terça-feira, 25 de outubro de 2011

Kadafi será enterrado no deserto líbio

O corpo de Muammar Kadafi será enterrado, esta terça-feira, num lugar secreto no deserto líbio. Segundo uma fonte do Conselho Nacional de Transição, será uma cerimónia simples, com a presença de clérigos muçulmanos.
Jornal de Notícias
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Quando se decide enterrar um homem num local secreto, é porque alguém tem medo que ele venha a ressuscitar. É que há homens que poderão ter mais força na sua sepultura do que durante toda a sua vida. Foi chocante, tal como já tinha acontecido com o enforcamento de Sadam Hussein, a impúdica exibição pública do cadáver mutilado de Kadafi. Regressa-se ao tempo da barbárie, em que os vencedores exibiam triunfalmente as cabeças decapitadas dos inimigos, espetadas nas pontas das espadas e de paus. O espectáculo foi obsceno e infame. Não houve aquela piedade generosa que enobrece os vencedores, porque, aqui, os vencedores eram ao mesmo tempo criminosos.
É preciso dizer que Kadafi não foi apeado pelo seu povo. Tratou-se de uma conspiração internacional, orquestrada pelo imperialismo americano e que contou com a colaboração dos países árabes do Golfo, cujos dirigentes odiavam Kadafi. Foi a França que, desta vez, sujou as mãos, na encenação da rebelião, utilizando soldados do Qatar, que misturados com a população da região da Líbia, onde Kadafi não era popular, e apoiados pelos violentos bombardeamentos da aviação dos países ocidentais envolvidos, rapidamente empunharam armas sofisticadas para combater em terra o exército líbio.
Kadafi teve o azar de desafiar o império, não cumprindo a ordem de apenas receber dólares para o pagamento das vendas de petróleo e de ter cometido a ousadia de introduzir no sistema financeiro do seu país o padrão-ouro. Por isso, foi considerado um ditador mau. Os ditadores bons, esses, podem continuar sossegados na cadeira do poder, e violentar os seus povos, que o império não os incomodará.