quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Carta de um amigo, acompanhada por uma dissertação sobre História - Gertudes da Silva

Amigo Castro

Atrasei-me um pouco, eu sei, na resposta àquela tua mensagem em que me remetias para o teu blogue e a propósito do vídeo que para ti reencaminhei sobre uma hipotética III Guerra Mundial lá para Julho/Agosto deste ano.
Logo de imediato comecei a teclar um comentário ao que tu ali formulavas, para te dar os parabéns e etc. e tal, mas apercebi-me que às tantas, onde é que já ia os espaço razoável para um local como é um blogue.
E então resolvi, e suponho que bem, com um pouco mais de vagar tecer mais algumas desenvolvidas considerações, que a qualidade do teu comentário bem merecia e pedia da parte de quem, não sendo praticante, andou lá pelos caminhos da História.
Fi-lo em jeito de provocação, que tenho a certeza vais tomar no melhor dos sentidos.
E, na passada, vou aproveitar, e vai ser já a seguir, para enviar este meu pequeno(grande de mais, dirás tu) a outros amigos, alguns dos quais até são comuns, e a outros que não o sendo (comuns) são companheiros fieis do 25 de Abril
E um abraço
Diamantino
***
EM JEITO DE PROVOCAÇÃO

Que é como eu gosto: assim, em jeito de provocação. E esta vai direitinha para um amigo com quem falo – é mesmo falo, do verbo falar –, infelizmente, nem tudo são virtudes, quase só através das vias de comunicação da Net.
Esse meu amigo tem um blogue – sim, é rico – para onde ele remete uma ou outra “tolice” que de vez em quando me sai da cabeça e com ele me atrevo a partilhar, trabalho não pago, mas altamente remunerador sempre que ele ali publicamente me identifica como amigo, coisa que muito me honra, como escritor, ora vejam!, coronel reformado e capitão de Abril – e deste último título é que gosto mais –, e até me admira que àqueles não acrescente o de doutor ou de licenciado, por em tempos idos me ter metido na aventura de frequentar com algum sucesso o Curso de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Estão a ver no que dão estas vaidades pessoais. Por causa disso até já me esquecia de vos deixar o endereço do tal blogue do meu amigo, e então aí vai ele, http://alpendredalua.blogspot.com e que se chama Alexandre Castro, um tipo “às esquerdas”, logo verão quando o conhecerem melhor.
E vem tudo isto a propósito – não, disto não me esquecia – de um comentário muito bem desenvolvido e fundamentado que ele lançou no seu blogue acerca de um vídeo que anda por aí no YouTube e mais por onde calha com o intrigante título de “A III Guerra mundial começará em Julho ou Agosto de 2012”, coincidência ou não, no mesmo ano em que uns adventistas e ou apocalipticistas – que agora a coisa ficou outra vez para os milenaristas – que andam por aí a anunciar aos quatro ventos, mais e mais uma vez, que o mundo vai acabar.
Vai acabando, vai, para alguns dos nossos mais queridos amigos, como aconteceu ainda há poucos dias com o grande companheiro Mário Brandão Rodrigues dos Santos (sim, tio do jornalista/escritor José Rodrigues dos Santos), um genuíno capitão de Abril, sempre e até ao fim dos seus dias neste mundo, e a quem quero deixar aqui a minha modesta mas pública homenagem. Acompanhei-o até àquela que dizem ser a última morada que nem por isso é dada de graça, é preciso comprá-la como quase tudo, isto se não quisermos ir para a vala comum de todos os indigentes deste mundo. Como vai acabando para muitos e muitos milhares de seres humanos em cada hora de cada dia por esse mundo fora por muitas e variadas razões – que a morte, de tão envolvida em mistério, carece sempre de uma explicação –, e ainda vá que não vá quando são invocadas razões naturais, não cabendo nestas as resultantes de guerras, as provocadas pelas iníquas desigualdades sociais, nem as calamidades que advêm das criminosas agressões da Natureza levadas a cabo pela ganância dos homens, que tendo aparecido aqui há uns poucos minutos, já se sentem os senhores, se não, até, os criadores e donos do mundo.
Mas, afinal, do que é que eu vinha a falar? Ah!, já sei: do meu amigo Alexandre, o tal que tem um blogue, onde incluiu o tal vídeo sobre uma hipotética 3ª Guerra mundial e acerca do qual teceu um interessantíssimo comentário. E é tal a evidência dos argumentos por ele para ali carreados que, assim, logo à primeira vista, se afiguram absolutamente inatacáveis. Que é o que normalmente acontece quando trazemos para a análise dos factos da actualidade o peso e o “respeito” – alto aí!... – dos acontecimentos passados.
