coloca em causa, de facto, o interesse nacional».Registe-se o «pormenor» que são aquelas simples três letras entre parêntesis e os objectivos de quem as escreveu...Isto porque, como sabe qualquer cidadão medianamente informado, a força autárquica maioritária no Concelho de Grândola é, não a CDU, mas o PS - para mal dos munícipes grandolenses, diga-se.E assim sendo, de duas uma: ou o Coordenador Nacional Autárquico do BE ignora o que qualquer cidadão medianamente informado sabe; ou, sabendo a verdade, optou pela mentira, na linha da tradicional prática eleitoralista do BE, caracterizada por um desavergonhado vale-tudo.Num caso ou noutro, o que não oferece dúvidas é que Pedro Soares está onde deve estar:no BE, como membro da Comissão Política e no JN, como escriba semanal..."
Marinho Pinto: Diz que perdeu as ilusões, mas não perdeu os ideais...
Aconselho vivamente a leitura da entrevista de Marinho Pinto ao jornal Expresso, onde o actual Bastonário da Ordem de Advogados fala de toda a sua vida. Dali sai, imponente, um homem íntegro, que sempre lutou por causas justas e que nunca se acomodou a um qualquer poder instalado. Pertenceu a uma geração de jovens universitários, que criaram a utopia redentora. Muitos desistiram, mas Marinho Pinto, embora corrigido pela sabedoria que a vida dando, continua igual a si próprio, continua a viver dessa utopia. Diz ele que perdeu as ilusões, mas não perdeu os ideais.Justiça: a caminho do caos!...
Marinho Pinto, figura prestigiada e insuspeita, não poderia ter feito uma análise mais demolidora sobre o funcionamento da Justiça em Portugal. No extenso rol das suas denúncias, pronunciadas hoje numa conferência de imprensa, o bastonário da Ordem dos Advogados pôs em causa todas as reformas implementadas por este governo, apenas resguardando, da sua frontal crítica, o sistema informático da justiça, o Citius, que, não sendo perfeito, segundo a sua perspectiva, apresenta muitas vantagens na aceleração dos processos judiciais. O resto foi arrasado: as férias judiciais, o novo mapa judiciário, o escandaloso aumento das custas judiciais, uma medida perversamente economicista, que dificulta o acesso aos tribunais, diminuindo assim, artificialmente, o nível de litigância, e a constituição dos Julgados de Paz e dos Solicitadores de Execução, um remendo aplicado pelo governo para aliviar o congestionamento dos tribunais, mas com graves prejuízos na aplicação da justiça, já que, nestes institutos, a magistratura judicial foi excluída, sendo substituída por funcionários, cuja maioria não tem formação jurídica superior.Vou já atirar-me ao mar!...
Gramática: "Porque" ou "por que" - uma confusão muito comum

Se tem a consciência que sabe distinguir, na linguagem escrita, a diferente utilização do porque e do por que, passe à frente, e aguarde pelo próximo post, para se divertir. Caso contrário, fique por aqui. Em qualquer dos casos, responda aos exercícios que se propõem a seguir:
Coloque no tracejado das frases seguintes a expressão correcta, porque ou por que.
1- ________ faltaste à aula? Faltei _______ estive doente.
2- ________ é que não vieste à reunião? Não vim, _______ não tinha nada para dizer.
3- A Rita deve estar triste, _______ esteve a chorar.
4- _______ rua vieste hoje?
5- ________ preço compraste o livro?
6- ________ motivo faltaste à aula?
7- Todas as dificuldades _________ passamos ajudam-nos a crescer.
8- Estive doente. Esse o motivo ________ faltei à aula.
Soluções:
1- Porque (a) faltaste à aula? Faltei, porque (b) estive doente.
a) Utiliza-se o advérbio (antes do verbo) porque numa frase interrogativa.
b) Aqui, o porque é uma conjunção causal, que ocorre numa frase declarativa, introduzindo uma oração subordinada (ou coordenada), e que constitui sempre uma resposta à pergunta introduzida pelo advérbio interrogativo porque (a).
