quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um Poema ao Acaso: Auto-retrato com fantasmas e mamíferos

Auto-retrato com fantasmas e mamíferos
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Eu e tu: o resto são fantasmas. Fábricas de lençóis aflitos. Empresas
inadequadas ao mundo visível. A disfunção eréctil da promessa de
aparição.
A sociedade aquosa e secreta dos fantasmas. Espécie de produto
catabólico do omisso, que é o distintivo do amor e a pistola
impalpável do mortal, que por mais amar o próximo se tornou
efectivamente longínquo.

A casa deserta, continuamente adiada, sem episódios de maior
relevo ou directrizes. Horas mais que malignas escoam do espaço
interior a sua manutenção inevitável. A invertebrada mobília da
noite. Os moluscos da insónia. A escuridão adesiva. O silêncio
adesivo. A música da água morta nas canalizações. Passos
imperceptíveis, dados em falso num plano sem gravidade nem
resolução.
Tudo parece evitar-se a custos baixíssimos. Um aquário cheio de
instantes destruídos, adaptados entretanto com as guelras da
memória vã.

Eu e tu, dois mamíferos elegantemente despidos, maravilhados com
as suas imperfeições ideais.
A luz da Lua que atravessa o postigo e descola imagens e desloca
olhares. Técnicas nulas e mistas para acender a audácia,
para ascender à audácia, como se estivéssemos mergulhados na pré-
historia do ânimo e do aviso, no futuro trémulo da hesitação.
E no entanto, passeiam-se à nossa volta as formas plenas da
desobediência em lingerie, influentes flores do interlúdio, os
dejectos delicados da insensatez que já não nos assustam com a sua
epilepsia mordaz.

André Domingues
(Do Amor Mau)