quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crónica: A guerra não é entre os povos, que não a desejam, mas sim entre os poderosos, que a decretam...

Soldados alemães e briânicos saíram das trincheiras para confraternizar
e jogar futebol, em Dezembro de 1914, celebrando assim o Natal.
Trégua de Natal
É o termo usado para descrever o armistício informal ocorrido ao longo da Frente Ocidental no Natal de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Durante a semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos entoaram canções e trocaram saudações festivas entre suas trincheiras; na ocasião, a tensão foi reduzida ao ponto dos soldados de ambos os lados trocarem presentes entre si. Na véspera de Natal e no Dia de Natal, aqueles soldados - bem como soldados de unidades francesas, ainda que em menor número - aventuraram-se na "terra de ninguém", onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cantos natalícios ao longo de diversos encontros. As tropas de ambos os lados também foram amigáveis o suficiente para jogarem partidas de futebol.
A trégua é vista como um momento simbólico de paz e de humanidade no meio de um dos eventos mais violentos da história moderna, mas não foi universal: em algumas frentes de combate, a luta continuou durante todo o dia, enquanto em outras foi feito apenas o trabalho de recolher os corpos. No ano seguinte, algumas unidades estavam dispostas ao cessar-fogo durante o Natal, mas a trégua não foi tão divulgada como em 1914, devido em parte às ordens dos altos comandos de ambos os lados que proibiram tal confraternização. Em 1916, após as sangrentas batalhas de Somme e Verdun e com o início do uso generalizado de gás venenoso, os soldados de ambos os lados cada vez menos enxergavam seus adversários como humanos, e a trégua de Natal não voltou a ser realizada.
A história foi contada no filme "Joyeux Noël - Feliz Natal" de 2005.
Texto e imagem da página do Facebook de Imagens Históricas
Amabilidade de Mari Trindade, que o sugeriu e indicou.

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Na Guerra, tal como nas grandes catástrofes, surgem sempre os heróis, a maioria anónimos, que se destacam pela manifestação dos elevados sentimentos da fraternidade, da solidariedade e da humanidade. O caso aqui relatado demonstra bem que a guerra não é entre os povos, que não a desejam, mas sim entre os poderosos, que a decretam. Os jovens soldados alemães, britânicos e franceses, na arriscada confraternazição natalícia a que se entregaram na época do Natal de 1914 (o primeiro ano da Primeira Grande Guerra Mundial) manifestaram os sentimentos dos seus respetivos povos.
Ao ler este texto, recordei-me imediatamente de José Maria Batista, entretanto falecido, que entrevistei para o jornal A Capital, em Outubro de 2001, na sua residência, em Campo de Ourique, Lisboa, com o objetivo de recolher o depoimento do último soldado vivo do Corpo Expedicionário Português da Primeira Grande Guerra Mundial, e que um ano depois me inspirou a nota, que no mesmo jornal escrevi, a propósito de mais um aniversário do armistício, e que em baixo transcrevo. A história que José Maria Batista me contou é emocionante. O soldado alemão ainda manteve a sua arma apontada para o matar, mas, no último momento, num ato de grande generosidade e humanidade, desistiu do seu intento, talvez porque tivesse pensado que estava na presença de um homem igual a ele....

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Crónica em A Capital

"José Maria Batista é o último sobrevivente da Grande Guerra 1914-18, tendo participado na célebre batalha de La Lyz, em 9 de Abril de 1917, onde foi feito prisioneiro pelas tropas alemãs, naquela altura ainda confiantes na vitória final.
Numa entrevista a A Capital, em 31 de Outubro de 2001, José Maria Batista descreveu com emoção o momento em que, ferido com um estilhaço de uma granada e sem se poder mexer, um soldado alemão o desarmou e lhe apontou a sua arma para o matar, para depois, num gesto de grande humanidade para com o prisioneiro de guerra e elevando-se acima da barbárie da guerra, compartilhar com ele a água do seu cantil e dividir os seus últimos dois cigarros, que restavam. E foi nesse momento, em que perdeu a liberdade e compreendeu o que eram os sentimentos de humanidade e de fraternidade, que José Maria Batista, segundo disse, "tomou consciência  daquela guerra e daquele inferno", que assombrou o mundo e endoideceu Deus.
Depois do cativeiro, da libertação, e do armistício, que se comemorou ontem, José Maria Batista regressou a Portugal e voltou a abraçar a vida de ferroviário, a sua paixão de sempre.
Pelo caminho, o reconhecimento recente. Em 1998, pelas mãos do embaixador de França em Portugal, foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Legião de Honra, condecoração essa que exibe com orgulho".
Alexandre de Castro
Jornal A Capital
11 de Novembro de 2002