sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Opinião: Os cidadãos são hoje como os servos da gleba de outrora - por Paulo Morais

Os cidadãos são hoje como os servos da gleba de outrora, mas agora sob a forma de contribuintes usurpados.
"Há grupos económicos portugueses que mantêm intactos os seus privilégios desde os tempos da monarquia. Ao longo de séculos, conseguiram domesticar todos os regimes. Até hoje, cativam uma parte significativa do orçamento de estado, à custa do qual se habituaram a enriquecer. Beneficiam de rendas das parcerias público-privadas da saúde, como acontece com o grupo Mello ou Espírito Santo. Recebem milhões pelo pagamento de juros da divida pública. Obtêm concessões em monopólio, como acontece com a Brisa, detentora, por autorização governamental, das autoestradas de Porto a Lisboa.
"Os favores que recebem do estado têm revestido as mais diversas formas. No tempo do fascismo, obtinham licenças num regime de condicionamento industrial, em que só os amigos do regime podiam criar empresas. O seu domínio sobre a economia e a política vem dos tempos da monarquia, onde pontificava o conde do Cartaxo antepassado da familia Mello. Já os Espírito Santo descendem do poderoso conde de Rendufe.
"Assim, estes grupos conseguiram trazer até ao século XXI, incólume, a lógica feudal, a tradição de atribuição de prebendas aos poderosos. Com uma diferença. Enquanto no tempo do feudalismo o rei atribuía privilégios que consistiam na doação de benefícios económicos (terras) a par de poder político (títulos). Hoje apenas se concedem favores económicos. Assim, estes grupos mantêm o poder sem os incómodos do estado democrático. Sabem que mais importante do que ter o poder na mão é ter a mão no poder. Até porque sempre influenciaram a política. Conseguiram-no no tempo de Salazar, através do fascinio que Ricardo Espírito Santo exercia sobre o ditador. Em democracia, contratam políticos de todas as tendências. Eanistas como Henrique Granadeiro, socialistas como Manuel Pinho ou social-democratas como Catroga. Neste jogo democrático viciado os cidadãos são hoje como os servos da gleba de outrora, mas agora sob a forma de contribuintes usurpados. E reféns do sistema vigente, que muitos chamam de neoliberalismo, mas que não é novo nem é liberal. É apenas a manutenção do velho feudalismo."
Correio da Manhã
Amabilidade do João Grazina

5 comentários:

Graza disse...

É isso Alexandre, e pelo que vou conhecendo de Paulo Morais acho que pode ser dado como o exemplo de uma pessoa que estando embora politicamente situado à Direita, não perdeu nunca o Norte em questões fundamentais para uma organização com ética da sociedade que vivemos.

Alexandre de Castro disse...

Caro Grazina:
Sendo de direita, como o meu amigo diz, Paulo Morais, ao referir a aliança espúria entre o governo de Salazar e do atual governo com os grandes capitalistas portugueses, comporta-se como um homem de esquerda.
Um abraço

olimpio pinto disse...

Já não há ideologias. Conceito de "direita" e "esquerda" perderam significado. Se ainda tivessem algum, eu diria que a "direita" é burra, e, a "esquerda" é hipócrita ... A mensagem original é correcta, pertinente e perspicaz. No entanto, peca por brandura, "inocência", e boa vontade (que se entende). O retrocesso é maquiavélico: os servos da gleba, hipocritamente amaciados, continuaram até finais do Séc.XX ...Agora,entrou-se na fase de uma "nova"escravatura. ... ...

Alexandre de Castro disse...

A importância das ideologias não é uniforme ao longo do tempo. Anula-se nos períodos de prosperidade e de um grande desenvolvimento científico e económico e ressurge, normalmente com novos conceitos, nos períodos de recessão económica e de crise social. Avaliar, pois, a importância das ideologias de uma maneira estática e estanque, incidindo unicamente num determinado período histórico, é redutor. Ortega & Gasset, um célebre filósofo espanhol, de matriz neokantiana, do princípio do século XX, enquadrou muito bem esta problemática em relação ao descontinuado interesse das sociedades modernas pela filosofia.
E se verificarmos bem, as grandes ideologias, aquelas que tiveram dimensão planetária, surgiram em períodos de grande crise, em que os sistemas políticos, económicos e sociais, não ultrapassavam as suas próprias contradições, e se encontravam completamente esgotados. As obras dos enciclopedistas do sec. XVIII, que lançaram as sementes da revolução francesa, de cujo ideário a maioria dos países se reclama,surgiram pela necessidade de encontrar uma Nova Ordem que determinasse o fim do sistema medieval, dominado pelas velhas aristocracias europeias. O marxismo, como filosofia e ideologia, surge quando a segunda Revolução Industrial começava a não conseguir ocultar os desequilíbrios sociais que foi engendrando, e que acabarm por determinar o aparecimento das grandes duas crises das últimas duas décadas do sec. XIX e o deflagar da Primeira Guerra Mundial, já no sec. XX.
O que se pode pôr em questão é se uma ideologia, que respondia corretamente às questões problemáticas em tempos recuados, ainda se mantém válida para as crise do tempo presente, que emergiu em contextos diferentes. Nouriel, um economista de referência, de formação liberal neokeynesiana, e que previu a atual crise económica e financeira, interrogava-se, há dias, se, na realidade, "Karl Marx não teria tido razão".

Graza disse...

Se nos detivermos nos comportamentos programáticos dos intérpretes das novas formas de fazer politica económica, esbate-se de facto o horizonte entre “direita” e “esquerda”, aquele, – horizonte - de uma Direita que tem folgado nos espaços em que uma Esquerda tem governado, e vice versa. Isto resulta porém da análise dos comportamentos dos partidos que têm feito o arco do poder aqui e na Europa, mas se pegarmos nas pessoas, no Homem, e obtivermos dele um escalpe mais fundo, veremos como cada um não deixa de estar impressivamente marcado por escolhas que facilmente se arrumam à Direita ou à Esquerda. Verifico isto com facilidade, olhando para dentro dos amigos conheço bem. Alguns, coitados, têm o egoísmo chapado na testa mas pronto, são meus amigos! Outros, desfazem-se em desprendimento e solidariedade. Não aceito por isso a questão do esbatimento dos horizontes. Aceito sim, o facto de alguém nos andar a turvar os horizontes com intuitos mais próprios das suas agendas do que das nossas.

Quanto à sua questão, Alexandre:

(…) O que se pode pôr em questão, é se uma ideologia que respondia correctamente às questões problemáticas em tempos recuados, ainda se mantém válida para a crise do tempo presente, que emergiu em contextos diferentes. (…)
Diria que essa é a pergunta dos milhões. Se não tivesse consciência dos riscos que o raciocínio representa, diria que falta um intérprete credível destes tempos. Ou se quisermos, para não parecer tão mal: líderes que saibam o que andam a fazer, em vez de nos parecerem baratas tontas.

Entretanto, ouvi hoje na Rádio alguém dizer que as pessoas tendem a valorizar aquilo que as afecta: o conforto, o bem estar, a segurança, etc, e só depois disso pensam na Democracia.

Fiquei por ali a mastigar o pensamento…