quinta-feira, 18 de julho de 2013

Poema: em pomares azuis - maria azenha

Imagem selecionada pela autora

em pomares azuis

A minha mãe é um peixe.
Em pomares de água descendo ao coração
e absorve-o em cada anel azul.

Desce ao abismo 
e vejo como é fácil abrir a porta 
das lágrimas de Deus.

Estou sentada no crepúsculo da alva página. 
O mundo está coberto de brancura agora. 

Os seus biombos de neve recebem os relógios da eternidade.
Há corais noturnos dentro do sangue da névoa
e o seu corpo é feito de algas brancas.

Sobrevivo numa câmara de lume mudo.
Sou uma flecha láctea. um peixe-flor à força
através de um túnel escuro.
A minha língua dentro da qual se precipita todo o ar 
de uma vida atrás de outra 
é como uma máquina de costura dos raios do luar. 
E estão a coser-me com agulhas de seiva da aurora
como se eu fosse uma lâmpada de luz alva

Mês após mês 
a minha mãe coloca em meus dedos 
dez pedaços de estrelas brancas.
E choro através dos pensamentos de Deus 
que estão no fundo do mundo.

Então ergo uma escada que sai do pranto 
através do meu pequeno ouvido
martirizado por açucenas minúsculas . 

Canto com a boca escancarada vogais azuis. 

E digo : Aqui está o meu poema-Filho feito de lírios brancos
e miríades de estrelas de água 
nos pulsos.

maria azenha
***
Nota: Um candelabro metafórico, para que a luz da saudade não se apague. E é da palavra mãe que nasce a poesia. Não há nenhum poeta que não invoque a figura da mãe, colocando-a na alegoria da vida e da poesia, em cascatas de luz e sons (os sons que nascem do silêncio telúrico dos poemas), e muito próxima das divindades e dos mitos antigos, ligados à Mãe-Natureza.
Maria Azenha, devolve-nos essa essência mística da Mãe, cruzando, não aleatoriamente, as tais metáforas desconcertantes, para dar um sentido próprio ao seu poema. E não podemos deixar de nos emocionar, quando ela nos diz: “E digo : Aqui está o meu poema-Filho feito de lírios brancos/e miríades de estrelas de água/nos pulsos.

A "poeta" Maria Azenha colabora neste blogue, publicando-se um poema de sua autoria, às quintas-feiras. 

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