domingo, 7 de julho de 2013

Uma reflexão da economista e professora universitária, Manuela Silva.


"O que está em causa não é o pensamento económico em si, o qual se considera relevante e indispensável para a melhor compreensão da realidade societal e do lugar que nela ocupa a organização e o funcionamento da respectiva economia; tão pouco se põe em dúvida o papel coadjuvante que a Ciência Económica pode ter na definição de estratégias e medidas de política que viabilizem e promovam um desenvolvimento sustentável ao serviço do bem-estar colectivo e da qualidade de vida das pessoas, da coesão e da paz social, finalidades indissociáveis de uma democracia autêntica.
O que está em causa é que a Ciência Económica dominante se deixou capturar pelos interesses do capital financeiro e vem harmonizando as suas lógicas de construção científica com esses interesses, concentrando aí o seu olhar e o aperfeiçoamento das suas ferramentas analíticas e, do mesmo passo, desviando-se de outras hermenêuticas que privilegiem, por exemplo, a satisfação das necessidades das pessoas e do emprego dos respectivos recursos individuais e colectivos, a prossecução de finalidades de bem-estar individual e social, a equidade no acesso e na repartição do desapiedados bens, os processos de um desenvolvimento sustentável.
Nesta deriva ideológica, que, nas três últimas décadas, se tem vindo a impor, incluindo no meio académico, sob a capa de um pensamento único com pretensa validação científica, sobressaem a lógica de um comportamento dito “racional” baseado no mero interesse individual egoísta, a exaltação do mercado como regulador único do conflito de interesses, a competitividade como motor de um crescimento económico ilimitado".
Do discurso na cerimónia do seu Doutoramento Honoris Causa,
pela Universidade Técnica de Lisboa (ISEG)

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Uma reflexão de uma brilhante e insuspeita académica (situa-se nas correntes de pensamento do catolicismo progressista), que deverá ser compreendida por todos, nestes conturbados tempos de desvario “austeritário”, que emanou naturalmente de uma comprometida teoria económica, que já se transformou em ideologia omnipotente do capitalismo financeiro, ancorando-se na sacralização do mercado, e na “financeirização” da economia, e que, tendencialmente, caminha para um totalitarismo desapiedado e fascizante.