Só que a História, menos ainda que outras disciplinas ditas científicas não se pode vangloriar de intocável objectividade, pelo que todo o cuidado é pouco quando com ela lidamos.
Por isso, e pelo já referido peso argumentativo e de convencimento é que ela é tantas e tantas vezes reescrita, e até virada do avesso, conforme os interesses dos regimes políticos, sempre a lançarem mão de cronistas e historiadores de serviço, não custa nada, o que lá vai lá vai, a história faz-se com base em vestígios e documentos que estão ali, quietos e calados, à espera de quem os estude e faça a sua interpretação, tarefa esta, é preciso disso termos a noção, se nos deixamos ir na onda dos interesses, muito semelhante à hermenêutica de qualquer advogado, que tanto lhe dá para salvar da prisão um inocente indiciado como inocentar o criminoso mais encartado, tudo muito justo, lindo e civilizado, princípio bom, o da presunção da inocência até ao trânsito em julgado, quando o que está em jogo é o montante da maquia, não importando donde vem o dinheiro – como diria a Madre Teresa – e que, se pensarmos um pouco no que vamos vendo por aí, só serve verdadeiramente para os afortunados.
E tudo isto para quê? Pois, no que à história diz respeito, para legitimar o poder emergente ou já instalad; e não nos esqueçamos que o poder – não será tão simples assim, eu sei – é a chave fundamental para a interpretação de quase tudo o que aconteceu e vai acontecendo tanto a nível mundial, como nacional como, até, no interior das nossas próprias casas.
Soa a provocação, não é? E é mesmo. Um exercício, aliás, que pratico mesmo que o meu interlocutor seja um livro ou uma simples folha de jornal. Ainda há dias, sem sequer pensar ainda que viria para aqui “refilar” com o meu amigo, ao ler um pequeno artigo do historiador Paulo Varela Gomes, com o título “Oito e meio” no P2 do “Público” de 4 de Fevereiro, no qual procura apresentar as raízes históricas dos comportamentos e idiossincrasias de alguns povos mais nossos conhecidos, como obedecendo a um impulso, logo escrevinhei na margem da folha do dito jornal o seguinte comentário, que também serve para aquilo de que venho aqui falando: «Percebe-se bem onde quer chegar. Mas, no que respeita aos argumentos históricos utilizados, deixa ficar muitas dúvidas», o que não tem mal nenhum, pois para o conhecimento só as dúvidas é que são frutuosas.
E era isto, mais ou menos, o que queria dizer ao meu amigo Alexandre. Em jeito de provocação, como logo no início avisei. Quem me conhece sabe bem que tenho uma intrínseca tendência para me pôr no lugar “do contra” ou, se quiserem, de fazer de advogado do diabo.
A história, suponho eu, não nos ensina. A história, quando muito, e aí já faz mais que Deus, dá-nos umas dicas e uma ou outra orientação, e só por isso já é uma grande ajuda. Nem nos permite fazer prognósticos para o futuro. Razão tinha o mestre João Pinto quando afirmava com toda a convicção que, prognósticos, só no final do jogo.
Mas nada disto diminui a sua importância. E nas suas fraquezas não está sozinha. Veja-se o que se passa com outras ciências tidas por bem mais exactas, mas, porque humanas, como é o caso da economia, mesmo socorrendo-se em maior medida das matemáticas, traça cenários e faz previsões para, logo a seguir, entrar num corrupio de revisões, em alta, em baixa, conforme calha ou dá mais jeito a quem fez a encomenda do serviço.
Dicas e orientações que, mesmo assim, devem ser aproveitadas, delas sabendo tirar o devido partido os sábios e os verdadeiros lideres – dos falsos está cheia não o inferno mas a União Europeia –, ao contrário dos néscios que põem os destinos do mundo nas mãos de cientistas e de tecnocratas seus apaniguados, esquecendo-se, ou não sabendo mesmo, que os verdadeiros agentes e motores da história continuam a ser os povos que habitam, labutam, gozam, sofrem e morrem neste lindo planeta azul, que é assim que a ele se referem os que já tiveram a fortuna de o poderem observar longe de todos os ruídos e demais poluições de todo o género, lá das siderais alturas.
E para provocação, hoje suponho que já basta.

Viseu, 09/02/12

Gertrudes da Silva
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Obrigado, amigo Diamantino, pelo elogio, e também pela provocação, que eu entendo mais como uma brilhante dissertação sobre a falibilidade da interpretação dos factos históricos, que, quando se repetem, ou são uma tragédia ou uma comédia.
Um abraço
Alexandre