2- Porque (c) é que não vieste à reunião? Não vim, porque (d) não tinha nada para dizer.
c) Advérbio interrogativo porque (antes de um verbo).
d) Conjunção causal porque.
3- A Joana deve estar triste, porque (e) está a chorar.
e) Porque, conjunção explicativa.
4- Por que (f) rua vieste hoje?
5- Por que (f) preço compraste o livro?
6- Por que (f) motivo faltaste à aula?
f) Preposição por, mais determinante interrogativo que. Introduz uma frase interrogativa e ocorre sempre antes de um nome. É possível ser substituída pela expressão por qual.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
PSD: Demagogia à solta
Astronomia: sabe o que é a poluição luminosa, a reserva de estrelas e o turismo astronómico?

Já ouviu falar de poluição luminosa? E de turismo astronómico? E de reserva de estrelas? Estas questões encontram-se na ordem do dia das preocupações dos astrónomos, que, através das iniciativas integradas no Ano Internacional da Astronomia, instituído para celebrar os 400 anos do início das observações de Galileu, procuram sensibilizar a opinião pública para a importância de observar o céu, durante a noite, e reduzir o excesso da iluminação pública das cidades, para que os seus habitantes não sejam privados diariamente dessa possibilidade.
Se pensarmos que dois terços da população mundial vive em zonas do litoral, intensamente povoadas, anarquicamente urbanizadas e, logo, muito iluminadas pela luz artificial, chegamos à conclusão que este deslumbrante visão primitiva, que acompanhou a Humanidade, e que inspirou os primeiros astrónomos da Suméria e os primeiros filósofos da Grécia Clássica, não é partilhada pela maioria das pessoas, que já nem sequer será capaz de identificar o planeta Vénus ou de encontrar a Ursa Maior e a Ursa Menor. É esta contestação que levou um astrónomo português, em declarações ao jornal Público, a afirmar que “as crianças perderam os céus”, frase esta que, lida fora deste contexto, colocaria a igreja católica em alarmente sobressalto.
O que se pretendeu no sábado passado, com a celebração da “Noite das Estrelas”, foi mobilizar as pessoas, principalmente os jovens, para a descoberta da maravilha, que a observação nocturna do céu proporciona, convidando-as indirectamente a regressar ao assombro das primeiras interrogações sobre a origem e a constituição do universo e ao confronto com a pequenez da espécie humana, perante o cosmos infinito. Olhar o céu, numa noite escura, e num descampado, onde não chegue a luz artificial da iluminação pública, transporta-nos aos silêncios dos templos e a uma reflexão profunda, ao mesmo tempo que se experimenta aquela sensação de esmagamento.
Nas iniciativas de sábado, os astrónomos, que levaram os seus instrumentos para locais estratégicos, para que os leigos pudessem olhar o céu nocturno de uma outra maneira, pretendem chamar a atenção das autoridades e da opinião pública para a necessidade de reduzir nas cidades a iluminação pública, ao mesmo tempo que, a um outro nível, pretendem que a UNESCO classifique o Céu como Património da Humanidade.
Há países, como a Nova Zelândia, a Namíbia e a África do Sul, que já se encontram a planear a criação das chamadas “reservas de estrelas”, locais privilegiados, onde se obtêm observações belíssimas do céu, e que podem ser exploradas no futuro para o turismo astronómico.
domingo, 19 de julho de 2009
Um Poema ao Acaso: O Viandante - Carlos de Oliveira
Retrato pintado por Mário DionísioTrago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
Soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
Carlos Oliveira
(1921-1981)
Terminal de Alcântara: O Estado assume os riscos da Liscont (Mota-Engil)

Terminal de Alcântara: O pântano de um negócio pouco claro!...
