quinta-feira, 28 de março de 2013

Poema: Ultimatum - por maria azenha

Salvador Dali - Premonição da Guerra Civil , 1936
(100 x 99 cm - Philadelphia Museum of Art)
Considerada a obra mais agressiva pintada em todos os tempos.

Ultimatum

No céu como um lustre
Está toda a Terra acesa.
Ei-los por ordem:
Camões,
Aquilinos,
Pascoaes,
Pessoa,
E no fim de tudo,
A minha cabeça ardendo
Por cima de um vaso do século,
Ensanguentando as ruas.

É Portugal inteiro ardendo!

Chegaram a este ponto
Com a testa esplêndida do Inferno.
Chegaram os canhões e as liras
Pelas bocas das Tribunas;
Acomodaram-se os fiéis
Ajoelhados na República:
- Cadáveres
Sobre cadáveres,
Cantando em ondas de veludo
A Tribuna Romana,
Que forraram de Hitler.

Está toda a Europa presente
Nas trincheiras das mesquitas.
E hoje resplandece
Esta viúva calva da Terra
Nas catedrais de Hiroxima,
Que rodam na mais terrível hipérbole
Pelos séculos sem fundo;

E as areias das encostas
Troam ao longe,
Como trovões em carne de espuma.

Tensos, os habitantes da América,
Fizeram nascer uma bomba em Lisboa.
Tremem de gelo no peito dos jovens,
Amotinados pelos exércitos da Europa.

Hoje celebram-se as bodas de sangue
Num podium!
E Portugal
Treme de repente
Nos seios de Ilíada!

Descem granadas pelas páginas do Saara, e
De novo as ninfas do Tejo
São degoladas em nossos dias.
E num pesadelo mais negro
É a pintura de Botto e d’ Almada
Que ilumina todos os sons mesclados
Na feiura do Século!

- A eles todos! A eles!
Gritam os desempregados do mundo
Com plumas!
E enchendo o samovar de gemidos humanos,
Sobem para o Céu
Num grito verdadeiro no dia do Ungido!
E os tiros dos anjos ouvem-se blindados
Com nuvens no rosto mais calmo de Buda!
- Eh! Vocês! Eh !!!,
De rostos amedrontados nos esqueletos caídos!
Isto foi para o que vim em carne viva,
Para que vos possa contar tudo sem esconder uma única prega!

E viro a outra página do Livro
Amarrotado à chuva.
É o mais belo incêndio dos anos.
E num comboio amordaçado,
Os cabelos dos mortos
São agora fios da China!
E sob o manto dos risos, Portugal ergue-se ridículo
De um batalhão de palmeiras!

A isto!
A isto!
Em verso, não!
É melhor cuidar dos vivos
Antes que o seu coração inflame de sida!
E na confusão dos aplausos,
A minha língua atravessa um verdadeiro deserto!
Curvo-me ante o peso terrível das blasfémias do século
Como um Anjo caído nas mãos da República!

O Universo inteiro sofre agora um tormento gelado
Que lança os primeiros gemidos
Nos olhos ardentes dos templos da India!
Escorro degolado pelos canais de Veneza
Ardendo no sangue da Europa
Numa pálpebra caseira

E o meu rosto desfigurado nos anjos,
Retém o meu nome vazado
Num dia de trabalho
Num oceano incontável.
Confesso:  Eu  sou o culpado!
Sou Eu o mais maldito dos fiéis verdadeiros
Que se feriu na Batalha dos Lázaros!
E agora como um cão esganado
Não sei a que vítima atirarei o meu próximo golpe.

Mas, Séculos! Perdão!
Ajoelhar- me-ei  ao pé de Vós se for necessário!
Abandonarei a escória dos Anos!
Eu própria arrancarei ao vivo

As drogas e as armas da pele da Europa
Como um continente fedorento de lepra!
E se for necessário,
Humilhar-me-ei
Diante da avalanche dos Séculos!
Tomarei todas as lágrimas
Num oceano blindado,
Para que nasçam Homens
Mais livres
Que o próprio século!
E no corpo de Gólgota
Cravarei uma faca no rosto de Líli
Nos seus lábios ofendidos pelas feridas de Mussolini.
E dos túmulos do mundo,
Levantarei os oceanos escondidos
No rugido das Fábricas!

Um só não ficará deitado!

Trarei às costas todo o ouro Diógenes
Das entranhas da Grécia,
Por um cortejo ardendo sonoro.
E como um harpejo apaixonado
Num coração de carnes fogosas,
Entregar-me-ei
Como uma mulher de incêndios nos lábios,
A todas as montanhas do Tibete às Áfricas!

Glória!
Glória!
Glória aos céus nas alturas
Pelo que trouxe pelo vaso dos séculos!
Sou o mais luminoso ponto que gela em Nápoles!
E a minha amante perfumada
É agora uma Rosa africana
Que viaja aos pés dos humildes!

E todos os corações fungosos
Numa capital da europa
Correm atrás dela através de cada violino
Por onde passa em azul…

Olhai!, como ao pé de cada árvore
Crescem os séculos! E de todos os portos
Saem navios, braço-dado pelos continentes fora!

Todos!, para a Festa que eu proclamo!

Gente!, esse momento há-de vir
Com as mais poderosas canções sonoras
No leque da História!
E Eu, o mais humilde do seus filhos,
Tocarei os sinos
Ao pé da minha amante…

maria azenha

1989, Hora Imediata (Hora Extrema), Átrio - pág. 8 a 12,


Nota: Tal como Salvador Dali se antecipou, com a sua genial pintura, à Guerra Civil de Espanha, também Maria Azenha, neste poema, deixou uma marca indelével e premonitória do inferno que Portugal está a viver atualmente, numa orgia dantesca da “celebração das bodas de sangue”, ao mesmo tempo que nos descreve a decadência de um mundo inquieto, que deixa “descer” as granadas pelas “páginas do Saraa”. É o retrato não só do fim de um século, um século de descomunais horrores, mas também do fim do paradigma nascido na Acrópole e no mar Egeu, e que já não ilumina a humanidade.
No entanto, a poeta deixa aberta a nesga de uma porta, uma pequena coluna de luz para perscrutar o futuro e para se poder ouvir na claridade das manhãs o som dos sinos e as “poderosas canções sonoras”, abrindo-se assim, mais uma vez, o “leque da História”.
Estamos em presença de um poema, que não pode ser esquecido!...
AC

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