sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Uma campanha eleitoral para esquecer...


Esta campanha eleitoral foi paupérrima. Foi a campanha mais pobre da nossa democracia. Foi uma campanha sem mérito. Eu até me atrevo a dizer mais: foi uma campanha vergonhosa, porque se cingiu ao remoque, ao ataque pessoal e à criação de slogans. Para acentuar este empobrecimento, apareceram pela primeira vez as sondagens diárias dos jornais e televisões, sondagens com metodologias duvidosas e, algumas, suspeição minha, bastante tendenciosas.
Por mérito do PàF e desmérito do PS, não se discutiu convenientemente a governação dos últimos quatro anos, os quatro anos mais dolorosos para milhões de portugueses, que se confrontaram com medidas brutais, aplicadas sobre os seus rendimentos. Desempregados, funcionários públicos e reformados e pensionistas foram esbulhados sem dó e piedade e equiparados a párias. Os jovens, pela primeira vez, engrossam os números assustadores do desemprego de longa duração, dando origem ao que já se chama a geração perdida.
Ao nível das políticas sociais, o governo de coligação esmerou-se criativamente e cirurgicamente no desmantelamento do Estado Social. O sector da saúde sofreu cortes monumentais, que levaram ao encerramento de serviços em hospitais e de centros de saúde. Os entraves à colocação de Médicos de Família, para substituir os que iam reformando-se, e o congelamento de concursos para as diferentes especialidades hospitalares provocaram longas listas de espera para obter a marcação de uma consulta, de um meio auxiliar de diagnóstico ou de uma intervenção cirúrgica.
Também se passou por cima, retirando os temas da discussão pública, do elevado nível de endividamento público, que este governo colocou em 130 por cento do PIB, quando em 2010 era de 90 por cento, e do défice orçamental, que este ano, segundo as projecções de uma instituição pública, vai regressar ao nível do obtido em 2010. E os dirigentes da coligação governamental continuaram a dizer que o país está melhor, o que é uma mentira. E muito mais haveria para dizer. Só me espanta, caso as sondagens venham a reflectir a realidade dos resultados das eleições, que as principais vítimas desta desastrada e criminosa política, de uma direita troglodita, venham a votar nos seus carrascos.
O Partido Socialista, por incapacidade própria do seu programa, muito difuso e pouco transparente, e também por incapacidade do seu líder, que apenas ganhou em termos de simpatia, não se apresentou bem preparado para a alternância, que não é a mesma coisa do que a alternativa. As pessoas perceberam que - no aspecto fundamental, que, neste momento, se coloca, a discussão da nossa complicada relação com a Europa, que nos escraviza - a posição do PS não era diferente da posição da direita. António Costa empurrou com a barriga esse problema para as instituições europeias, que já mandam em tudo, e para uma ação comum, concertada com os partidos europeus da sua família política. Proposta enganadora. Todos nós assistimos ao seu vergonhoso comportamento na questão da Grécia. Subscreveram a dura posição da Alemanha e a dos outros países ricos.
Resta falar da CDU e do Bloco de Esquerda. A CDU mantém-se firme nos seus princípios de pugnar por políticas de desenvolvimento económico, em que o Estado tem de intervir activamente, ao mesmo tempo que defende o fim da austeridade e o reforço de uma economia ao serviço de todos os portugueses. E, no seu programa e no seu discurso, não se esqueceu da necessidade de Portugal libertar-se do colete de forças da Europa, que é, neste momento, o principal problema estrutural da política e da economia do país.
O Bloco de Esquerda alinha com esta ideia, mas eu não me posso esquecer que a Catarina Martins foi oferecer-se ao António Costa, sem ele a ter chamado, afirmando que deixava marcado um encontro com ele no dia seguinte ao das eleições, caso ele as ganhasse. Eu sei que o vinho se mistura com a água, mas também sei que a água não se mistura com o azeite.
Uma palavra final sobre as sondagens, que constituíram um grande negócio para as empresas dos jornais e das televisões. Sem terem sido auditadas por nenhum organismo credível, é legítimo suspeitar dos seus métodos de recolha de dados e do respectivo tratamento dos resultados. Nessas sondagens, manteve-se ao longo da campanha, por coincidência ou não, uma situação de empate técnico entre o PS e o PàF, que era a situação mais favorável para o negócio, uma vez que iria espicaçar a curiosidade do público para os resultados das sondagens do dia seguinte. Não acredito em bruxas, mas acredito que elas existem, como me ensinou a minha avó.
De qualquer forma, e isto é o aspecto mais grave, elas acabaram por influenciar o eleitorado. E o trabalho que se espera da comunicação social não é influenciar, mas esclarecer com isenção. Perante a força mediática, que a comunicação social estava a ter na agenda política da campanha, os políticos do PS e do PàF começaram a especializar-se na troca de piropos e na construção de um discurso metafórico, que era isso que os jornais e as televisões pretendiam, a fim de ganhar audiências. Neste aspecto, a comunicação social prestou um mau serviço ao país, que irá ficar na História, porque não abriu espaço suficiente para se discutirem as propostas e as ideias, preferindo fazer da campanha um espectáculo de boxe, mantendo em aberto a expectativa de quem venceria por KO.

2 comentários:

O Puma disse...

Será que vão votar em sondagens?

Alexandre de Castro disse...

Consta que nas próximas eleições já não são os partidos a escolher os candidatos. Serão os jornais e as televisões.
Mas também já anda no ar a ideia de se ensaiar um outro modelo para a votação. A fim de evitar o incómodo de o eleitor ter de se dirigir ao local onde funciona a assembleia eleitoral e, também, para tentar reduzir as elevadas taxas de abstenção, a votação será feita, no Domingo aprazado, através de um telefonema (com valor acrescentado) para os programas matinais de entretenimento das televisões, que, no final da votação,além de realizarem um sorteio de um automóvel topo de gama,comunicarão os respectivos resultados eleitorais.Isto, seguindo aquela ideia peregrina de que os privados sabem gerir melhor as coisas do que o Estado.