sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Só a mudança de paradigma (pela via revolucionária) poderá derrotar o capitalismo financeiro


O economista João Rodrigues, num artigo no blogue Ladrões de Bicicletas, escreveu o seguinte: "Vamos assumir que a prazo não há nada como “o gradual entranhamento das ideias”, de que falava Keynes. Só espero que isto não seja no longo prazo, porque aí estamos mesmo mais do que derrotados"...

Eu julgo que a "guerra" começa a ficar perdida, já que os agentes do capitalismo financeiro internacional, sediados nos bancos, conseguiram desenvolver uma estratégia de ocultação das suas próprias culpas na ocorrência da crise iniciada em 2008, o que foi fácil, pois os aparelhos políticos dos países ocidentais (os partidos conservadores e os partidos da social democracia) já se encontravam devidamente domesticados para lhes dar a respectiva sequência, através da aplicação das políticas de austeridade sobre as classes médias e as classes trabalhadoras (resguardando, da sua incidência, os rendimentos do capital).
Apanhados ideologicamente desprevenidos, os cidadãos que mais penalizados foram por essas políticas austeritárias não tiveram tempo de perceber o que estava em causa. E a principal causa reside na financeirização acelerada e extrema da economia real, nos últimos trinta anos, possibilitada pela globalização desenfreada e pela deslocalização dos meios de produção para os países de mão de obra barata, processo este que permitiu aumentar a liquidez dos grandes bancos e dar início, em grande escala, e por uma questão de rentabilidade, ao engenhoso esquema da especulação financeira e imobiliária e à sibilina imposição da dívida aos Estados e às famílias. É necessário que o cidadão comum perceba que os bancos necessitam de uma economia assente na dívida para sobreviver e aumentar os seus lucros e mais-valias. Conquistado este patamar, o seu poder sobre a política dos Estados e sobre os comportamentos dos cidadãos tende a consolidar-se. É o que está a acontecer.
Para Portugal e para os outros países do sul da Europa, um outro problema se agiganta: a moeda única, que foi a grande ratoeira armada pelo capitalismo europeu e pela sua maior potência, a Alemanha, aos países menos desenvolvidos. Poucos perceberam que, para os países europeus menos desenvolvidos, a perda do poder cambial e monetário e, posteriormente, do poder orçamental seria um perfeito suicídio, que deixava cada Estado manietado, para poder gerir, de forma independente, o seu próprio quadro macroeconómico. E até, a este nível, o capitalismo financeiro encontrou fiéis aliados na classe média, pois, todos aqueles cidadãos, mesmo os de esquerda, que possuem depósitos bancários acima de cinquenta mil euros, rejeitam a hipótese da saída do euro, que é uma condição estruturante para poder ultrapassar a crise do país.
A outra condição (e ninguém fala nisto), é a nacionalização dos bancos, o verdadeiro instrumento de poder do capitalismo financeiro. Na perspectiva de uma economia orientada para o bem comum, nenhum argumento invalida a evidência das vantagens de ser o Estado a gerir a actividade do crédito às empresas e às famílias.
Mas estes dois desideratos (a saída do euro e a nacionalização da banca) não poderão ser conseguidos no actual modelo político de ditaduras democráticas (ou de democracias travestidas). Só um amplo e generalizado processo revolucionário, que mude o paradigma, tal como a burguesa Revolução Francesa mudou o paradigma feudal, conseguirá restituir aos povos a liberdade e a equidade, bem como o desenvolvimento de economias saudáveis, baseadas na produção de bens e de serviços, que visem satisfazer as necessidades das populações,  e não na actividade especulativa do dinheiro, que apenas favorece as grandes fortunas.
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Em 18 de Janeiro de 2017, repesquei este texto, publicando-o no Facebook, com a seguinte nota introdutória:
“Repesco este texto, de Fevereiro de 2014, que me parece ter toda a actualidade, embora, aparentemente, a maioria da multidão silenciosa pense que já estamos a começar a andar num mar de rosas. Nenhum problema estrutural da crise europeia foi resolvido, e se a pressão de Bruxelas e de Berlim abrandou (reparem que se calaram todos) é porque os dirigentes políticos europeus estão em pânico, devido à incerteza dos resultados das eleições, que irão ocorrer este ano, e que poderão constituir o rastilho de uma qualquer mudança radical”.