sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poema: Eu tive a ideia de ficar acordada_ por maria azenha

Pintura de Salvador Dali

Eu tive a ideia de ficar acordada_

Eu tive a ideia de ficar acordada
enquanto a maior parte dos outros dormiam.
Eu tive a ideia de abrir uma janela
enquanto os jornais esvoaçavam do parapeito das árvores.
Vimos ilhas, montanhas, cenáculos,
rasgados pelos ventos do abismo .
Como biliões de pessoas no mar da unidade
ficámos em múltiplos naufrágios.
Ouvimos os passos de Atenas
de um lado para o outro.
Estamos quase a trinta de junho e são ainda três horas
repletas de silêncio nos candelabros enterrados nas ruas.
Pensamos nos livros escritos em dois mil e quinze
com suicídios, desemprego, pobreza,
e misérias .
Pensamos na grande biblioteca de Alexandria
com milhares de rolos que estão ainda a ser destruídos.
Como eu desejaria cantar com a precisão de Euclides
e escrever sobre a poesia de Calímaco!
Nasceriam de nós biliões de seres e árvores por impulso.
Nós vivemos à beira de precipícios com frutos de néon e bombas de mentiras.
Enviaram-nos via nuvens
pátrias,
pedras, musgos,
águas,
povos esmagados,
tempestades,
montanhas planetárias de nova geração.
Como olharenos agora a Última Ceia?
Como escrever a caligrafia  derramada em laboratórios de sangue?
Nós tivemos uma ideia do que poderia ser feito esta madrugada:
A Novíssima Biblioteca de Alexandria

© maria azenha
                   
***«»***
Como se um enorme precipício, um devorador buraco negro, se abrisse à frente dos nossos pés, arrastando em cascata multidões inteiras, aos gritos (ouvindo-se os hinos da celebração da morte) e envolvidas nas nuvens de cinza dos rolos da Biblioteca de Alexandria. E isto tudo, porque o Partenon vai ser destruído, pedra a pedra, em trinta de Junho, por decreto divino de Zeus.

A "poeta" maria azenha colabora regularmente no Alpendre da Lua.

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