quinta-feira, 27 de abril de 2017

Raízes - "Boiada" _ Uma Nota sobre etnografia



BOIADA

(MINHO)

Labra boi e torna a labrar
Pedei ao Senhor que nos benha ajudar
Ei ei ei boi a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Que dais a quem os bai ver
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber
Bom terreiro p’ra dançar
Água fresca p’ra beber
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber

Senhora tão pequenina
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina
Comadre da minha mãe
Senhora minha madrinha
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina

Labra boi labra por trás da capela
Pica e repica na baca amarela
Ei ei ei boi labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Tudo é caminho e chão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão
Tudo são crabos e rosas
“Prantados” por minha mão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão

O bosso mosteiro cheira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira
Cheira a crabo cheira a rosa
Ao botão de laranjeira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira

Labra boi labra por trás do arado
O nosso labrador
Merece um cigarro
Ei ei ei a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Eu já estou alibiado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado
Duma fala que me deste
Eu fiquei desenganado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado

In Raízes G. A. C.

***«»***
Eu não sei em que estado se encontra o trabalho de uma recolha sistematizada do património imaterial português. Também não sei se o Ministério da Cultura dedica a devida atenção à investigação, recolha, tratamento e divulgação do imenso material etnográfico que ainda existe nos territórios, geograficamente mais profundos, do país, e que, com a desertificação humana e com a penetração dos meios audiovisuais e das novas tecnologias, está ameaçado de extinção. Falta-me também informação sobre a investigação académica das universidades, que ministram cursos de Antropologia Social, e se essa investigação está articulada com planos consistentes, já existentes, ou se se remetem, de uma forma elitista, ao mundo fechado dos seus saberes, obedecendo mais aos seus interesses institucionais e voluntaristas.

O que sei é que, num trabalho desta importância e envergadura, é necessária uma colaboração dos vários agentes culturais, não ignorando as iniciativas locais e particulares, que não podem ser excluídas.

Um plano central do Ministério da Cultura, negociado entre todos os vários agentes, vocacionados para esta área do conhecimento, é necessário. Um plano central, metodicamente bem organizado e bem estruturado, em relação aos objectivos, aos meios materiais necessários, ao financiamento justo e equilibrado, e ao controle da execução e dos resultados. Tem de ser um plano rigoroso, mas que não seja asfixiante, com os excessos de burocracias paralisantes e que permita e estimule as capacidades de iniciativa e de criatividade dos agentes culturais locais. Apenas um exemplo para explicitar melhor esta última ideia. Se num determinado lugar do país, ignorado ou esquecido pelos poderes centrais institucionais, pretender-se revigorar aspectos do seu património imaterial, o plano deve contemplar, de uma forma aberta, a deslocação de personalidades académicas que possam dar o seu contributo científico.

E as escolas? Que eu saiba (e eu sei pouco) não existem nos currículos escolares referências ao estudo elementar sobre o património cultural imaterial, pois o ensino está inteiramente vocacionado para o conhecimento utilitarista.
Se Portugal continuar a perder este riquíssimo património, ficará mais pobre, porque perderá a sua memória. E para saber quem somos, devemos saber de onde viemos e como viemos.

Estou a falar de cultura e não de adereços culturais, para mostrar aos turistas. Não estou a falar de futebol, que já parece ser um desígnio nacional, para mostrar lá fora que também somos grandes. Por estas vias enviesadas, o melhor que podemos ser, é grandes anões. 

Alexandre de Castro
2017 04 27

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