quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pilhagem e agiotagem: dois processos paralelos da política económica e financeira da Europa


O euro foi o principal instrumento da rapina, utilizado pelas instituições da União Europeia. Permitiu a silenciosa aceleração da transferência da riqueza produzida pelos países da periferia (os mais pobres) para as economias dos países do centro (os mais ricos).

Neste curto período da História da moeda única, ainda não é possível fazer uma rigorosa análise dos seus efeitos, mas já há sinais evidentes de que o euro vai ser o coveiro dos países pobres e, por arrastamento, a longo prazo, da própria Europa.

Ainda ninguém me deu uma resposta a uma pergunta que tenho andado a fazer: Por que razão uma crise tão profunda e tão perversa, como é esta, que já dura há sete anos, e cuja resolução não se vislumbra, no horizonte próximo, ainda não teve solução, nem foi ultrapassa? Para mim, a resposta é só uma. Trata-se de uma crise estrutural profunda e não uma daquelas crises cíclicas, comuns ao sistema capitalista, provocadas pelo desequilíbrio macroeconómico do binómio Procura / Oferta, mas que foram sendo resolvidas num curto espaço de tempo (dois ou três anos), recorrendo-se à desvalorização da moeda.

A crise do euro é de outra natureza. É uma crise provocada pelo sistema financeiro, que recorreu à agiotagem numa escala nunca vista, servindo-se do sistema político bipartidário universal (à escala europeia), em que os dois partidos dominantes se esgadanhavam entre si, pela conquista do poder, mas, que estavam perfeitamente sintonizados nas questões fundamentais, como são as  do processo da pilhagem de recursos e o da agiotagem, entretanto postos em marcha.

O Processo da pilhagem e a agiotagem mais não fizeram do que transferir a riqueza produzida pelos países pobres para os países ricos.

A pilhagem iniciou-se nas últimas duas décadas do século passado, com as ajudas comunitárias, que até pareciam um acto altruísta de generosidade e de solidariedade, por parte da Europa rica. As pessoas foram enganadas, julgando que estavam a receber ajudas desinteressadas. Não estavam. Todo esse dinheiro, que jorrou da torneira da Europa, destinava-se obrigatoriamente a um certo tipo de investimentos, investimentos estes que levaram naturalmente, devido à intencional abertura das fronteiras, os países receptores a importar equipamentos, matérias-primas e produtos acabados dos países ricos, principalmente da Alemanha e da França. Um exemplo ilustrativo: todo o alcatrão utilizado na construção das auto estradas portuguesas veio da Alemanha. A maior parte dos equipamentos para as milhares de empresas de construção civil, que se formaram em Portugal, após à adesão ao euro, tiveram a mesma origem. Como se disse anteriormente, a prévia e intencional abertura das fronteiras, para formar o espaço europeu, e a consequente extinção de pautas aduaneiras, facilitaram este circuito, que muito beneficiou a Alemanha e a França, que viram aumentar em flecha as suas exportações. Com esta oculta política económica de conveniência, a Alemanha chegou a exportara para o espaço europeu sessenta e cinco por cento do total das suas exportações, o que mostra a importância que o mercado europeu tem para a sua economia.  

Por sua vez, a agiotagem exerceu-se ao nível da dívida, que se alimentou do pretexto de que cada português (grego ou espanhol) deveria ter casa própria, pois então. Os grandes bancos alemães e franceses, ajudados pelo BCE, que manteve as taxas de juro intencionalmente baixas, através do controle da inflação, começaram a seduzir os bancos dos países periféricos para forçarem, entre as classes médias, o crédito para habitação própria e para a aquisição de bens de consumo, que eram verdadeiras galinhas de ovos de ouro. Os bancos do centro emprestavam dinheiro aos bancos dos países da periferia e estes emprestavam aos incautos consumidores. Foi uma festa, que acabou em tragédia. A bolha especulativa tinha de rebentar, com tanto crédito concedido ao desbarato. E o posterior incumprimento dos devedores seguiu o percurso inverso do capital emprestado. Os clientes deixaram de pagar aos bancos dos países da periferia, e estes deixaram de pagar aos bancos da Alemanha e da França. O resto da história já o leitor a conhece. A Europa vive assim num estado de pré-falência do seu sistema financeiro.

No entanto, devo acrescentar o seguinte: os dividendos do accionistas dos  bancos ficaram garantidos, com a cobrança dos juros. Calcula-se que cada empréstimo foi premeditadamente concebido e calculado, para que, a meio do tempo da vigência do contracto, em juros e amortizações, o capital emprestado fosse totalmente reabsorvido pelo banco, ficando o tempo contratual restante a gerar apenas lucros. Grande negócio.

Tudo isto não é novidade, pelo menos ao nível das ajudas. Foi o que fizeram os Estados Unidos à Europa, após as duas guerras mundiais do século passado, principalmente após a segunda guerra, que deixou a economia europeia de rastos e Alemanha com as suas infra-estruturas completamente destruídas. O Plano Marshall injectou na Europa muitos milhões de dólares para a reconstrução das infra-estruturas produtivas e do parque habitacional, dinheiro esse que serviu de suporte financeiro aos países europeus para importarem maquinaria industrial, automóveis e outros veículos motorizados, além de bens de consumo, de que a Europa estava carenciada. Na realidade, a Europa foi muito beneficiada com estas ajudas, mas também é certo que os EUA beneficiaram muito mais com o fulgurante aumento das suas exportações, ao ponto de se transformarem na primeira potência mundial.

Mas, ao contrário do está a acontecer na Europa, o Plano Marshall não impunha aos países europeus restrições económicas de qualquer ordem, nem impôs nenhuma moeda única transatlântica, até porque os EUA pretendiam criar no ocidente europeu economias robustas, que permitissem aumentar o poder de compra da população, a fim de travar o contágio da ideologia comunista, que alastrava entre o operariado e o mundo intelectual.

E é nesta perspectiva, a da análise dos grandes ciclos da História, que podem compreender-se melhor os acontecimentos do presente.  
Alexandre de Castro