terça-feira, 28 de outubro de 2014

Poema: « Visita em sombra » - por maria azenha

Fotografia - Autor não identificado

« Visita em sombra »
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A minha mãe
folheei-a à noite.
Colheu-me de revés
num assalto à paz. 
(nunca a vi)
Bateu-me à porta,
em criança,
de facto .
Com o pescoço
ao lado do meu pai
pintou o meu rosto
com palavras exasperadas.
(e os meus seios estavam a crescer
numa dor
nos bicos da alma… )
À noite,
às doze em ponto , 
furei o tapume 
com
saltos.
Meti-me a verter piedade
pelos cantitos
dos
olhos.
Copulei as risadas doidas
a chapinhar
nos bibes.
Olhei de folga
por todos os domingos.
Toquei as arestas vivas
das bonecas degoladas.
Remeti todos os serviços
p’ras escolas
fu-
ne-
rárias.
Crucifiquei as chávenas
Todas
ao pequeno-almoço.
No último exame de Ontem
incendiei- a 
viva
num grande Campanário!,
══
MARIA AZENHA
(Poeta portuguesa, n. 1945)
in “P.I.M.”, Universitária Editora,Lda, Lisboa, 1999

***«»***
Nota: Uma dança onírica de metáforas, a saltarem em cascata no poema, incendiado-nos a imaginação até ao arrasador climax poético “(e os meus seios estavam a crescer/numa dor/nos bicos da alma…)”. E, no final, aparece o fogo purificador, para acalmar a consciência, depois daquele vendaval destruidor, que não poupou as chávenas nem as escolas funerárias.
AC

A "poeta" maria azenha colabora regularmente no Alpendre da Lua.

1 comentário:

mariagomes disse...

que maravilha! saudades da Maria!