sábado, 1 de outubro de 2011

O Infante D. Henrique vai passar a jogar a extremo-esquerdo na Selecção Nacional


Cavaco Silva promoveu a cavaleiros  os futebolistas da Selecão Nacional

PENALTI
Com grande solenidade e divulgação pública, foi dado conhecimento da atribuição de vários graus da Ordem do Infante D. Henrique aos componentes de uma equipa de futebol, que no recente campeonato do mundo de uma categoria sub-20 alcançou o 2.º lugar.
Comendadores e Cavaleiros estiveram em S. Bento para receberem das mãos do Presidente da República a respectiva condecoração, e o país, indiferente como vai sendo hábito nestas e noutras questões, terá entendido tal atribuição como justa, salvo algumas reacções discordantes de cidadãos ofendidos.
Não é o meu caso. Cidadão atento e sempre aberto a todas as lições que os grandes senhores desta “Pátria minha Amada” me queiram dar, tenho estado alerta a este “contexto” das cerimónias envolvendo condecorações, particularmente quando partem da presidência da República.
Foi assim com o Dr. Jorge Sampaio, que na ânsia de não deixar ninguém descontente (esqueceu-se de mim!) terminou o seu consulado impondo às mãos cheias as mais diversas ordens e desordens, contemplando, quando já esgotada a lista telefónica nacional, algumas das figuras que não tinham sequer telefone conhecido. Foi assim com a Maria do Ó, com o Januário cauteleiro, a Xica da esquina, a Noémia, florista do Martin Moniz, a Micas do intendente, o Manel engajador, o Duarte, poeta desertor, e tantos outros e outras cujos nomes encheram dez páginas de papel A4.
Passou esse reinado de D. Jorge, “o Sentimental” e eis que sobe ao trono D. Aníbal “o Continuador”.
Entendeu S.Exª premiar os jovens futebolistas com o grau de cavaleiro, ainda que a jogarem com os pés ficaria melhor o grau de infante. Efectivos, suplentes, massagistas, médicos e farmacêuticos, dirigentes, cabeleireiros, cozinheiros, maqueiros e roupeiros, todos foram agraciados, porque em meia dúzia de jogos a equipa conseguiu a fantástica proeza de chegar à final e aí perder sem apelo nem agravo.
Tentando minorar o profundo desgosto e sempre atento aos problemas sociais dos cidadãos, nada melhor do que abrir os salões de Belém para uma apoteótica recepção a quem tanto fez pela pátria, arriscando a vida e o menisco, na defesa das fronteiras da grande área, durante tão longas pelejas contra inimigos com outras capacidades, outro armamento, outro orçamento, outras fontes de recrutamento e outro PIB.
Um pequeno senão: havia que verificar se os contemplados saberiam quem fora o Infante D. Henrique, não se desse a circunstância de algum curioso jornalista, após a cerimónia, lhes colocar alguma pergunta inconveniente.
Todos satisfeitos com as respostas que aqui se deixam transcritas para complemento desta pequena crónica: o primeiro, coçando a cabeça meio pintada de amarelo, respondeu que “dada a semelhança de apelidos estava tentado a dizer que era filho de Afonso Henriques”; outro, mais avançado na escola, embora ainda não tivesse dado a matéria, porque beneficiando do estatuto de alta competição estava desobrigado de assistir às aulas, respondeu que fora um antigo ponta de lança que jogou no “Ponta de Sagres Futebol Clube”; outro mais, ainda incomodado com a recente tatuagem gravada à volta do umbigo, com a inscrição “Amo-te Adélia”, respondeu que estava na dúvida “entre ser neto do Carmona ou primo de Gilberto Madail”.
Mais estimulantes foram as palavras de D. Aníbal, salientando que se a sorte tivesse sorrido a tão briosos cavaleiros e se tivessem alcançado o almejado triunfo final, a condecoração teria sido o Grande Colar da Torre e Espada, e isto, porque para os que tombam mesmo em defesa da pátria, a recompensa, e a título póstumo, que lhes estará reservada, passará a ser a Medalha de Mérito Desportivo.
José Pires de Lima
Oficial da Reserva Naval
Fonte: A Voz da Abita (na Reforma)
***
Uma peça de humor brilhante, que merece ser divulgada, tal é a sua força devastadora, ao explorar o ridículo da caricata decisão de atribuir diversos graus das Ordem do Infante D. Henrique a jogadores de futebol, cujo o único mérito que lhes é reconhecido é o de terem conseguido a proeza de fazer migrar os seus neurónios para os pés.