A promiscuidade entre o Estado e os principais grupos económicos do país assentou arraiais na prática quotidiana, ameaçando a credibilidade do regime democrático. O abjecto tráfego de influências e a correspondente troca de favores, lesando o interesse público, já ultrapassaram o limite temporal dos seus efeitos imediatos. Recentemente, os governos já negoceiam com esses grupos económicos contratos desastrosos, contemplando benefícios diferidos para as décadas seguintes. Foi o que se passou com o polémico caso do alargamento, por mais 27 anos, e sem concurso público, da concessão da exploração do terminal dos contentores de Alcântara, à empresa Liscont, do poderoso grupo da Mota-Engil, onde foram violadas todas as regras de concorrência.
O princípio da cristalina transparência, quando estão em jogo os dinheiros públicos, também foi grosseiramente violado, já que, numa manobra de contornos pouco claros, o documento onde se contemplam as contrapartidas do Estado para cobrir prejuízos futuros da exploração do terminal, foi resguardado dos olhos da opinião pública, por ser considerado pelo governo “segredo comercial”. Em mais um registo da falta de consideração e de respeito por um órgão de soberania, o governo também sonegou este importante documento, o Anexo 13, aos deputados da Assembleia da República, que, na última semana, discutiram duas petições sobre o terminal de Alcântara. Além da falta deste documento, o processo enviado aos deputados, pelo Ministério das Obras Públicas, continha páginas em branco, limitando-se apenas a exibir o que sobre esta matéria já está publicado na página da internet da Administração do Porto de Lisboa (APL), uma das interessadas neste nebuloso negócio.
É precisamente no Anexo 13, o documento relativo ao equilíbrio financeiro da concessão, que constam as contrapartidas do Estado à Liscont, consideradas lesivas do interesse público e, eventualmente, configurando práticas de contorno criminal. O governo, nesse anexo ao contrato assinado em Outubro de 2008, teria assumido pagar indemnizações à Lisconti, caso não venham a ser cumpridos, em função do grau de imprevisibilidade e do clima de incerteza da actual crise mundial, os níveis de tráfego e de movimentação de contentores, até ao termo da negociada prorrogação da concessão, em 2042. Esta clausula teria sido imposta e acrescentada quando se verificou, com a eclosão da crise, que os cálculos efectuados, durante as negociações iniciadas em Abril de 2008 para a prorrogação da concessão, e que previam o esgotamento da actual capacidade do terminal antes do termo da concessão ainda em vigor, em 2015, se encontravam errados. O que vai acontecer, com a contracção do comércio mundial, é que, nessa data, a capacidade do terminal ficará pelos 50 por cento.
Para acautelar a eventual diminuição da facturação nas próximas décadas, com a consequente diminuição de lucros, a Lisconti teria exigido um quadro de indemnizações compensatório, para assim poder investir, com total segurança, o valor de 27 milhões de euros nas obras de ampliação do terminal e na remodelação das suas acessibilidades rodoviárias e ferroviárias.
No entanto, levanta-se um outro problema, caso o Tribunal de Contas venha a chumbar o contrato, por a respectiva concessão não ter sido sujeita a um concurso público internacional, e as investigações do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa vierem a encontrar actos ilícitos de índole criminal. Neste quadro, o Ministério Público poderá impugnar o contrato junto dos tribunais administrativos, o que conduzirá inevitavelmente ao pagamento de indemnizações à Lisconti, uma vez que o mesmo já se encontra em vigor.
Além do vergonhoso conúbio que esta história, de refinados meandros, evidencia, com graves prejuízos para o erário público, regista-se mais uma vez o atavismo dos nossos empresários, que só conseguem progredir quando transferem o risco dos seus negócios para o Estado, explicando-se assim a razão da fragilidade da nossa economia.
E, agora, também se compreende a razão que levou a Mota-Engil a contratar Jorge Coelho, antigo ministro socialista das Obras Públicas, para presidente executivo daquele grupo, tal como já se compreendeu, num passado recente, a propósito da concessão de todas as futuras travessias do Tejo, entre Vila Franca e Lisboa, à Lusoponte, a razão que conduziu Ferreira do Amaral ao exercício de idênticas funções, nesta empresa.
sábado, 18 de julho de 2009
Um Poema ao Acaso: O velho abutre - Sophia de Mello Breyner Andresen
Portugal tem trabalhadores de primeira e trabalhadores de segunda!..
