quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A razão e o sentido de dois motins em Moçambique


... (Em Moçambique) a visão dos direitos e deveres
entre governantes e governados predominante
nesses bairros populares não coincide com o hábito
europeu (e das elites políticas locais) de aceitar que
basta a um Governo legítimo tomar decisões legais
para que também elas sejam legítimas.Estas pessoas
consideram, antes, que o poder instituído não deve
ser ameaçado, mas, em contrapartida, tem que garantir
o essencial de bem-estar e dignidade às pessoas que
governa. O governante pode "comer mais", mas não
"comer sozinho", à custa da fome dos outros. Assim,
por muito que o poder seja considerado legítimo, uma
sua decisão pode ser ilegítima, se quebrar esse dever.
Paulo Granjo (Antropólogo do ICS-UL)
PÚBLICO
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A actual situação em Moçambique ilustra bem o esquema de chantagem política, associado à ideologia neoliberal, e que os principais países desenvolvidos impõem de modo draconiano aos países menos desenvolvidos. As instituições financeiras internacionais, controladas pelo imperialismo, ao concederem avultadas ajudas financeiras, exigem aos respectivos governos a aplicação de políticas económicas baseadas na total liberalização do mercado, via favorável à instalação das multinacionais, e à eliminação de todas as políticas socializantes de apoio social. Este modelo de desenvolvimento comporta implicitamenter a criação de elites locais, que acabam por ser as únicas a recolher os benefícios dessas ajudas, contando para isso com a corrupção dos políticos.
Para a grande maioria da população, os efeitos são devastadores. A miséria e a pobreza alastram progressivamente, transformando a vida das pessoas num autêntico inferno. Foi o que aconteceu em Moçambique, onde a revolta popular explodiu. Nos miseráveis bairros à volta de Maputo, muitos moçambicanos acordavam sem ter a certeza se naquele dia iriam encontrar alguma comida para sobreviver. Perante este drama, a revolta e o protesto têm toda a legitimidade, mesmo que a sua violência extrema, ilustrada pelos saques, pelos incêndios e pelos ataques à pedrada à polícia, incomode as consciências sossegadas daqueles que têm a "barriga cheia".

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