quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A culpa é do Estado?


A culpa é do Estado?

Portugal é um país pequeno em termos europeus. Todos conhecem todos ou conhecem alguém que conhece. Não são só as estreitas relações entre políticos e empresários, agora muito na moda, que espartilham a sociedade portuguesa.
A falta de responsabilidade e de responsabilização criam um ambiente de impunidade e um sentimento de injustiça. Em toda a sociedade.
Os titulares de cargos públicos, quer sejam políticos ou técnicos, agem e decidem sempre de consciência tranquila, pois independentemente do resultado das suas decisões sabem que dificilmente serão responsabilizados.
A falta de responsabilidade advém principalmente da falta de responsabilização. A falta de responsabilização por parte dos seus pares, dos seus superiores, das entidades reguladoras e das supervisoras, dos investigadores, das entidades judiciais e, em última análise, dos eleitores.
O sentimento de injustiça alimenta o ambiente de impunidade. Os crimes vários que são praticados contra o bem-comum e contra a vida já nem mexem o ponteiro da (in)justiça. Como diria um ex-Primeiro Ministro: “é a vida…”
O “nacional porreirismo” permite viver anestesiado em vez de vacinado. Cada vez é mais difícil impressionar negativamente os portugueses, que já viram acontecer tudo e de tudo. Várias vezes. E que pouco parecem importar-se.
A sua pouca exigência enquanto utilizadores de serviços públicos e privados, consumidores e eleitores é fruto da sua grande capacidade de adaptação. Certamente grande demais, porque já vai sendo tempo de sair da anestesia e procurar uma vacina para tamanha incapacidade do Estado.
A visão benévola do Estado protector, enquanto garante do bem-estar social e subsidiador de todas as actividades em benefício de todos e de cada um possui inúmeras desvantagens. Talvez a principal delas seja mesmo a desresponsabilização que cada um sente na sua relação com o Estado. Por responsabilização do Estado em relação a tudo.
O problema de responsabilizar o Estado por tudo de bom que nos deve acontecer, é ter que responsabilizar o Estado por tudo de mal que acontece. Sem ser necessário, nem sequer aconselhável, responsabilizar/culpabilizar alguém pelo caminho. Para não ferir susceptibilidades e porque estão todos de consciência tranquila. Como sempre.
Mas parece que agora o objectivo primordial de reforçar a segurança nacional está mais próximo de ser cumprido, pois com a criação de leis anti-piropo, através de penas de prisão para este tipo de criminosos, será mais fácil condenar alguém por tamanha crueldade do que responsabilizar directamente alguém pelas mortes de doentes/pacientes nos hospitais públicos pelo crime de abandono.
Votos de um Ano de 2016 mais exigente. Mas desta vez a sério.
Paulo Barradas

***«»***
Concordo com o diagnóstico, mas não concordo com a terapêutica. Não é por o Estado ser mais ou menos "protector", que os cidadãos são menos ou mais exigentes. O grau de exigência tem a ver com factores culturais, essencialmente, e que derivam, por sua vez, dos contextos morais, religiosos, sócio económicos e, naturalmente, políticos, que agem na formatação das consciências individuais, através de um complexo processo de uma sedimentação, de curta, média e longa duração, e que se vai herdando geracionalmente, embora com várias mutações, impostas pelas dinâmicas das novas realidades, derivadas do progresso das sociedades. 
O povo português, porque periférico, em termos históricos, em relação aos centros do progresso e dos conflitos bélicos europeus, foi sempre um povo facilmente domesticável pela acção dos aparelhos ideológicos dos vários poderes, que se completavam na sua missão: o poder religioso, o poder político e o poder económico-financeiro, que sempre recorreram a várias estratégias, para fazerem prevalecer o seu domínio, estratégias que iam da sedução à repressão e à opressão e da cultura da exaltação patriótica e nacionalista - como tentativa consumada de formatar um modelo de identidade colectiva.- à cultura do medo.
Trata-se de um quadro que, em termos sociológicos, é muito complexo, devido ao enorme peso das diferentes variáveis envolvidas, o que dificulta a sua compreensão plena. E é também esta complexidade de factores que impede a mudança rápida das mentalidades dos povos.
AC

3 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Tenho por certeza
que 2016 será diferente
talvez não muito
pois nada de profundo
poderá mudar de repente

Bom Ano, meu caro

Alexandre de Castro disse...

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
***
Um Bom Ano, Rogério.
Abraço.

Majo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.