domingo, 18 de agosto de 2013

Kenneth Rogoff: "Grécia e Portugal nunca deviam ter entrado no euro"


O economista norte-americano Kenneth Rogoff afirmou hoje que "Portugal e a Grécia nunca deviam ter sido admitidos na zona euro", considerando inevitável uma reestruturação da dívida grega, e também da portuguesa, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine.
"Acho que a Grécia e Portugal nunca deviam ter sido admitidos na zona euro, isso foi um hybris (exagero), tal como foi um exagero admitir a Eslováquia e a Letónia", disse o ex-chefe do gabinete de estudos do FMI.
Rogoff afirmou ainda que os políticos europeus não querem ouvir falar de uma eventual insolvência da Grécia "porque não têm um plano para estancar o incumprimento, mas a posição dos governo europeus não é credível, porque a Grécia não poderá cumprir os seus compromissos".
E se a Grécia cair, na opinião do professor de economia na Universidade de Harvard, "aumentará o receio de não se poder aguentar Portugal e a Irlanda, e as preocupações estender-se-ão à Espanha e à Itália", advertiu Rogoff.
"É preciso um plano para conter o risco de contágio, e de momento não há nenhum plano, se a Grécia amanhã falhar, a primeira coisa que vão fazer é comprar títulos da dívida pública de Portugal, mas isso é absurdo, porque a dívida de Portugal também tem de ser reestruturada", advertiu o economista norte-americano, na entrevista ao matutino alemão.
Outro "guru" das finanças internacionais, George Soros, defendeu, em artigo publicado hoje no Financial Times Deutschland, que para resolver a crise das dívidas soberanas "é preciso considerar a hipótese" de a Grécia, Portugal e a Irlanda já não poderem pagar as suas dívidas e terem de deixar o euro.
dinheirovivo  (23-09-2011)

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Kenneth Rogoff é o economista que, juntamente com Carmen Reinhart, publicou o estudo (onde, posteriormente, um aluno de Economia foi detetar um erro no programa de Excel utilizado pelos autores), que serviu de fundamento doutrinário à conceção das políticas de austeridade, a aplicar nos países com dívidas públicas elevadas.
Kennet Rogoff é um neoliberal e um homem politicamente conservador. Isso, contudo, não o impediu de, em 2011, ter considerado um erro a adesão de Portugal e da Grécia à moeda única, afirmação esta que não teve sequência nem consequências, entre nós, ao nível do discurso dos paladinos da moeda única, que só lhe engrandecem as virtudes, que são poucas, e negando-lhe os defeitos, que são muitos. Tenho aqui recorrido frequentemente àquela minha imagem do casaco: ao aderir ao euro, Portugal fez a figura daquela criança que veste o casaco do pai. Sobram-lhe mangas e o casaco tapa-lhe os joelhos.
A economia portuguesa, devido ao seu fraco desenvolvimento tecnológico, que lhe determina um baixo nível de produtividade, perdeu competitividade externa, o que, como numa correia de transmissão, veio a afetar as exportações, o crescimento do PIB, as receitas fiscais, o défice orçamental e a dívida soberana. A este erro estrutural veio somar-se um outro, que veio complicar mais a situação. Os multiplicadores do FMI, uma das instituições que faz parte da troika, revelaram-se errados. Os técnicos desta instituição internacional consideravam que, por cada euro na redução do défice orçamental, o PIB apenas se reduzia em 0,5 em euros, o que não estava a acontecer, o que os levou a rever o modelo matemático e a concluir que aquela redução do PIB poderia a vir a situar-se entre 0,7 a 1,6 euros, uma diferença que, no seu limite, aponta para um erro em cerca de trezentos por cento, o que desacreditou imediatamente o programa de ajustamento aplicado a Portugal. O PIB caiu, as receitas fiscais desceram, apesar do brutal aumento de impostos, o défice orçamental ficou longe dos objetivos, o consumo privado desceu, a falência de empresas disparou e o desemprego tornou-se um pesadelo. O fracasso desta política de austeridade foi inteiramente assumido pelo homem que a aplicou, o ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar. E, no entanto, o governo de Passos Coelho está a preparar mais austeridade, numa obediência cega aos interesses do capitalismo financeiro europeu. 

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