Uma das razões, que explica a atrofia do país em relação aos países europeus, situa-se ao nível da macrocefalia do Estado em relação à sociedade e ao peso da excessiva factura com o pagamento do funcionalismo público. Para agravar mais a situação, esse funcionalismo público não responde eficazmente às necessidades da sociedade. Continua a prevalecer em muitos sectores da função pública uma cultura rasteira de parasitismo, que a rotina e a burocracia fomentam.Em Portugal, em 2002, a despesa com os vencimentos dos funcionários públicos representava 14 por cento do PIB, enquanto nos países europeus a média desses valores situava-se nos 11 por cento, percentagem esta que também se verificava em Espanha. A riqueza produzida pela economia portuguesa nos primeiros 50 dias do ano destinava-se exclusivamente para pagar os funcionários públicos.
É consensual, que esta irracionalidade se reflecte negativamente na economia. Na generalidade, temos de admitir a existência de uma função pública que ganha acima das possibilidades económicas do país e que apresenta um trabalho abaixo da qualidade desejada. A persistência da uniformidade salarial por categorias não premeia os melhores funcionários, não motiva os que, eventualmente, desejariam melhorar, nem penaliza os relapsos. A injustiça é flagrante e os prejuízos na produtividade são desastrosos. Ainda não houve a força suficiente para corrigir esta grave entorse, promovendo as necessárias e urgentes reformas, onde se inclui, entre outras, o processo de avaliação, o trabalho por objectivos e a melhoria da performance.
O governo de José Sócrates propôs-se fazer a verdadeira revolução da função pública, mas falhou redondamente nos seus objectivos, ao privilegiar a visão economicista, pressionado pela obsessão da redução do défice orçamental, em detrimento da funcionalidade racional dos sistemas a implementar, o que veio dar pretextos aos que, de dentro e de fora, apostam no imobilismo paralisante e no comodismo das mordomias.
Para dar um maior realce a esta disfunção do Estado, o Banco de Portugal divulgou os dados comparativos entre as remunerações do sector público e do sector privado. As assimetrias são aterradoras e vergonhosas, e assemelham-se às existentes nos países ainda governados por sobas. Em 1996, os funcionários públicos ganhavam, em média, mais 50 por cento do que os trabalhadores equiparados do sector privado. Em 2005, o diferencial passou para 75 por cento. Senão tivesse havido, nos anos posteriores, pela acção deste governo, um drástico congelamento dos aumentos salariais e a suspensão das anacrónicas progressões automáticas das carreiras, arriscávamos-nos a ter os funcionários públicos a ganhar, em média, o dobro dos salários do trabalhadores do sector privado, agravando ainda mais a irracionalidade da situação, pois são estes últimos os que contribuem com mais valor para a formação do PIB.
Esta irracionalidade na distribuição do rendimento está a criar dois tipos de trabalhadores: os trabalhadores de primeira, que ganham mais e trabalham menos horas, que não são vítimas de despedimentos, que não são perseguidos por fazerem greves, que auferiam, até 2005, de um processo muito generoso de reformas, e os trabalhadores de segunda, os que ganham menos, os que trabalham mais horas, os que têm salários em atraso, que nenhum Tribunal de Trabalho consegue repor, os que não podem fazer greves com medo de represálias das entidades patronais. Esta é mais uma assimetria a juntar a todas as outras que paralisam o desenvolvimento do país.
Se permitem a ironia, eu diria que cada funcionário público tem um Vítor Constâncio na barriga. Na cabeça não sei o que têm. Também poderíamos recorrer a uma outra sugestiva metáfora: quem entra para o Estado tem um seguro para toda a vida e quem fica no sector privado arrisca-se a trabalhar acrobaticamente no arame, sem a protecção da rede.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
As carreiras médicas não podem servir de arma de arremesso político...


COMUNICADO CONJUNTO
DIPLOMAS SOBRE CARREIRAS MÉDICAS EM FASE DE PROMULGAÇÃO: BLOQUEIO DO PRESIDENTE DA REPUBLICA?
