terça-feira, 10 de abril de 2012

Opinião: SOBRE OS PERIGOS DO ISLÃO - por Diamantino Gertrudes Silva*


SOBRE OS PERIGOS DO ISLÃO
(carta a um amigo)
Meu caro Graça:

Li com toda a atenção o texto que para mim reencaminhou através do seu email de 31 de Março. E digo “com toda a atenção”, porque respeito tudo aquilo que os amigos me enviam e porque gosto de pensar nas coisas que leio. E é dessa leitura e da minha reflexão que pretendo confrontá-lo com algumas considerações. Porque esta coisa de se receber mensagens e reenvia-las, sem mais, é, quanto a mim, um mau serviço que prestamos a estes fantásticos meios de comunicação entre as pessoas.
E começarei por lhe dizer sem qualquer constrangimento que nutro uma especial simpatia pela civilização árabe, coisa que me ficou, penso eu, do Curso de História que aqui há um bom punhado de anos frequentei como aluno externo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e que terminei em 1980 sem até hoje dele tirar qualquer proveito senão este, de me julgar um pouco mais informado sobre os factos e acontecimentos do passado que têm continuidade ou se reflectem no presente, como é o caso.
E, em primeiro lugar, há que lembrar tudo o que eles, os tais seguidores do Islão para aqui nos trouxeram, desde a simples cegonha (sabe o que é?), até às noras e outras técnicas de irrigação das terras de cultivo.
Ou, então, a bússola e a pólvora que, vieram a tornar possível a nossa gesta dos descobrimentos de que tanto nos orgulhamos. Isto para já não falar que foram eles, os árabes e muçulmanos (porque nem todos os muçulmanos são árabes, logo a começar por turcos e iranianos) que salvaguardaram e nos transmitiram, quando por cá estiveram e através das repúblicas italianas, quase tudo o que ainda hoje conhecemos da matriz maior da nossa civilização, que foi a civilização grega, coisa de que hoje os badamecos da Europa da suposta União parecem ter esquecido com tanta facilidade.
E porque nessa peça que me enviou se põe a tónica no “fundamentalismo islâmico”, será bom lembrar que enquanto eles estiveram por aqui, e foram cerca de 700 anos, não há registo de grandes crueldades, pelo contrário, o que se sabe é que foram um exemplo de tolerância como será difícil encontrar em condições análogas em qualquer tempo e lugar. Aliás, será essa característica e o facto de, como Cristo, se porem ao lado dos mais fracos – o segredo da Igreja Católica, pelo contrário, reside no facto de sempre andar colada aos mais poderosos – que em grande medida explicam a sua vertiginosa expansão por todo o mundo.
Pelo meio vieram as cruzadas. Mas, também neste aspecto, em particular, há que ler as narrativas dos dois lados, onde houve excessos de ambas as partes, mas ainda assim serão os cristãos que levam a palma das maiores crueldades.
Também eu sou, naturalmente, contra o terrorismo. Mas não me sentiria bem se não afirmasse que, por vezes – e admitindo a justeza de algumas contendas com uso da violência – não lhes dão outra alternativa. E depois, se formos a ver, como aconteceu no nosso caso com a Guerra Colonial que muitos preferem continuar a chama do Ultramar, quando há conflitos armados há sempre actos de terrorismo dos dois lados.
Que é também, de alguma maneira, o que actualmente se passa com, ou melhor, contra o Irão. Mesmo que este país esteja a preparar-se par produzir a arma nuclear – e isso ainda ninguém conseguiu demonstrar, e é bom lembrar o caso das armas de destruição maciça que nunca ninguém viu e serviram de argumento para a invasão do Iraque - , pois, se por hipótese, estivessem mesmo a preparar-se para a fabricação da bomba atómica, será caso para perguntar porque é que uns podem ter, como Israel e Paquistão, por exemplo, isto para já não falar nas grandes potências militares, e outros não.
Muito honestamente, penso que estas campanhas de propaganda nitidamente xenófobas, podem transformar-se, com o caldo da grave crise que atravessamos, num introito muito perigoso para coisas bem mais graves, bastando para tanto lembrarmo-nos que foi em circunstâncias semelhantes que campanhas deste tipo levadas a cabo pela propaganda nazi conduziram ao Holocausto, e não me venham dizer, que até me arrepio, como por vezes já se vai ouvindo, que os judeus não mereciam outra coisa. Nós, que sempre fomos mais maneirinhos, nunca iremos tão longe, mas já por aí se vai dizendo que quem cá dera outra vez o Salazar e alguns até já se atrevem a ir um pouco mais longe ao promover um vinho com a marca “Memória de Salazar”.
E, nem de propósito, se consultar o jornal “Público” de hoje, dia 1 de Abril e o abrir na página 29, logo dá de caras com uma notícia que, para dia de enganos seria demasiado grave e estúpida, com o título “Extrema-direita europeia reuniu-se para fazer aliança anti-islâmica” e, se tiver oportunidade de a ler, lá verá que se tratará de «um teste à capacidade dos radicais em coordenarem os seus programas contra a imigração e instigação do medo ao islão».