As duas organizações sindicais médicas, SIM e FNAM, concluíram a negociação dos princípios gerais da revisão das carreiras médicas com um acordo assinado com o Governo a 3/6/2009 e cujo conteúdo foi aprovado em reunião do Conselho de Ministros efectuada em 5/6/2009.
Os dois diplomas foram enviados para promulgação pelo Presidente da República, tendo-se verificado, com estranheza, que o prazo legal foi decorrendo sem se verificar uma célere promulgação.
Entretanto, fomos confrontados com insistentes rumores de que, recentemente, o Presidente da República terá solicitado formalmente explicações ao Governo sobre as implicações financeiras destes dois diplomas a nível do Orçamento de Estado.
Se estes rumores têm fundamento, a nossa estupefacção é total, dado que os dois diplomas em causa definem os princípios gerais da revisão das carreiras médicas a regulamentar em sede de contratação colectiva e nem sequer abordam qualquer matéria salarial!
Por outro lado, esses dois diplomas limitam-se a executar uma lei-quadro aprovada pela Assembleia da República (Lei nº 12-A/2008) e promulgada pelo Presidente da República.
As duas organizações sindicais médicas congratulam-se aliás com o facto evidente de que não terão sido suscitadas pelo Presidente da República quaisquer questões de inconstitucionalidade, que são, afinal, as questões que este órgão de soberania pode suscitar em torno de diplomas sujeitos à sua promulgação.
Os dois diplomas em causa foram negociados com o Governo pelas duas organizações sindicais médicas existentes e foram objecto de um acordo assinado, tendo sido cumpridos todos os requisitos legais e constitucionais relativos à negociação sindical. Nada é susceptível de explicar esta grave situação criada, e que configura aquilo a que alguém em tempos designou de força de bloqueio.
As duas organizações sindicais médicas consideram muito preocupante que os seus direitos legais e constitucionais de negociação estejam a ser colocados em causa por razões e influências que desconhecem, mas que exigem sejam integralmente esclarecidas.
As duas organizações sindicais médicas não aceitam, em circunstância alguma, que os resultados da sua acção negocial possam ser utilizados em quaisquer movimentações de disputa eleitoral e política por dignitários de cargos institucionais.
Lisboa, 17 de Julho de 2009
Comissão Executiva da FNAM Secretariado Nacional do SIM
Jesus: Um apelido que pode revelar-se fatal!...
Comentário de Pedro Frias, a acompanhar o envio desta fotografia, que agradeço:
"Pelo que ouvi dizer, já existe um novo movimento na Igreja contra a contratação de Jesus pelo Benfica, pois, nem na caminhada para o calvário, Jesus Cristo sofreu tanto".
Uma crise mal explicada (2)

2- Os políticos ao serviço do capital financeiro
Durante o ano de 2008 ocorreu a grande degradação da economia mundial, com o comércio internacional a cair a pique, anunciando o fim de um longo ciclo económico, baseado no petróleo, e o começo de um outro ciclo, baseado nas tecnologias dos transportes verdes e nas energias limpas. Entre o trimestre de Dezembro de 2008 a Fevereiro de 2009 e o trimestre homólogo da ano anterior, de Dezembro de 2007 a Fevereiro de 2008, o comércio internacional caiu 44%. Nesse período assistiu-se, a nível mundial, à destruição do tecido económico, cuja imediata consequência foi o disparo do desemprego, que vai continuar a aumentar.
Esta crise económica não podia deixar de ter consequências no sistema financeiro, tal como ele foi sendo construído ao longo de duas décadas, apostando na economia virtual de base especulativa, o que lhe aumentou a vulnerabilidade e lhe expôs as fragilidades. A falência do banco de investimentos norte-americano, Lehman Brothers, foi a bomba que deu o alarme e iniciou a derrocada. Os bancos americanos perceberam que os incumprimentos crescentes dos crédito ao consumo e do crédito imobiliário tinham um fundamento estrutural e não conjuntural. A contaminação sistémica foi rápida e desastrosa.