E também lá poderá ler que «Os líderes das comunidades muçulmanas (locais) instaram, porém, os seus membros a permanecerem em casa ontem, e a não se deixarem provocar pelos ativistas da extrema-direita.»
Dizerem-me que esta notícia nada tem que ver com a peça que o amigo Graça ontem me enviou, “ISLÂO – algo pelo qual temos que estar MUITO preocupados… e ocupados” é o mesmo que me tomarem por tolo.
Aliás, a peça de propaganda está bem elaborada para facilmente levar à adesão de pessoas menos prevenidas, jogando com estatísticas e tratando-as à maneira que lhes convém, estabelecendo uma escala de gravidade de situações em cada um dos países na medida do crescimento da percentagem de populações muçulmanas, mesmo assim, caso para perguntar o que é que há com o Catar (60%), com os Emirados (98%), com a Turquia (99,8%) ou com a Arábia Saudita (100%) ou mesmo com o Afeganistão (100%), onde o problema não residirá nos muçulmanos em geral, mas nos Taliban, em particular.
Mas vai mais longe no seu refinamento ao trazer para aqui o discurso dos governantes da Austrália, sim senhor, isso é que é falar, como se eles e muitos mais como eles servissem de exemplo para alguém. Aliás, suponho que muito antes dos “democratas” australianos, já o nosso então presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, largou, quanto a mim, num momento infeliz, uma proclamação semelhante, visando a submissão dos imigrantes aos ditames legais e civilizacionais dos países de acolhimento, esquecendo-se que nós, ao longo da nossa história da expansão e de ocupação colonial fizemos precisamente o contrário, tal como americanos e australianos, nesta história ninguém se salva. Demagogia, da boa, da pura, é o que é.
Meu caro Graça, sem querer dar-lhe lições, sempre me atrevo a lembra-lhe que todos devemos fazer um esforço para dar um pouco mais de seriedade a este fantástico instrumento de comunicação que temos nas mãos. Porque parece bem verdade aquilo que ontem José Pacheco Pereira, também no já citado jornal “Público” dizia, ao afirmar que: «Hoje, em Portugal, há centenas de milhares de pessoas que vão à internet, usam redes sociais, têm páginas no Facebook cheias de likes e de “amigos”, “twitam” que nem passarinhos, e no entanto contribuem para uma das regras universais da Internet, “mete-se lixo, sai lixo”.»
E ainda se lembra como terminava a peça de propaganda a que me venho referindo? Nem mais: «Se estiver de acordo, reenvie isto a quantas pessoas lhe for possível.»
O meu amigo Graça vai-me desculpar: espalhei muito estrumes com estas mãos quando ainda era miúdo; mas não vou sujar agora os meus dedos para espalhar lixo como este por esse mundo.
Viseu, 1 de Abril de 2012
* Escritor, capitão de Abril e colaborador regular do Alpendre da Lua.
***&***
Nota do editor:
Amigo Diamantino:
Subscrevo inteiramente o teu texto.
A requintada civilização árabe teve uma importância fundamental para a Europa. Sem o seu contributo, perder-se-ia a maior parte do conhecimento sobre a civilização grega, que acabou por se tornar a matriz da civilização europeia. Embora no Magreb, o islão tivesse sido transportado na ponta das espadas, os árabes, até, talvez, por opção estratégica, foram extremamente tolerantes com os povos ibéricos e com os do norte da Índia, conquistados na mesma altura, e cujos territórios constituíram, a ocidente e a oriente, respetivamente, os limites do seu vasto império. Na Península Ibérica, os árabes foram recebidos como libertadores, pois transformaram os servos da gleba, dominados pela ignorante e cristianizada aristocracia visigótica, em produtores livres, que podiam vender os seus produtos agrícolas nas feiras, institucionalizadas, entretanto, pelo novo ocupante. Aos cristãos, foi-lhes facultada a liberdade de culto, sendo-lhe apenas exigido o pagamento de um pequeno tributo, pelo facto de não quererem obedecer à doutrina ao Profeta, nem abdicarem de continuar a comer o nojento toucinho. Nas artes, na literatura e na ciência foram brilhantes. Córdoba e a Alhambra de Granada são exemplos de todo o seu esplendor civilizacional.
No entanto, nos tempos atuais, é necessário considerar, no ponto de vista político e religioso, a deriva do islão, iniciada no Egito com a Irmandade Muçulmana, surgida como resposta à ocupação colonialista da Inglaterra e inspirada pelo  wahhabismo da Arábia Saudita, um ramo radical do sunismo, fundado no século XIX, que se difunde silenciosamente, à custa dos petrodólares,  pela maior parte do mundo árabe. Não me agrada o espírito cruzadista de alguns grupos islâmicos, subsidiados por aqueles dois movimentos, que vociferam o seu ódio ao ocidente, aos ateus e aos apóstatas, reeditando, no seu ideário, o perverso percurso ideológico das cruzadas medievais de inspiração cristã, de tão má memória. 
No entanto, condeno veementemente todas as campanhas islamófobas dos grupos da extrema direita da Europa, que nos recordam as campanhas  hitlerianas contra os judeus.
Alexandre de Castro