Entretanto os governos ocidentais, apanhados de surpresa, por mau cálculo, e, também, por não terem valorizado os sinais de fraqueza que as economias estavam a dar, ficaram paralisados e em pânico. Em Dezembro de 2009, os dirigentes europeus, por exemplo, eclipsaram-se, deixando de se pavonear à frente das câmaras de televisão, como faziam anteriormente. E o medo justificava-se, pois depressa perceberam que o desemprego que se avizinhava era estrutural e que era impossível fazer uma reconversão a curto e a médio prazo, como aconteceria, se o fenómeno fosse conjuntural. O perigo da agitação social incontrolável levantou espectros e fantasmas.
Não reconhecer o primado da crise económica e centrar o discurso no desastre financeiro, apontando o dedo aos bancos, aos especuladores, aos supervisores e às agências de rating, foi o subterfúgio, embora verdadeiro, para alijarem as responsabilidades imediatas e ocultarem o falhanço da economia neoliberal, que eles aplicaram fervorosamente.
E para tentarem salvar-se do naufrágio, a si e aos detentores do capital financeiro, começaram a fazer constar que, resolvida a crise financeira, a recuperação económica, que ainda se agravou mais com a crise financeira, iniciaria o seu caminho, regressando tudo à normalidade. Foi o período, e que ainda continua, de os políticos e as instituições internacionais, FMI, Banco Mundial e Reserva Federal americana, alternadamente dramatizar e desdramatizar a crise, ora anunciando que ela continuava a fazer mossas, ora dizendo que já se bateu no fundo e já se via uma luz no horizonte, numa contradição de termos que levou à suspeição de que estes discursos tinham apenas a finalidade objectiva de acalmar a ansiedade da opinião pública, estupefacta e incrédula, pois o sistema tinha-lhe garantido, anos a fio, a felicidade suprema do céu e, agora, o que se via, era a proximidade das chamas do inferno.
Os governos, desprezando um apoio sustentado aos desempregados, optaram por enterrar dinheiro público nos bancos em dificuldades, para que eles se libertassem dos produtos tóxicos, resultantes do crédito mal parado. Nos Estados Unidos, essa hemorragia dos dinheiros públicos foi verdadeiramente escandalosa. Mas, mais escandaloso ainda, é verificar que esta política se destina a tentar restaurar o mesmo sistema, um sistema com os mesmos vícios e com as mesmas manobras, continuando a manter-se os intocáveis paraísos fiscais, e permitindo que a economia virtual de base especulativa regresse em força para continuar a dar colossais lucros ao capital financeiro. As débeis decisões anunciadas para reforçar a supervisão são meras medidas de cosmética, que rapidamente serão esquecidas.
No entanto, subsiste o problema político, que o desemprego crescente vai provocar. O descontentamento popular poderá desembocar numa agitação social incontrolável, que obrigue à necessária mudança das regras do jogo.
Tudo ainda se encontra no princípio, embora nos andem já a dizer que o fim está para breve.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Já não se pode ir ao campo!...
O burro nem deu tempo ao homem para limpar o traseiro, tão assanhado que estava!...
Banco de Portugal: O saque legalizado!...
O sultão da Rua do Ouro2) O "Federal Reserve" está para os americanos como o Banco de Portugal está para nós. E por que estou eu com toda esta conversa sobre o Sr. Greenspan? Porque quando ele deixou o lugar, em Janeiro de 2006, auferia anualmente, pelo desempenho daquele alto cargo, a módica quantia de 186.600 dólares norte-americanos por ano - qualquer coisa como 155.000 euros. O valor dos honorários dos outros membros do Conselho de Administração ("Vice-Chairman" incluído) é de cerca de 150.000 euros.
Ah, e por favor não reencaminhes isto para o Greenspan - ainda dá uma dor fininha ao pobre coitado".
Um Poema ao Acaso: Camões e a tença - Sophia de Mello Breyner Andresen

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

















